Pular para o conteúdo principal

Tragédias e surtos: Afinal, o que está acontecendo com as pessoas?

Imagem
Arquivo de Imagem
surto

O empobrecimento da população, a ausência de normas e o adoecimento psíquico têm levado pessoas comuns a terem surtos, ocasionando tragédias.

Somente no mês de março, ao menos três situações limites foram noticiadas no Brasil. A primeira foi protagonizada por um segurado do INSS cujo benefício foi cortado. O homem entrou na agência do INSS amarrado a bombas e ameaçou explodir o local. O segundo ocorreu quando um homem, desesperado por não conseguir sacar seu FGTS, esfaqueou uma empregada da Caixa Econômica Federal. Já o terceiro – que obteve maior visibilidade – ocorreu com um soldado da Polícia Militar que, armado e atirando, fazia um discurso bolsonarista. Essas tragédias têm se tornado cotidianas.

Apesar de terem acontecido em diferentes locais e com motivações diversas, os casos têm um fator comum: as crises que assolam o hoje Brasil.

“A situação atual é muito propícia para o surgimento de patologias sociais”, disse o sociólogo Antonio Vieira em relação aos casos ocorridos. “Todas as questões que dizem respeito a uma ausência de segurança social vão se tornar patologias sociais, que têm um rebatimento no indivíduos”, aponta.

Clarice Pimentel Paulon, psicanalista, também concorda: “Crises econômicas nunca aparecem dissociadas de outras crises. Podemos dizer que estamos vivendo um momento de crise humanitária”, disse sobre o momento atual.

Pobreza, raiz de todas as crises e tragédias

“A gente encerrou o ano de 2020 com forte expectativa de que em 2021, a gente já tivesse acesso à vacina contra a Covid-19. Mas em 2021, o atraso do Programa Nacional de Imunização impôs à sociedade brasileira a manutenção do afastamento social e os óbvios impactos em termos de aquecimento econômico e de geração de emprego”, explica a Dra. Flávia Vinhaes Santos, presidente do Corecon-RJ.

Essa quebra de expectativa não apenas frustrou o deus mercado, mas também trouxe consequências para os trabalhadores. Em levantamento realizado por Camila de Caso, mestranda em desenvolvimento econômico pela UNICAMP, somente comparando o quarto trimestre dos anos 2019 e 2020 houve um aumento de 3 pontos percentuais no índice de desocupação.

Transportando os números para a realidade, a mestranda relata: “São cerca de 14 milhões de pessoas buscando emprego no País, isso sem contar os milhões de brasileiros que estão no trabalho informal e os que desejam outras formas de renda para conseguir saciar necessidades básicas da vida”, disse.

No mesmo sentido, a Dra. Santos relata que há um aumento de indicadores de probreza e extrema pobreza, “alcançando patamares bastante elevados”.

Racionalidade em cheque e o crescimento da perversidade

“Onde falta pão, ninguém tem razão”, afirma um ditado popular. E a crise econômica, junto à emergência sanitária, vem criando desdobramentos críticos em relação ao uso da racionalidade.

A extrema polarização política, o negacionismo científico e as saídas mágicas a problemas complexos são exemplos desse abandono da razão. Como consequência, trazem um esgarçamento do tecido social e tragédias como as vistas nos jornais, segundo Vieira.

Do ponto de vista do indivíduo, Paulon explica as consequências desse esgarçamento do tecido social: “Entramos em um processo de desumanização do outro, não nos enxergando enquanto um grupo, sociedade e sim, entendendo-nos um contra os outros”.

No mesmo sentido, a psicanalista explica que o abandono da ética e da moral culmina em movimentos como o bolsonarismo. “O Bolsonarismo é uma crise ética e moral em nossa sociedade devido ao acesso escasso e precário à informação e à dificuldade que a sociedade brasileira tem de lidar com sua memória”.

“Em um certo sentido, figuras como Bolsonaro são sintomas do tipo de funcionamento que se espera de uma sociedade que não realiza sua história: soluções rápidas para problemas enraizados, dificuldade de engajamento e de percepção da própria violência no convívio em sociedade”, acredita Paulon.

Tendências para o futuro

“Enquanto a gente não equacionar a questão sanitária, a gente não vai resolver a econômica”, assegura a presidenta do Corecon- RJ. Da mesma forma, Camila de Caso relata a alta nos preços dos alimentos, levando em conta estimativas dos economistas de que deve permanecer ainda por um período maior.

Frente a essa situação econômica, cuja melhora ainda não possível alcançar, outras crises se agravam. Assim, é possível que ainda ocorra uma maior deterioração psiquíca, tanto nos que estão sem saídas econômicas, quanto entre os que ainda têm trabalho.

Casos de ansiedade, síndorme de Burnout e depressão lotam consultórios de psicólogos, psicanalistas e psiquiatras. Segundo Clarice Pimentel Paulon, a causa atual dessas doenças é a “sobrecarga de trabalho intensificada pela pandemia e pela forma como nossa sociedade capitalista neoliberal lida com ela”.

Contudo, a psicanalista ainda enxerga saídas, principalmente aos que se arrependem de ter eleito um governo que não tem demonstrado capacidade de solucionar nenhuma das crises atuais.

“O arrependimento, mesmo que gere mal estar, não pode ser entendido como um adoecimento e sim como um processo de cura diante da polarização que a sociedade brasileira estabeleceu. A cura, muitas vezes, passa pelo mal estar já que a percepção do engano ou do erro trazem essa sensação. Mas, antes tarde do que nunca”.

Leia também:
Pressão total: Nova pesquisa revela doenças psicológicas entre bancários da Caixa