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A volta de Lula e o cenário latino-americano

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Eu contarei isso com um suspiro
De algum lugar daqui a eras e eras:
Duas estradas divergiam num bosque, e eu –
Eu tomei a menos trilhada,
E isso fez toda a diferença.

(Robert Frost)

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Pelo que podemos notar nos últimos pleitos no continente, há em curso uma fuga do fascismo, do liberalismo levado ao ponto da selvageria e do imperialismo, da hegemonia brutal que impede o desenvolvimento regional e administrações populares na América Latina. Aparentemente nos estertores da pós-política, o retorno ao populismo de esquerda vem mostrando um desejo político, um anseio de participar do redesenho das novas fronteiras, de uma nova ordem multipolar, vislumbrando a oportunidade de se livrar das correntes.

A esfera de influência hegemônica do “Ocidente” vem sofrendo abalos. Após um período de golpes disfarçados, hoje vemos que as relações de vassalagem dos exércitos latino-americanos com a matriz norte-americana, o lawfare e a imposição de pautas para uma “nova esquerda” não parecem ter sido suficientes para garantir a permanência de governos títeres por muito tempo.

Colin Crouch definiu o termo “pós-democracia” como a quebra de dois pilares idealizados da democracia, a igualdade e a soberania popular. O papel dos interesses corporativos é predominante em detrimento a outros grupos representativos. A democracia dos parlamentos vale menos do que os interesses de uma elite fechada em suas salas, determinando os rumos de uma globalização que intensifica a desigualdade e as diferenças regionais.

México, Honduras, Venezuela, Cuba, Bolívia, Argentina, Peru, Colômbia e até mesmo o Chile hoje contestam, em maior ou menor grau, esse domínio imposto. Como base mínima de uma retomada independente, todos afastaram a opção mais abertamente fascista e subserviente nas urnas, dentro dos parâmetros institucionais. O teor da contestação ao imperialismo varia em demasia, mas está na base da escolha popular.

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As últimas pesquisas na maior economia regional, o Brasil, mostram um caminho mais sólido, com o retorno da maior liderança de esquerda do continente à presidência. Por sinal, entre as diretrizes apresentadas pelo PT e seus aliados, há um espaço considerável para as relações entre países:

“Defender a nossa soberania é defender a integração da América do Sul, da América Latina e do Caribe, com vistas a manter a segurança regional e a promoção de um desenvolvimento integrado de nossa região, com base em complementariedades produtivas potenciais entre nossos países. É fortalecer novamente o Mercosul, a Unasul, a Celac e os Brics. É estabelecer livremente as parcerias que forem as melhores para o país, sem submissão a quem quer que seja.

É trabalhar pela construção de uma nova ordem global comprometida com o multilateralismo, o respeito à soberania das nações, a paz, a inclusão social e a sustentabilidade ambiental, que contemple as necessidades e os interesses dos países em desenvolvimento, com novas diretrizes para o comércio exterior, a integração comercial e as parcerias internacionais”.

A centralidade da união regional e dos BRICS também está presente nos discursos de Lula. A pressa em se livrar da posse de nossas matrizes energéticas escancara o desespero das grandes corporações internacionais e do capital financeiro, que procuram estabelecer os limites de nossa autonomia para o desenvolvimento e os parâmetros vigentes de nossa economia, mantendo o cenário que deu conforto aos nossos senhores nos últimos anos.

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A oportunidade é única porque não só a hegemonia única vem sendo contestada, mas as próprias instituições liberais vêm sofrendo descrédito à direita e à esquerda. Ao mesmo tempo, houve o ensejo de se manter a estrutura democrática, ao menos nas aparências. E as reminiscências da democracia liberal, a maldita vontade popular, mesmo contra todo o aparato midiático, contra as imagens de razão e sucesso que esmagam e moldam a opinião pública, parece ter estragado a platitude dos horizontes neoliberais. As certezas triviais, presentes nos noticiários e no mundo do entretenimento, parecem não alcançar as camadas mais espoliadas das sociedades.

Alcançamos o interregnum de Gramsci, quando as premissas de consenso em torno do projeto hegemônico são abertamente desafiadas. Do ponto de vista das democracias ocidentais, duas tradições entraram em choque: de um lado, o Estado de Direito e a defesa das liberdades individuais; de outro, anseios democráticos que valorizam a igualdade e a soberania da maioria. Parece ter ficado às claras que as duas posições não se casam e, mais que isso, são antagônicas.

Como já vemos em vários países do continente, o caminho é longo e árduo, e contará com percalços e novas tentativas de subjugar anseios populares e de independência. Na encruzilhada, caminhos que levam a experiências autoritárias e de força. Mas também enxergamos a estrada nunca inteiramente percorrida, a da construção de nosso desenvolvimento autônomo, de nossos valores democráticos e de uma justiça social que permanece distante e desejada.