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Stédile: "Estamos passando por uma anomalia política"

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Imagem do site Recontaai.com.br

Nesta edição do Ouça Aí, entrevistamos João Pedro Stédile, membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e integrante da Via Campesina Internacional.

Stédile acaba de lançar o primeiro volume de Experiências históricas de Reforma Agrária no mundo, coletânea de textos por ele organizada e na qual propõe uma classificação de diversos processos ao longo da história.

Na opinião do dirigente sem terra, no Brasil há pouco espaço para uma reforma agrária clássica, dirigida por uma burguesia industrial com o intuito de criar mercado interno.

“Aqui no Brasil, nós nunca tivemos reforma agrária como um programa amplo. O que tivemos foram projetos de colonização, assentamentos pontuais. Em um processo de reindustrialização do País caberia uma reforma agrária clássica. O problema é que a burguesia industrial brasileira não se interessa. Ela está ganhando dinheiro com rentismo”, afirma.

Neste sentido, é necessária uma reforma agrária de cunho popular, com paradigmas baseados na agroecologia, ou seja, em novos marcos da relação entre produção e natureza: “O coronavírus apareceu agora, mas não será o último. Vai surgir uma vacina, mas, logo aí, vai surgir outro. A natureza, no seu desequilíbrio, vai gerar outras epidemias. A longo prazo, a solução é mudar o modelo do agronegócio. É óbvio que esse modelo não vai dar certo”.

Em relação ao cenário brasileiro, Stédile identifica uma “anomalia política”. “Qual o problema do nosso lado? Não podemos fazer greve, já estamos em casa. Também não podemos ir pra a rua. Essa é a tragédia, uma situação que ninguém sabe descrever. Mesmo na guerra, as pessoas se mobilizavam”, expõe.

Apesar da constatação, há razões para algum otimismo. Na missão de “salvar vidas”, a esquerda deve realizar denúncias e propagar a necessidade de mudança, “nas redes sociais”, e ações de solidariedade: “Nós temos que sair melhores como seres humanos. No final de toda confusão, acho que estamos acumulando energias para estarmos mais unidos”.