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Um Casamento e Alguns Funerais

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Só nos últimos dias, vamos lá. Não vamos nos estender pelos mais de três anos de barbárie.

Houve mais grita sobre gastos no cartão corporativo – dinheiro do contribuinte – que são absolutamente inexplicáveis. Mas as investigações da mídia, tão ciosa sobre a corrupção e gastos do dinheiro público, não conseguem dar conta de saber onde e como esse dinheiro foi gasto.

O orçamento secreto – outro processo bizarro que atinge diretamente a louvável e aclamada transparência do uso do dinheiro público – aplicou mais um baque na moralidade e austeridade apregoadas nos últimos anos. Foi revelado que, para comprar apoio dos deputados, realocaram dinheiro do SUS para completar o famigerado montante. E nada, nada disso causou espécie aos nossos jornalões e emissoras.

Ouvimos todos os dias em noticiários e propagandas pagas – já não há muita diferença – que o agronegócio, que é vida e amor, que é pop e é tudo, carrega este País nos ombros. Pois bem, a CNA (a confederação dos grandes proprietários que são o orgulho nacional) pediu ao governo cerca de 22 bilhões de reais como subsídio direto do Tesouro para auxiliar no pagamento de juros de empréstimos privados. E não há dúvidas de que receberão esse incentivo. E nada, nada disso causou clamor público ou rendeu manchetes em letras garrafais.

Após várias visitas oficiais de pastores ao Ministério da Educação e ao Planalto, espúrias negociações com ouro e bíblias autografadas por representantes divinos, uma breve celeuma foi acalmada pela troca do ministro-pastor-pistoleiro por outro nome mal conhecido. A receita do bolo ganhou sua cereja nesta semana, com a aprovação no Congresso do texto-base da lei que permite o ensino domiciliar. A questão foi tratada pela mídia em tom declaratório e com um nome charmoso, homeschooling, para dificultar o entendimento da medida. A Constituição em vigor (!?) não proíbe o ensino familiar, mas veda claramente qualquer forma de aprendizagem que não respeite o dever de solidariedade entre Estado e família na formação de crianças e adolescentes. Mas isso não é alvo de análise por parte da mídia, e sabemos o teor da bandeira deste governo (e da mídia) em relação ao papel do Estado. Para a opinião pública, isso não importa.

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Vivemos uma onda de frio que, dizem, será maior que as habituais. Em um momento em que todas as grandes cidades convivem com um número de moradores de rua crescentes. Os esforços para evitar uma tragédia partem de iniciativas individuais ou coletivas de instituições da sociedade civil. O Estado não apenas se omite, como pratica despejos, seguindo os interesses privados que administram o cotidiano governamental em todas as suas instâncias. O interesse jornalístico, ao que parece, não passará da contagem dos corpos.

Mas nossa imprensa livre trabalhou muito nesta semana. Os meios de comunicação cumpriram sua tarefa de informar a sociedade sobre os principais temas que os cidadãos devem tomar ciência. Decidiram que todos se indignariam com um casamento e uma festa privada. Afinal, se há algo indecente no Brasil é o fato de um ex-retirante, nordestino, metalúrgico e sem ensino superior ter alcançado a presidência, o respeito internacional e o afeto popular. Tudo em seu entorno deve ser alvo de opróbrio, segundo a grande mídia.

A ordem foi dada e obedecida: “se não há fatos, usem a criatividade. Lancem mão de todo o arsenal de preconceitos de classe, não se eximam disso”. Um homem que foi preso e torturado por quase 600 dias a partir de um teatro de mentiras, exclusivamente pela sua origem e popularidade, teve seu casamento devassado. Os analistas da mídia se esforçaram em várias vertentes: um luxo descabido, a festa em uma época de crise, quem foi convidado e quem foi “preterido”, o preço dos espumantes (caro para uns e barato para outros, dependendo das intenções da análise), os pratos nacionais (populismo para uns e um óbvio nariz torcido entre os “globalizados”), o vestido da noiva e seu “poder oculto” sobre o presidente…

De nada adiantou. Um homem público que carrega em seu corpo e em sua imagem a felicidade do brasileiro propiciou mais um momento de plenitude pessoal. Enquanto isso, matérias e análises jornalísticas que sempre desvelaram seu ódio de classe (“adevogado”, “presidente que não fala inglês”) e sempre tentou sugerir posses inadequadas e inexistentes (apartamento no Morumbi, tríplex, sítio, frigoríficos e ferraris) para evocar desprezo e desconfiança, tentaram fazer o seu trabalho. Desta vez ficou claro para muito mais gente que a mídia estava nua. Assumiu sem pudor o ódio que é a marca do atual governante. Foi incansável em seu embate político contra uma liderança popular. Mas a maioria da sociedade insiste em ver ali, em Lula, seu modelo de “normalidade”. A identificação popular é o que mais dói no cartel da mídia e em em seus subordinados que se prestam a esse papel de disseminar o ódio a um Brasil que rejeitam.

À audiência, só resta esperar que Lula volte a compartilhar conosco a sua felicidade. Que é a nossa, também. A maioria não se esquece disso.