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Projeto do Maranhão auxilia crianças que perderam pais para Covid

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Flávio Dino

Mais de 130 mil crianças e adolescentes brasileiros ficaram órfãos por conta da Covid-19 entre março de 2020 e o final de abril deste ano. A estimativa foi feita pela revista científica The Lancet e divulgada nesta semana.

O estudo também apontou a necessidade dos governos - nacionais e locais - incorporarem programas para lidar com os impactos de mortes dos pais ou cuidadores fornecendo ajuda financeira para criar essas crianças.

Ainda que o Governo brasileiro seja omisso, alguns estados - por iniciativa própria - foram pioneiros. É o caso do Maranhão ao instituir o programa Auxílio Cuidar.

Para falar sobre o benefício, o Reconta Aí conversou com o governador do estado Flávio Dino. Confira a entrevista.

Reconta Aí - Quais foram as deficiências do Governo Federal que o Maranhão teve de lidar em relação à pandemia?

Flávio Dino - Acho que a principal questão foi o atraso do início da vacinação. Houve muita indecisão do Governo Federal, aparentemente por razões administrativas, mas também por atos que devem ser investigados. Havia desorganização administrativa, mas até aqui a CPI do Senado está mostrando que havia também interesses em torno de ilegalidade. Além disso - e até como uma consequência desse fato - nós temos muita incerteza quanto ao cronograma [de vacinação] porque ele muda muito.

E isso gera uma dificuldade no planejamento, na aplicação das doses, porque você não tem a certeza do que vai acontecer na semana seguinte. Então, antecipa ou não antecipa a segunda dose e para quais públicos? Eu diria que como consequência do primeiro fato, há também até hoje muita imprevisibilidade com a inexistência de um calendário nacional de vacinação que seja confiável.

Reconta Aí - Gostaria que o senhor falasse sobre o programa Auxílio Cuidar. Em que momento surgiu essa ação e como está?

Flávio Dino - Nós temos uma experiência de assistência às crianças com zika vírus que, por consequência dele, ficaram com microcefalia. Estamos completando agora quatro anos de funcionamento de um projeto que chamamos de Ninar. Então, tem a Casa Ninar, que já fez quatrocentos mil atendimentos para essas crianças que ficaram com microcefalia e outros problemas de neurodesenvolvimento em face do zika vírus. Eu te diria que é uma atitude geral nossa de dar assistência.

Neste caso da Covid, tivemos uma circunstância que essas crianças e adolescentes acabaram ficando, em alguns casos, sem os dois pais porque ou ele só tinha um deles e esse um morreu, então ele só tinha mãe, só tinha pai e ele morreu de coronavírus. Ele perdeu os dois, pai e a mãe, configurando o que é chamado de orfandade bilateral.

E aí com uma derivação daquela visão de assistência, de apoio que a gente tem, pensamos nesse Auxílio Cuidar para apoiar essas crianças e adolescentes para que eles possam minimizar as dificuldades materiais, porque as emocionais obviamente são gravíssimas também. Então, nós estamos diante de uma tragédia multifacetada.

Temos aqui a chamada Rede Cuidar, que faz a assistência e acompanhamento inclusive psicológico, psiquiátrico e para as pessoas que tiveram Covid. E da derivação da Rede Cuidar, nasceu o Auxílio Cuidar.

O Auxílio Cuidar é a parte de uma visão geral que visa fazer com que essa Rede Cuidar - de assistência médica, psiquiatra e psicológica - tenha também tem essa assistência material.

Reconta Aí - O Dose Premiada é uma das ações que coloca o governo do Maranhão na dianteira do combate à Covid. Como está o cenário da doença no estado e quando o senhor acredita que toda população do Maranhão estará vacinada?

Flávio Dino - Nós estamos lutando para população adulta ser vacinada com a primeira dose no final de setembro. Esse é o nosso objetivo: primeira dose até o final de setembro para a população adulta, levando em conta sempre que a experiência que a gente chega é até perto de cem por cento. Mas é muito difícil cravar cem por cento porque tem pessoas que de fato não querem tomar a vacina. Em Alcântara - que é uma cidade do Maranhão - vacinamos noventa e quatro por cento da população adulta.

E você não consegue passar [desse percentual] porque tem pessoas que não querem mesmo tomar a vacina. Então, levando em conta isso, eu te diria que é factível que nós tenhamos algo próximo a cem por cento da população adulta com a primeira dose até final de setembro.

A procura da segunda dose está muito lenta, fenômeno talvez mundial. No Brasil, seguramente, e também no Maranhão. Nós, por exemplo, começamos a segunda dose para o pessoal da educação e da segurança e a procura é muito lenta. Temos um centro de vacinação exclusivo para a segunda dose e na semana passada, houve dia que atendeu oito pessoas o dia inteiro.

O dose premiada veio para estimular a segunda prova [de vacina], nós temos mais de cem mil pessoas que estão com a segunda dose atrasada. É factível fazer uma previsão contra a primeira dose; a segunda depende também de conseguir que as pessoas se convençam de que ela é fundamental.

Reconta Aí - E como senhor avalia o fato de pessoas de outras unidades da federação poderem procurar o Maranhão para tomar vacina?

Flávio Dino - É uma coisa que eu nunca pude afirmar que aconteceu ou que não aconteceu, que é o tal do turismo da vacina. Se aconteceu foi uma incidência pequena; às vezes filhos de maranhenses, que os pais moram aqui... isso aí eu não posso dizer que não aconteceu.

Mas não foi algo que realmente chamasse a atenção - no universo de quase quatro milhões de doses de vacinas aplicadas, eu te diria que estatisticamente é irrelevante. Não é uma preocupação nossa porque cobramos comprovante de residência, tem o cartão SUS. Se aconteceu, foi estatisticamente muito pequeno.

Reconta Aí - Por fim, gostaria que o senhor fizesse um rápido comentário sobre a CPI da Covid.

Flávio Dino - Eu acho que a CPI está indo muito bem porque estabeleceu uma apuração, uma investigação com uma linha correta. Primeiro, identificar por que o Brasil combateu tão mal a pandemia a partir das premissas equivocadas adotadas pelo Governo Federal. Ficou muito evidente que o fato do presidente da República não acreditar no coronavírus levou a uma série de fatos - que eram conhecidos, como por exemplo o rodízio de ministro da Saúde. Aliás, rodízio esse que vai até hoje porque o Queiroga nesse momento está sem equipe. Um deles foi demitido o outro se demitiu. Essa instabilidade institucional no Ministério da Saúde se prolonga desde o começo da pandemia até hoje, quase uma espécie de 'permanente interinidade' eu diria.

E a CPI conseguiu mostrar isso, muito claramente. E agora estão aparecendo as razões pelas quais houve tanta demora na compra da vacina. Havia, como eu falei, desorganização, desacerto e uma coisa que é até meio anedótica dizer... que 'não aderiu ao Covax Facility porque ninguém entendia inglês'. É uma coisa meio caricata.

A CPI vai permitindo revelar isso e revelar também interesses ilegais, criminosos. Eu acho que a CPI vai bem por estar permitindo um diagnóstico mais preciso das causas de tanta tragédia, tanto sofrimento e ao mesmo tempo evidentemente propiciar provas que vão servir mais adiante para responsabilização e punição dos agentes que agiram ou deixaram de agir.