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Sobre algoritmos, bolhas, mídias e esquerda

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Imagem do site Recontaai.com.br

Muito se fala sobre a ditadura dos algoritmos, das “armas de destruição matemáticas”, da manipulação e modulação da opinião e do comportamento públicos. Se até novas amizades e conexões nascem de recomendações embrulhadas em likes, está mais do que claro que seus assuntos de interesse e suas opiniões sobre temas públicos vêm sendo dirigidos da mesma forma.

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Sob o mar tranquilo de cada rede social, os algoritmos se agitam em busca de identificar preferências de cada navegante. A cada oferta de informação, uma manipulação leva o cidadão (talvez não seja a palavra adequada) a uma ilha de consumo, promovendo opiniões ou personalidades que mantenham os interesses dos que dominam a sociedade. É uma nova disciplina de controle de comportamentos e subjetividades. Redes são negócios, redes são business, redes mantêm a estrutura social e abrem possibilidades econômicas que reproduzem o sistema.

Debates éticos vêm se sobrepondo: discussões sobre armazenamento, fim da privacidade, uso comercial e político dos dados. O controle da informação também gera debates, já que a maioria dos 2 bilhões de usuários do Facebook não tem ideia de que seu feed de notícias é modulado. No entanto, no que tange à produção de informações para consumo, incluindo aí todo o mundo jornalístico, algumas questões parecem escapar das preocupações mais anunciadas.

Por um lado, as redes e os veículos da mídia são expostos à opinião pública como uma concorrência. Fala-se em qualidade da informação. Como as informações (sejam criadas ou registradas, trabalhadas jornalisticamente ou em “gabinetes de ódio”) hoje se alastram rapidamente em grupos sociais amplos – as chamadas bolhas – as premissas de comunicação estão mais no que se gostaria de ouvir do que no fato em si. Isso, de acordo com as análises corporativas, diferenciaria a informação profissional das fake news. A publicidade de veículos tradicionais garante que suas notícias não são baseadas em preconceitos ou mentiras, valores associados às notícias que circulam nas redes sociais. O conteúdo produzido por jornalistas profissionais, com a chancela de marcas já conhecidas no ramo, traria credibilidade.

Ora, os grandes veículos são onipresentes nas redes. Seus portais são responsáveis pelas notícias mais lidas, balizam conteúdos e opiniões até de veículos independentes, que na teoria baseariam sua atuação nas críticas à grande mídia. Em relação aos conteúdos discutidos pela sociedade, a mídia continua sendo a divindade única e inquestionável.

Conteúdos


Quanto à produção de conteúdos, uma pesquisa de 2013 mostra que, de todo o faturamento das mídias digitais, até aquela data, apenas 7% destinava-se à produção de conteúdo. Mais da metade ia para as empresas de telecomunicações, o restante dividia-se entre os setores de produção de equipamentos e de circulação. Quase todas as verbas publicitárias, quando não circulam entre os próprios veículos, são dirigidas às redes sociais e aos chamados buscadores. Não consegui dados mais recentes, mas apostaria sem medo na diminuição do investimento nos conteúdos jornalísticos.

Quanto à modulação das subjetividades, à influência sobre tomadas de decisões, as redes geram à perfeição o amálgama jornalismo/entretenimento já consagrado em rádio e tevê. Parâmetros de comportamento e valores são ainda mais eficientes nas redes, alcançando segmentos diversificados com o mesmo discurso, que se apresenta sob formatos e com personalidades adaptadas a cada grupo. E o uso político dessas possibilidades vem se mostrando eficiente.

