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Quem Ladra por um Vice?

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Maurício

Vivemos nas últimas semanas do ano um falso espanto político. Um princípio de articulação partidária foi celebrado entre rojões festivos, sobrepujando ganidos de revolta. Uma aliança ainda não concretizada e um nome aventado provocaram medo no governo e, do outro lado, uma miscelânea de sensações que circulam entre aplausos e lamentos.

Só há três grupos que rosnam e uivam ante a uma possibilidade ainda não confirmada, a do ex-tucano compor a chapa presidencial com Lula. O primeiro é muito claro, são de pessoas conservadoras e mesmo privilegiadas que desejam evitar a volta petista ao governo. Esse grupo ainda é acrescido de parte de uma esquerda que nunca votou nem votará no PT ou em Lula, como parte do PSOL, PCB, PSTU e pequenos agrupamentos que inclusive foram partícipes do Golpe. A recusa de Lula neste caso é uma questão de identidade, e poderiam alegar qualquer justificativa.

O segundo é um grupo menor, marginalizado por um criticismo purista e de certa forma elitista, que prega a revolução angariando recursos com a economia de lâminas de barbear e de convívio social. São menores que a torcida da Portuguesa e apoiarão Lula de qualquer maneira, já que essa consiste na única forma de participação política real e efetiva em suas atividades.

O terceiro grupo é de renitentes que interpretam o cenário global e a nossa conjuntura a partir dos números poderosos de Lula e de resultados de eleições vizinhas. É a leitura mais plena de desejos, que atenta-se aos ideais, não no “que fazer”. Além de partir de premissas errôneas sobre o tamanho e o poder da esquerda tradicional – vamos falar basicamente na que opõe Capital e Trabalho – não percebe a onda fascista (e esse é o termo) que ascendeu globalmente.

As grandes corporações, o capital financeiro e seus representantes na cena pública passaram décadas minando as instituições republicanas e a democracia participativa por meio da mídia, da indústria de entretenimento, em projetos de formação de lideranças, programas educacionais e utilizando-se até de movimentos religiosos. Os ideais destrutivos de “guerra cultural” foram assimilados pelos donos do poder de acordo com suas necessidades locais, em maior ou menor medida. Não me refiro só ao nosso País ou continente, é fácil achincalhar o brasileiro – mas aí fica difícil explicar, por exemplo, porque o negacionismo antivacinal funcionou melhor no Primeiro Mundo do que aqui.

O resultado foi termos CEO’s envernizados, rentistas nababescos, profissionais liberais remediados, professores, pastores, fardados e togados encontrando confluência de valores com o discurso da crente mãe de família, do desempregado da esquina, do lumpesinato desolado. Ira e ódio contra a política, o conhecimento e a civilidade. O horror resultante dessa estratégia hoje é visto em vários locais – e é o nosso cotidiano.

Foram décadas minando a esquerda que ameaça o sistema com cooptações, financiamentos, nublando tudo o que revela a desigualdade e expõe a luta de classes com o manto identitário e das ações compensatórias privadas. Foram anos formando lideranças com a imagem de ousadia e revolta, mas afeitas ao mercado e à possibilidade de chegar ao topo da pirâmide. Foram anos afetando e confundindo o próprio ideário de luta anticapitalista.

Assim, os números estrondosos de Lula ultrapassam o do próprio partido e da esquerda, rompendo esse bloqueio. Não refletem um desejo de “socialismo”, mas sim remetem ao simbolismo de comida, casa, trabalho, amparo social. Isso não é irrelevante, pois se é o que nos restou de material para o discurso político, também está na essência de uma luta secular da esquerda.

Quanto aos nossos vizinhos, vale lembrar que Alberto não é Cristina e a dificuldade de sua situação foi vista nas últimas eleições proporcionais. Que Pedro Castillo só consegue ceder e recuar devido aos enfrentamentos com a elite peruana (que conta com a ajuda de parte da esquerda, similar a que barrou a volta de um governo popular no Equador). Que, por mais que celebremos uma vitória contra o fascismo, não foi a esquerda tradicional que ganhou no Chile (mas foi um desfecho feliz e importante diante do adversário). Que se não fosse uma figura pública que traz viva a memória de seus atos, a Bolívia também estaria sofrendo. Que, para o bem de suas campanhas, os candidatos da esquerda sul-americana devem negar as isoladas Cuba e Venezuela junto à opinião pública (e também vale lembrar que, em Lula, essa rejeição não vem como cobra a mídia). Não há uma “onda vermelha” continental como, parece, nos faz bem acreditar.

Portanto, dentro deste cenário trágico, a mera possibilidade de articular uma volta ao poder com parte de uma elite golpista insatisfeita, mesmo sob o jugo da mídia, do Judiciário e das Forças Armadas, deveria parecer um milagre. É como se uma fissura imperceptível no muro permitisse que a luz entrasse de volta e se expandisse na escuridão que nos abate. Mas precisamos saber que estamos nas trevas. E entender o que enfrentamos. Um golpe de Estado e a ascensão fascista.

Seja com um ex-tucano ou Mao Zedong como vice, Lula é o tiro que nos restou. Temos de dar graças a essa capacidade de articulação política, de mobilização de simbolismos e massas. Temos de lutar com as armas, a organização e a popularidade que não temos. Lula é a oportunidade de estancar a sangria, de iniciar um tempo de reconstrução, de voltar a aliviar a dor de quem nada tem.