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Touro de Ouro: a cafonice da elite no Brasil da fome e da informalidade

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Touro

(…) Maldição ao Rei, rei dos ricaços,
Da miséria faz tão pouco caso;
Nos roubou até o último centavo
Para nos lançar nos braços do carrasco –
Nós tecemos e tramamos!


Maldição à Pátria desamada,
Onde o escárnio e a humilhação se alastram;
Onde a flor que flore é logo estraçalhada;
Onde a podridão seus vermes amealha –
Nós tecemos e tramamos!


Voa a lançadeira no tear,
Noite e dia, trabalhamos sem parar –
Alemanha, nós tecemos tua mortalha,
E tramamos nossa tripla maldição,
Nós tecemos e tramamos!


(Heine, Os tecelões da Silésia, 1845)

Do outro lado do oceano, um líder popular recebido com honras de chefe de Estado pelas maiores lideranças europeias. A alegria nas ruas e palácios não macula o decoro, a elegância e o garbo dos eventos. A gravidade do sofrimento humano não é sobrepujada pela pompa, já que os discursos são registrados como históricos e geram manchetes, debates políticos globais e debates com prêmios Nobel. Lufadas de esperança em um país e seu povo, velhas imagens de felicidade e acolhimento renascem das cinzas em terras alheias.

Nos confins da Miami oriental, uma turba de saqueadores lambuza-se com os lucros da fome, da morte, do desespero e do butim. Festejam a ocupação de um país distante, a destruição e a miséria. Como macacos, trocam o vestuário cotidiano (fardas de militar ou miliciano, ternos de rentistas ou profissionais liberais parasitas) por fantasias de Ali Babá e de sua corja. Posam para as câmeras com desagradáveis sorrisos de quem foi às lojas mais caras do Shopping e faz questão de esfregar as compras na cara dos vizinhos necessitados. O odor de mau gosto espalhou-se pelos ares do mundo que deu atenção ao turismo oficial. Eles tem a certeza do poder e de que são os eleitos, pois possuem cada vez mais. Só possuem, nada são.

Nas bandas do Sul, prosseguem as dores lamentos saques massacres matanças. A ínfima parcela que enriquece neste cenário ostenta seus luxos e tripudia dos amaldiçoados. As matas cheias de fumaça fogo cinzas animais carbonizados indígenas baleados. Nas ruas, outra guerra. Restos humanos entre crostas de sujeira e andrajos estendem as mãos sem esperança por comida ou trocados. Hordas de zumbis se alinham em filas de empregos que mais parecem correntes, trocam as últimas forças por pouca comida. Famílias inteiras perderam luz gás escola empregos móveis saúde parentes casas... Vendedores de balas chocolates capinhas de celular panos de chão maconha trancas de carro crack biscoitos fones de ouvido água gelada inundam cruzamentos marginais ônibus trens metrôs... Impossibilitam a acomodação das almas remediadas que ainda circulam. Mas, finalmente, o símbolo do novo País se impôs no centro de São Paulo, defronte a sua Catedral das finanças.

Se a gloriosa mídia escondeu com pudor o Brasil de outrora e sua liderança nascida em meio à lama e à plebe, não pôde deixar de mostrar o coroamento do projeto de poder dos seus pares. O Bezerro de Ouro cresceu, ganhou cornos e bagos vistosos e agora também é nosso. Legitimamente nacional. É cafona e nonsense como um Bentley nas ruelas do Capão, um casaco de pele desfilando em Bangu. É desagradável como um grupo de turistas ricos em um país pobre, ou a tia de um jovem bem sucedido explicando às comadres de Rancharia que o sobrinho estudou em Paris e é doutor. Mas é dourado. Pesado. Brilhoso. Um símbolo soberano que mostra à gentalha quem venceu e quem manda. E o que é um novo Reino sem uma afirmação visível de poder? Em breve veremos engravatados, candidatos a players do sistema, passando a mão no chifre do touro antes de especular em seus escritórios. E veremos multidões de pedintes e desempregados passando a mão nos bagos pela manhã, rezando para ganhar o dia.

Nossos sonhos estão exilados. O que havia de melhor em meio a nossa simplicidade terceiro mundista e latino americana foi sequestrado. Apagado. Nossa esperança só é exibida pela gentileza de estranhos, gente de fora que ainda não perdeu de vista a importância e a estética dos valores humanos. Por aqui, esconde-se a importância de nossas poucas glórias e o nosso choro e ranger de dentes.

Como não transformar o touro de ouro em fumo, em pó, em nada? E, quanto aos renitentes, como não seguir o conselho do Deus de Israel após a destruição do Bezerro? “Pegue cada um sua espada, percorra o acampamento, de tenda em tenda, e mate o seu irmão, o seu amigo e o seu vizinho”. Parece tribal, mas também parecemos. E ali se deu o início de uma Nação. Tecemos e tramemos.