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#SomosTodosBorbaGato

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Arquivo de Imagem
card artigo Mauricio Falavigna

Pela resistência do indivíduo a modificar suas categorias mentais em meio da vida e a substituir os símbolos que lhe são caros, ainda quando reconheça a conveniência da mudança, pode-se concluir que a tarefa de renovar imagens coletivamente idealizadas não deve ser das mais simples. (Viana Moog)

Entre a fumaça branca e negra dos pneus queimados, ele se erguia ainda mais altivo e forte. Do alto de seus 13 metros de altura e ostentando suas vinte toneladas de argamassa e pastilhas, o monumento kitsch nunca foi tão imponente quanto no sábado de manifestações pelo Brasil. Nascida há 64 anos, a estátua, pela primeira vez, deixou de ser a vítima de anedotas. Abandonou a sina de mau gosto estético e ganhou qualidades humanas, arrebanhou o ódio e garantiu a integração ao movimento antirracista internacional. Mas as imagens não foram de revolução ou vandalismo: mostraram um Borba Gato invencível, firme e forte, mirando o horizonte nacional entre as chamas.

Acusado e condenado por racismo pela Revolução Periférica (você não nota, mas ela está aí todos os dias ferindo de morte o sistema), Borba Gato não tinha como se defender no tribunal. Depoimentos narrando histórias pregressas do bandeirante, testemunhos macabros de braços arrancados de indígenas para serem usados como chibatas dos sobreviventes, estupros e morticínio, foram relacionados ao massacre de povos violentados e esmagados socialmente até hoje por uma cultura racista e escravagista.

Borba Gato, bandeirante, foi um escravocrata responsável pela morte de povos indígenas durante a interiorização do território brasileiro. Hoje, a estátua Borba Gato, situada no bairro de nome homônimo, no distrito de Santo Amaro, presta homenagem à sua biografia genocida”. Genocídio e racismo foram os crimes mais difundidos. As questões da memória e dos valores históricos deturpados e etnocentrados foram ressaltadas.

Mas de onde nasce a violência do bandeirante? Qual a consistência dessa violência? E por que ela já foi (e ainda é, por uma parcela conservadora da sociedade) claramente associada ao heroísmo? Segundo os revolucionários, no racismo que hoje estrutura as relações sociais.

É fácil associar a imagem e a vida do bandeirante a um oficial do Exército que, no mesmo final de semana, sugeriu fuzilar todos os índios que vivem em isolamento. Ou a garimpeiros que invadem, matam e exploram reservas. Ou agricultores que queimam e avançam sobre as terras indígenas. Ou a um capitão que fez campanha calculando as arrobas de quilombolas. Ou a policiais militares que atiram antes de qualquer coisa quando vislumbram a cor da pele. Ou ao seu tio que discorre sobre pavês e preconceitos durante as festas familiares.

Mas Borba Gato foi um grande empreendedor. A idealização de bandeirantes como desbravadores e promotores da civilização, com toda a barbárie que o termo encerra, foi justificada por valores que estão mais em voga do que nunca no País. Saído de uma Província atrasada e sem grandes oportunidades de enriquecimento, Borba Gato inseriu seu nome em um seleto grupo de pessoas que demonstraram mérito para “vencer na vida”. Numa sociedade em que o termo loser, tão caro à cultura norte-americana, tornou-se banal e simpático entre jovens de classes média e alta, Borba Gato não pode ser simplesmente execrado. Ele certamente não era um perdedor.

Apostou alto, venceu pela força, destruiu qualquer obstáculo que encontrou em seu caminho, não deixou o Estado interferir em suas ações e nem mesmo “explorá-lo”, conquistou seus objetivos na marra, demonstrou aptidões físicas olímpicas e inteligência política para usar o Reino ao seu favor. Foi seu próprio patrão por quase toda a vida, com exceção do período de aprendizagem com Fernão Dias Paes Leme, certamente seu primeiro guru empresarial. Mas nada o impediu de alcançar seus objetivos, com todo o denodo e a autoestima que os melhores livros de autoajuda ou a melhor palestra de um coach poderia inspirar. Da sua trajetória nasceram povoados e cidades, estradas e negócios, sem falar na geração de empregos (escravos, mas com alimentação e moradia, exigindo aquele sacrifício social de quem nasceu para trabalhar).

Seria fácil associar Borba Gato aos próceres da indústria nacional, e assim foi feito por muito tempo. É tentador, no Brasil em que sempre vivemos, relacioná-lo aos grandes mitos capitalistas, self made men criados para alimentar o imaginário social, para os quais todos os crimes e origens são apagadas em função do bem maior, o exemplo de liberdade do homem natural que arranca da natureza e das pessoas o que lhe é de direito, e usa de todos os recursos para defender as suas propriedades, opa, conquistas.

Borba Gato também viveu entre indígenas aliados, foi chamado de cacique e promoveu proteção e segurança material a um grupo de agregados. Tinha inteligência política suficiente para, nos dias de hoje, aliar seus empreendimentos a um discurso e algumas atitudes que lhe assegurariam espaços de destaque. Poderia se tornar um Ermírio de Moraes, um Roberto Marinho ou um Lemann. Formaria políticos nascidos da parcela social explorada, daria entrevistas a Fátima Bernardes, patrocinaria eventos que ressaltassem que todas as vidas importam, geraria empregos sem garantias trabalhistas, usaria o Estado como banco mas sonegaria impostos, lembraria às massas que todos os sonhos podem ser atingidos. E conversaria com Guedes no happy hour.

Borba Gato era e é um vencedor. E nos olha de cima, entre as brumas do incêndio, olhando os limites da cidade e enxergando além dos outros o que e quem podem ser explorados e sangrados até a medula. Cometeu crimes contra “minorias” (!?), mas é uma inspiração para o novo País que está sendo construído. Um homem de iniciativas, que não encarava o mundo como se merecesse o peixe de graça. O que ele queria, ia atrás e pescava. Provou ter méritos para vencer na vida. Hoje possui monumentos, escolas e batalhões do Exército com seu nome. Nada mais merecido. Rico, poderoso e vencedor, um homem do mercado.

Tinha alguns defeitos, é bem verdade, que chamuscaram sua imagem. Mas seria o Homem do Ano em vários veículos de comunicação. Que, se tivessem hombridade, promoveriam a hashtag #SomosTodosBorbaGato. Ou deveríamos querer ser. Os valores de Borba Gato são as raízes do sistema que se deve recuperar e perpetuar. Queimar alguns de seus defeitos não resvala no problema, nem abala estruturas.