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A Terra de Ninguém Tem Donos – Musk, o Twitter e a Guerra Híbrida

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Repete-se sempre a frase "durante a guerra, a primeira vítima é a verdade". Bobagem amena que reforça o mito da neutralidade jornalística. Toda comunicação é política. O conceito de verdade é difuso até em seu limite factual, depende de olhos e interesses amoldados e engajados numa visão de mundo. Mas nos tempos de guerra a manipulação é explícita e até encontra justificativas de Estado para manter recortes e discursos únicos. A questão é que vivemos uma guerra constante, sob estilos convencionais ou não.

Malgrado os arroubos nostálgicos de um jornalismo que jamais existiu, os meios de comunicação sempre alimentaram o espaço público, orientaram o debate e foram formadores de cultura política, por mais que o classismo privado ou a autoridade estatal dominassem a cena. A estrutura, os vícios e mazelas da mídia tradicional já eram sobejamente conhecidos, e os desafios da esquerda anti-hegemônica e anti-imperialista para se comunicar com a sociedade já eram conhecidos. Mas as tecnologias e as redes sociais abriram um espaço que, em um momento ingênuo, parecia uma ágora global que daria voz aos sem mídia. O que sabemos, era só ingenuidade.

Hoje travamos os debates políticos em redes privadas, ligadas ao grande capital e ao poder hegemônico dos EUA e das grandes corporações. Algoritmos manipulam os discursos (e ideias, valores, gostos, modos de vida e aspirações) predominantes, conquistando e reunindo corações e mentes em torno de posturas que, alienadas ou ativistas, movimentam a vida política.

Vivemos uma realidade das mídias no “Ocidente democrático”, ou seja, onde os interesses privados formam carteis, os Estados tendem a se transformar em mecanismos de controle social e de facilitação do interesse do establishment, sempre alinhado econômica e ideologicamente aos valores de mercado e da democracia liberal norte-americana. A decantada liberdade de expressão só vale para veicular fatos, ideias e posturas que não fujam desse escopo. Mais do que a opinião geral chamaria de direita ou esquerda, as Big Techs sempre servem de apoio aos interesses da hegemonia dos EUA e do grande capital. E são a engrenagem fundamental para a realização desses interesses, criando pautas e valores que se tornam os motivos de organizações e manifestações de massa.

O poder das Big Techs inclui posse dos dados pessoais dos usuários e sua utilização para fins de segurança e mercadológicos. Esse poder, aparentemente não bélico, já demonstrou capacidade de gerar “primaveras” de rua e outonos de governos que não atendem aos interesses hegemônicos. Já exerce a capacidade de formar uma nova “esquerda”, menos preocupada com a desigualdade social e com o combate aos valores de mercado. Já demonstrou que pode transferir a própria função de censura empresarial ao público influenciado, por meio da cultura do cancelamento. Já foi ponta de lança de golpes de Estado, instaurando certezas unívocas e gerando a ilusão de uma participação política progressista, sempre em oposição a governos nacionalistas ou populares.

Elon Musk, que já admitiu participação em golpes de Estado como o da Bolívia, adquire o Twitter no momento em que governos esboçam autonomia em relação ao Império. A Colômbia pode eleger seu primeiro presidente desalinhado aos EUA em muitas décadas. E o Brasil, principal foco da região, terá provavelmente este ano aquele que deve ser o pleito mais importante de sua história.

Não podemos abandonar os espaços que, embora proprietários, ainda aceitam nossas vozes. Inclusive pela absoluta falta de alternativas. Estaremos sujeitos a mais desmandos, discursos de ódio e a seduções de reconhecimento público, contanto que nos comportemos. Mas, como afirma Korybko, e como fizeram Rússia e China, “recomenda-se estabelecer redes de Internet nacionais”, deve haver “um forte esforço do Estado por incentivar a ‘nacionalização’ das mídias sociais”. Identificar a origem de ondas de informação e consumo que entram no país parece um pouco forte para a nossa tradição americanizada, mas não encaramos as cadeias de ferro com que a “mídia livre ocidental” nos acorrenta. E encaramos possibilidades cada vez menores da esquerda se comunicar com a sociedade.

Mais do que criar uma válvula de escape dos interesses externos, trata-se de buscar a autonomia social e informacional. Uma condição prévia de soberania. O Brasil e a América Latina precisarão criar e manter suas redes, sob o risco de nos mantermos como boiada tangida por interesses que não visam nosso bem estar, nosso desenvolvimento e independência nacionais e regional.