Reconta Aí Atualiza Aí Vacinar toda população nunca foi o plano de Bolsonaro, diz Alexandre Padilha

Vacinar toda população nunca foi o plano de Bolsonaro, diz Alexandre Padilha

Segundo o ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, Bolsonaro jamais pretendeu vacinar toda a população contra a Covid-19.

Alexandre Padilha (PT/SP) foi ministro da Saúde durante o governo Dilma Rousseff entre 2011 e 2014. É relembrado principalmente pela criação do programa Mais Médicos, entregue ao Congresso em 2013 e aprovado no mesmo ano. Hoje, o médico formado na Unicamp e especialista em Infectologia pela USP, é deputado federal.

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E é na Câmara que tem travado batalhas para fortalecer o SUS e exigir do governo um planejamento efetivo para o combate à pandemia e ao altíssimo número de mortos por Covid-19.

A falha original do Plano de Vacinação

De acordo com Padilha, o plano de vacinação do Governo Federal tem uma falha original: ele parte do princípio de que o SUS não precisa garantir vacina para toda a população. No mesmo sentido, explica: “O governo Bolsonaro tem como objetivo de seu plano, desde o começo, vacinar apenas parte da população, aquela que foi definida como grupo prioritário”.

Para o ex-ministro, essa posição está errada. Na verdade, duplamente errada. Segundo ele, o Governo Federal parte do princípio de que as vacinas para a Covid-19 não têm um papel para a redução da transmissão da doença, o que não é verdade.

Para exemplificar, conta que a vacina da Covid-19 é diferente das vacinas para H1N1, por exemplo. Elas foram usadas na chamada “gripe suína” e mostraram sua força para reduzir mortes e casos graves. “Por isso, vacinava-se apenas os grupos prioritários, como se faz hoje com a vacina da gripe”, disse Padilha.

Já as vacinas contra a Covid-19 mostram nos seus estudos da fase dois e, sobretudo de fase 3, eficácia para reduzir e bloquear a transmissão. Dessa forma, quando se tem uma vacina que bloqueia a transmissão, a estratégia vacinal deve ser diferente.

Como deveria ser a vacinação?

Conforme explica Padilha, “deve-se vacinar toda a população, começando pelos grupos prioritários. Mas tendo como o objetivo de vacinar toda a população”.

Entretanto, além do governo não partir dessa premissa, o Plano de Vacinação apresenta uma série de falhas. Por exemplo, a definição de grupos prioritários. O ex-ministro afirma que a população em situação de privação de liberdade precisa ser atendida. Assim como os profissionais da educação, que fazem parte de um grupo importantíssimo para que se possa garantir a retomada das aulas presenciais, sugere Padilha.

Outra falha importante é a falta de detalhamento da questão operacional. Não há no plano a viabilização da logística, dos recursos a seres usados e nem o planejamento com os estados e municípios.

“É um plano que parte de uma premissa errada. Tem uma série de falhas em relação a calendário, planejamento, compra de insumos e que mostra mais do que incompetência, a irresponsabilidade do atual governo na condução da pandemia”.

Alexandre Padilha

As trincheiras da resistência

O Congresso Nacional tem tido uma postura importante diante da inação do poder Executivo. Um exemplo é a comissão mista de acompanhamento às medidas de combate à Covid-19.

Outra importante ação saiu do gabinete de Padilha, na Câmara dos Deputados. Ela consiste em uma emenda à Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2021, cujo objetivo é estabelecer como meta a vacinação obrigatória para todos.

De acordo com Padilha, o objetivo é que o Governo Federal reserve recursos no Orçamento de 2021 para garantir vacinação para toda a população. Contudo, a medida aprovada foi vetada por Bolsonaro. Agora, cabe ao Congresso a mobilização para derrubada do veto presidencial.

Porém, outras situações em relação à pandemia preocupam e foram atacadas pelo deputado. Uma delas é a tramitação da Medida Provisória que separa recursos do governo para a adesão ao Consórcio Internacional de Vacinas, coordenado pela OMS.

Nela foram incluídas, pelo Congresso, uma série de obrigações ao Governo Federal sobre o plano de vacinação. Entre as obrigações, a universalidade da aplicação das vacinas, a distribuição de acordo com a vulnerabilidade de cada estado e a inclusão dos trabalhadores da Educação e dos serviços essenciais nos grupos prioritários.

Outra mudança que Padilha conseguiu, nessa Medida Provisória, foi a obrigação de que a ANVISA autorize o uso emergencial para todas as vacinas que estejam aprovadas em agências internacionais no prazo de cinco dias. “Temos várias vacinas sendo aprovadas em todo o mundo que já poderiam estar sendo contratadas para uso no Brasil”, afirma Padilha.

“Essa medida abre a possibilidade de incorporação de novas vacinas no Brasil e com isso um plano de vacinação mais amplo e mais rápido”.

Alexandre Padilha

O Brasil atrás de todos

Grande parte dos países já começaram a vacinar a população.
Site mostra a quantidade de vacinados a cada 100 pessoas. Brasil até hoje, 6 de janeiro, não vacinou ninguém.

“É assustadora a situação do Brasil não ter começado a imunizar a população”, afirma Padilha. “Durante a pandemia da H1N1, o Brasil foi o País que mais vacinou no sistema público de saúde no mundo inteiro: foram 80 milhões de pessoas em 3 meses. E mais de 100 milhões de pessoas ao longo de 2010”, relembra o médico, que ocupava o cargo de ministro das Relações Institucionais à época. No mesmo sentido evoca: “O Brasil foi um exemplo de resposta vacinal na pandemia de H1N1”.

O deputado fala que a inércia do governo não foi por ignorância. “Desde maio desse ano o Congresso Nacional, por meio da Comissão de Fiscalização das Ações de Combate ao Covid-19, pauta o tema de um Plano de Vacinação e o planejamento da compra de insumos”, disse Padilha.

Entretanto, ao que parece, a não vacinação é um projeto do Governo Federal. Na opinião do deputado, Bolsonaro não quer um plano amplo de vacinação por motivos políticos. O primeiro é a relação com governos estaduais e empresas e governos internacionais. “Um plano amplo de vacinação exige necessariamente a compra de várias vacinas e o compartilhamento com governos estaduais e empresas internacionais”, explica Padilha.

Já o segundo motivo, seria interno. “Bolsonaro não quer a população vacinada rapidamente porque teme que, caso esteja vacinada, ela se sinta mais habilitada a protestar na rua contra seu governo”, aposta o ex-ministro.

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