É muito comum citar as eleições norte-americanas em que Trump foi eleito. O estímulo à abstenção entre eleitores que jamais seriam pró-republicanos foi notório e decisivo, especialmente entre os afrodescendentes. Também é citada a eleição de Bolsonaro, com fake news espalhadas nas redes sem qualquer censura. Mas o papel das mídias no processo de despolitização, de desvalorização de qualquer alternativa às ideias de mercado, ao privatismo e até a farsas que criminalizavam a esquerda é, no máximo, mitigado. Inclusive porque estratégias foram desenvolvidas para imiscuir-se no ativismo tradicionalmente considerado de esquerda, cooptando lideranças, movimentos e a chamada mídia independente ou alternativa, que só tem a web para se expressar.

Algoritmos


As armas matemáticas podem ser definidas por máquinas, mas seus códigos são servidores do grande capital. Algoritmos geram um ritmo próprio de convivência e convicções, mas possuem donos e finalidades. Quem compreende e se adapta leva a melhor. Foi dessa forma que as pautas caras à esquerda se diluíram até um chamado “progressismo” genérico. A defesa dos excluídos em função do binômio capital/trabalho reduziu-se a pautas segmentadas, onde o espaço no mercado é o principal objetivo de cada grupo. Também dessa forma, jornalistas independentes, críticos da grande mídia e engajados, ao buscar a web para ter voz, precisam se adaptar ao mercado para sobreviverem. E os ditames dos donos do poder se impõem mais uma vez. Lideranças e partidos de esquerda, no desespero para levar suas vozes e ideias ao público, se rebaixam aos valores e pessoas simpáticos às redes, como se essa aceitação fosse a única forma de captar votos e espaço político. E os donos das mídias e redes continuam nadando de braçada, impondo pautas, valores e personalidades. Afinal, parecem todos estarem de acordo: não há vida fora das redes. Mesmo que mais de 40% da população não tenham acesso à Internet.

Uma megaempresária pode flertar com ex-presidentes de esquerda e defender o privatismo e o desmantelamento do Estado: ela será aceita pela esquerda pela imagem de sucesso e pela estampa de comprometimento social. Um banqueiro pode apresentar-se como um economista capaz de integrar equipes econômicas que clamam por justiça social. Golpistas e reacionários que surfaram na onda conservadora podem se arrepender de suas opções e darem esmolas à audiência de esquerda: rejeitá-los seria extremismo, sabe-se lá o que signifique esse termo. Grandes corporações financeiras podem sustentar pequenas mídias, ONG’s e movimentos sociais, eles substituirão partidos e irão liderar mudanças que jamais afetarão a estrutura de classes e o mercado.

Um jovem youtuber pode iniciar sua carreira conquistando jovens com discursos antipolíticos, racistas e misóginos e, dois anos depois, evoluir para um campeão da filantropia e das pautas identitárias, alcançando destaque no mercado e prejudicando, de forma diferente, as mesmas ideias consideradas indesejáveis. Basta atacar algo considerado de direita e ter outro alvo à esquerda a um só tempo, classificando-os de extremistas. Estará cumprindo seu papel político de manutenção do sistema, e ainda atrairá setores da esquerda sequiosos de seu público.

Substituir políticas públicas por filantropia. Transferir o papel social do Estado para a responsabilidade social das empresas. Manter a superioridade moral do empreendedorismo sobre garantias trabalhistas. Lutar contra estatais e impostos. Valorizar o papel privado na educação, saúde e pesquisa. Beneficiar o mercado financeiro em detrimento de setores produtivos. Veicular o agronegócio como a vocação natural do País. Todos esses valores surgirão disfarçados ou naturalizados nas mídias a partir de agora. Do BBB a Felipe Neto, de “mídias alternativas” a posturas identitárias de sucesso, de banqueiros de esquerda a megaempresários progressistas, de posturas não extremistas a terceiras vias fabricadas, a luta será contra a volta de um partido e de uma liderança que já mostrou que podemos ter outra identidade, outra vida e outro caminho.

Se quiser concretizar um retorno ao poder, a esquerda terá de utilizar essas mesmas ferramentas para construir maneiras de alcançar trabalhadores e excluídos. E, principalmente, se lembrar que existe vida fora das redes, das mídias e das aparências.