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Sobre talibãs, Paulo Freire e o nosso direito de sonhar

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card artigo Mauricio Falavigna

Todos nós temos de assumir responsabilidades no processo de mudança. E não temam seus desejos. Desejar não é proibido, não é pecado.”

(Paulo Freire)

Certa vez, em um processo de formação numa periferia, Paulo Freire havia acabado de conversar com outros educadores sobre tolerância, respeito ao conhecimento e cultura locais, a maneira de encarar as diferenças, saber ouvir. Entrando com alguns desses companheiros em um armazém, havia um grupo de homens bebendo. Um deles falava que a esposa tinha que obedecê-lo, do contrário levava uma surra “para aprender”. E se vangloriava disso. Paulo Freire passou-lhe uma descompostura pública. Mais tarde, recebeu a questão de um companheiro que lhe acompanhava, se não deveriam procurar entender a cultura local. E respondeu que isso não poderia significar, de modo algum, aceitar algo que “enfeiasse a vida, a humanidade”.

Assistimos recentemente a uma série de interpretações sobre a volta do Talibã ao poder. De alguma forma, uma retomada da autonomia local. Tariq Ali, em texto sobre o evento, mostra como a ocupação norte-americana jamais teve qualquer intenção civilizatória, e gerou apenas a barbárie: tráfico e prostituição eram as únicas formas de escapar da miséria. De outro lado, o pavor do irracionalismo e do terror que marcou a imagem do Talibã, a recusa de aceitação de direitos humanos universais e a sharia como aparato legal foram destacados. O fato é que desconhecemos mais a fundo detalhes históricos e da realidade afegã, mas tendo essas duas formas de opressão presentes – a intervenção militar dos EUA e o Talibã – tendemos a ver, na mídia e na política nacionais, uma série de posicionamentos e interpretações que, nesta semana ganharam contornos de cinismo inimagináveis.

Análises geopolíticas, mais esperançosas do que carregadas de certezas, deram conta do fracasso da ocupação norte-americana, contabilizando mais uma derrota em conflitos internacionais. Alguns apontaram a aproximação chinesa como algo positivo para o equilíbrio de forças mundiais. A possível tensão com o Irã e o papel da Rússia também foram abordados, assim como a futura crise (mais uma) de refugiados. Muitos chegaram a falar em uma “modernização” do Talibã, poucos lembraram que os pashtuns representam apenas uma parcela da população local e quase ninguém falou dos lucros da indústria bélica ianque, que viu centenas de bilhões serem injetados em seu setor por duas décadas (e certamente não saiu de Cabul derrotada). Houve até liderança de esquerda (embora minimalista e insignificante) que viu motivos para comemoração na ascensão talibã. Os termos “vitória” e “derrota”, permanentemente utilizados pelos analistas, jamais levaram em conta o desespero humano local. Homens e mulheres afegãos tornaram-se números, peças de um jogo de xadrez que despreza com frieza e, por consequência, não reconhecem a humanidade de quem já era oprimido e agora será submetido a outro jugo, outras penas, outros usos, outras mortes.

Mais cínico ainda foram os discursos da mídia nacional que, ao demonizar o Talibã – e aqui não se tira a razão da pintura – ressaltou cada traço que causaria asco à audiência contemporânea. E, se passarmos os olhos em cada mácula denunciada, veremos o quão rapidamente nos aproximamos do horror em solo doméstico.

O fundamentalismo é crescente na sociedade e no governo. Sessões do Congresso são abertas com cultos, a Fundação Palmares é abertamente racista (especialmente sob o viés religioso), terreiros e imagens católicas são vandalizados sem ação das polícias ou da Justiça, a Funarte só concebe a arte como um elogio à obra divina, pastores são consultores da Presidência. Os flertes com uma teocracia crentista são cada vez mais frequentes.

O Brasil contabiliza um feminicídio a cada seis horas e meia, e os números são crescentes. Os boletins de estupro (86,9% das vítimas é do sexo feminino e 60,3% têm no máximo 13 anos) dão conta de um caso a cada oito minutos. Temos um chefe de governo que se solidarizou com a morte de um feminicida que se suicidou, afirmou não estuprar uma deputada por ser “feia”, constantemente pronuncia frases homofóbicas e idolatra um torturador famoso por abusos sexuais. A posição de submissão da mulher é estimulada pela coordenadora de Direitos Humanos. A própria noção de Direitos Humanos é criminalizada. Um homossexual é morto por homofobia a cada 23 horas e 70% dos casos de homicídios de pessoas LGBT ficam impunes. É o país onde mais se mata homossexuais e transexuais no mundo. Uma mulher morre a cada dois dias por aborto inseguro, é a quarta causa de morte materna no Brasil.

Temos uma política na área de educação que não proíbe as mulheres de estudar, apenas os pobres. A formação de professores e a criação de escolas com disciplina militar e rígidos padrões conservadores religiosos se faz cada vez mais presente. A negação do conhecimento adquirido é bradada aos sete cantos e estimulada pelo governo. Criacionismo, recusa à vacina e até a crença em um planeta plano estão presentes. O setor de pesquisa científica é orgulhosamente abandonado pelo poder público.

A opressão do mais forte, por aqui, é vista como livre iniciativa e é exacerbada. A violência da desigualdade é naturalizada. Florestas, museus, bibliotecas, arquivos e patrimônios públicos não recebem manutenção, são desprezados e depauperam, quando não são destruídos pelo fogo, que pelo sorriso silencioso dos governantes, deve ser sagrado. Não temos a sharia, mas temos o teto de gastos, limite para qualquer noção de justiça social. Ao invés de cortar as mãos, cortamos as pernas da massa empobrecida, sem trabalho, sem renda, sem direitos e sem perspectiva de investimentos públicos.

Em terras cada vez menos tupiniquins, o patriarcado é exaltado, cultuamos a morte dos indesejáveis e o irracionalismo vai se unindo à crença em valores morais monísticos (um modelo familiar, um modelo comportamental, um modelo educacional e um modelo religioso) que levam à ideia mítica de um povo, uma Pátria, um líder. E, no entanto, os formadores de opinião pública se chocam com a incivilidade de “tribos bárbaras”, como dizem sem disfarçar o preconceito.

Qualquer que seja o futuro afegão, é tão feio quanto o construído por aqui. Qualquer elogio ou vislumbre de otimismo em relação ao Talibã é criminoso. Qualquer lamento pela retirada do invasor e utilização de seus parâmetros como “democracia” ou “civilização” é falseado e cínico. Qualquer espanto em relação à barbárie dos talibãs é cegueira e hipocrisia. Vivemos em um reino invadido, aspiramos os valores do Império, e os nossos “amenos” fanáticos, com as burras cheias, de farda ou com a Bíblia mal lida na mão, já tomaram o poder.

Olhando à esquerda e à direita, lendo as análises do fato ocorrido, só nos resta a sensação de que perdemos o direito de desejar, sonhar e construir um mundo mais justo. Não assumimos compromisso com a mudança, com o fim da violência, da injustiça e da barbárie. E desejar qualquer boniteza humana, qualquer beleza na vida, parece ter se tornado um pecado.