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Trabalho, Capital e Mídia – os entregadores de aplicativos

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...não é na cúpula, no ápice das organizações e suas federações, mas, antes, é na base, nas massas proletárias organizadas, que se encontra a garantia da unidade real do movimento operário, e sua força política transformadora”

(Rosa Luxemburgo)

A ideologia do indivíduo acima do coletivo (o aspecto social da democracia liberal) apodera cada um dos manifestantes a sentir-se exercendo um impacto único e significativo na promoção dessa mudança”.

(Andrew Korybko)

Nesta semana uma matéria da Pública, da jornalista Clarissa Levy, chamou a atenção para a estratégia de comunicação de empresa de aplicativo de entrega. Uma revelação tratada como escandalosa, mas que se insere em um contexto de luta ideológica que perpassa todo o mundo da comunicação e da política. Ao contrário das reações de indignação, aqui se tenta refletir sobre outros aspectos que são clareados pela denúncia que, ao fim, trata apenas de um modus operandi já estabelecido na batalha ideológica que se prolonga por todos os campos do cotidiano.

Para quem já se habituou a pensar em guerra híbrida, podemos lembrar o esquema de ação: a ideologia, motor central da dominação, mobiliza as infraestruturas financeira e social para expandir valores e convicções. A partir daí, investe-se em treinamento para a manipulação da informação, e assim vai se ocupando a totalidade das mídias. Notem que este foi exatamente o roteiro de ação da empresa de entregas por aplicativo. O liberalismo em voga é agressivo e tende ao expansionismo constante, esmagando Estados-alvo, regimes de resistência, mas também minando qualquer ideia de coletivo em prol do indivíduo dentro de parte da sociedade desse mesmo Estado, provocando revolta interna e desestabilização. A beligerância é permanente, o ataque a qualquer fissura no conjunto de valores da democracia liberal e do modelo norte-americano (“ocidental”) aciona um conjunto de informações asfixiantes e coercitivas, refazendo a realidade sem margens de interpretações, à moda totalitária.

Não é à toa que Korybko abre seu livro com um aforismo de Sun Tzu, O Mérito Supremo consiste em quebrar a resistência do inimigo sem lutar, embora muitas vezes esse método desemboque em conflitos civis. Mas a guerra aberta é evitada ao máximo, assim como os golpes militares tradicionais. Todo aparato de informações, de entretenimento, de formações de quadros políticos e estatais é abarcado pelo mesmo conjunto de valores (e certezas), criando um paredão que se ergue a cada tentativa de escapar dos dentes do grande capital e da democracia liberal.

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Esse ideário, que deve ocupar o espaço do ar que se respira, parte de uma política de Estado. Mas de um Estado controlado por um complexo de grandes corporações. Assim sendo, não é de causar espécie que elas participem dessa “guerra cultural” com afinco, não só financiando formações e movimentos com suas fundações, mas também aplicando a mesma metodologia em seu cotidiano competitivo. Para além do lucro, há a conscientização de um papel na moldagem da sociedade e do pensamento dominante.

Mas a matéria acaba percorrendo o espaço de nossa tragédia. Os entregadores de aplicativos, ainda mais os motoqueiros, são um símbolo da decadência do mundo do trabalho. Entre as facadas do golpe de 2016, a reforma trabalhista trouxe o seu grande formato de “modernização”: a precarização dos contratos intermitentes, os autônomos permanentes exclusivos, a ampliação de possibilidades de contratos parciais e temporários, a regulamentação mal e porcamente realizada do home office, a terceirização de todas as atividades, a quebra de padronização da jornada e a consequente baixa remuneração. Esse conjunto de desregulamentações, somado ao esvaziamento da Justiça do trabalho, à livre negociação entre trabalhador e patrão e ao fim da contribuição sindical, quebrou as pernas de qualquer modelo de representação coletiva, que continua sendo umbilicalmente ligado ao trabalho formal e estável.

Nada está mais fora do ideal das relações Capital x Trabalho vivido pelo movimento sindical há anos do que a uberização do trabalhador. E, dentro dessa transformação, os entregadores de aplicativo são o patamar mais espoliado e representativo do emprego precário, da baixa formação, da convivência com a desregulamentação que foi a marca destes anos pós-golpe. De certa forma, ocuparam o espaço no imaginário social que era reservado aos empregos domésticos.

O sindicalismo terá de ser reinventado. Para além de uma retomada econômica que volte ao caminho da industrialização e do desenvolvimento econômico, para além de retomada de garantias legais e sociais para o trabalhador, é preciso uma retomada da conscientização de classe, um dos papéis fundamentais do sindicalismo que vai além dos ganhos em rendimento e condições de trabalho.

Embora essas representações coletivas se encaixem na lógica do sistema capitalista, Lenin já alertava que, espontaneamente, não há como as massas exploradas transcenderem a lógica economicista, e assim as organizações sociais representativas, como os sindicatos, aquém dos partidos, podem cumprir o papel de consolidar núcleos de transformação. E essa transformação de base deve passar, fundamentalmente, pela guerra de mentalidade instaurada pelo poder hegemônico em todas os Estados e sociedades de interesse.

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Não era difícil imaginar que uma grande empresa que explora excluídos e marginalizados criasse um braço estratégico para minar qualquer organização coletiva de seus semiescravos. Que criasse atores, discursos e notícias falsas, transformasse pautas legítimas em discursos difusos. Que se apropriasse da linguagem, dos modos e valores preexistentes dos tipos sociais para esvaziar a luta trabalhista. A criação de membros infiltrados como quintas colunas é um arremate clássico. E que, acima de tudo, veiculasse uma mentalidade de orgulho da atividade e louvor do trabalho como batalha.

Também foi significativo que a candidatura de Lula, ao receber demandas da CUT nesta semana, colocasse a regularização dos trabalhadores de aplicativos em uma posição de destaque. Partido e sindicato precisam criar meios que não só deem mais dignidade e segurança a esses trabalhadores, mas também criar um espaço onde eles entendam o seu poder coletivo, seu lugar na sociedade e no sistema, a exploração da qual são vítimas e o nome de seus inimigos.

Cada período histórico, econômico e social carrega consigo a sua forma de consciência de classe. A nossa, atualmente, perdeu-se nos fumos das mídias. A legitimação e institucionalização do conflito do trabalho contra o capital – a luta sindical – implicam em destacar as demandas que questionem o próprio modo de produção. Na atual conjuntura, fica claro que uma mobilização para queimar estátua e glorificar um personagem midiático é algo mais óbvio, mais provável e mais aceito do que qualquer mobilização contra seus próprios algozes, mais sólidos e prejudiciais do que um monumento mal compreendido até mesmo em sua maldade simbólica.