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"Problema já vinha antes e não houve planejamento", diz Jair Ferreira sobre filas

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Imagem do site Recontaai.com.br

As filas em agências da Caixa Econômica Federal – que já renderam até a multas aplicadas à instituição – se tornaram cenas recorrentes e preocupantes no contexto da pandemia de Covid-19 no País.

Em busca de informações ou de sacar seu dinheiro, a grande quantidade de pessoas nas unidades está relacionada à concessão do auxílio emergencial que tem como cota mínima R$ 600.

Dias após as cenas das longas filas em diversas cidades terem se tornado, a Caixa anunciou extensão do horário de atendimento em suas unidades e o governo editou a Medida Provisória 959, que inclui o Banco do Brasil como entidade que pode realizar o pagamento do auxílio.

Nenhuma ação concreta para a descentralização dos repasses, entretanto, foi anunciada.

A dimensão do auxílio significou uma intensa e abrupta da bancarização de brasileiros e brasileiras, sem ampliação da rede física ou do número de funcionários. Ao contrário: a Caixa, nos anos recentes, tem passado por uma redução de sua capilaridade e do número de seus empregados.

Para representações de funcionários da Caixa, apesar das medidas recentes, as filas poderiam ter sido evitadas.

Bancarização

O economista Felipe Freire, da Fenae, compilou dados baseados em relatórios públicos da Caixa que indicam esse cenário. Até 2019, a instituição tinha pouco mais de 100 milhões de contas: cerca de 24 milhões correntes e 82 milhões de poupanças.

Com o auxílio emergencial, a Caixa esperava criar 30 milhões de novas contas na modalidade poupança digital social, operada por aplicativo cujas funcionalidades são limitadas. Caso esse número se confirme, o número de contas administradas pelo Banco Público crescerá 28%, quase um terço. Caso se leve em conta apenas poupanças, o crescimento é de 36%.

Jair Ferreira, diretor de Formação da Fenae e ex-presidente da entidade, afirma que que “é direito da população receber, isso é indiscutível, mas faltou planejamento do governo e da direção da Caixa. De uma hora para outra, o bancário da Caixa teve de estar na linha de frente para atender a população”.

Média por agência

Agregando todos os canais físicos de atendimento do Banco em 2019 – agências (3.373), lotéricas (12.968) e correspondentes Caixa Aqui (8190) – cada um deles atenderia 4.352 contas.

Os clientes, entretanto, podem utilizar os serviços dos três tipos de locais. Assim, desprezadas diferenças regionais, cada agência lidaria em média com 31.655 contas em geral, ou 24.511 poupanças.

Após auxílio emergencial, mesmo que a poupança digital não fosse necessariamente vinculada a uma agência, caso os possíveis 30 milhões de novos portadores de poupança se utilizem de alguma agência, cada uma delas teria mais de dez mil novos clientes para auxiliar: o número de poupanças/agência subiria de 24.511 para 33.405. Aqui, a média tem um incremento de 36%.

Rita Serrano, representante dos empregados da Caixa no Conselho de Administração da estatal, afirma que não houve um planejamento eficaz na formulação do modelo de pagamento do auxílio, a começar pelas estimativas de quantos acessariam o direito.

“Tudo indica que temos falha em todo esse processo. Primeiro o governo alega que havia ‘os invisíveis’ e que ele não sabia o tamanho da demanda. O que mostra um profundo desconhecimento por parte do governo da realidade social, da pobreza, que essa gestão – e a anterior – com suas medidas, aumentou. A demanda foi muito maior do que eles imaginaram”, diz.

Média por funcionário

A partir de balanços do Banco – o relatório de sustentabilidade de 2019 ainda não foi lançado – é possível estimar o número de empregados da Caixa em 84.066 pessoas no ano passado.

Antes do auxílio, portanto, havia uma média de 983 poupanças por funcionário da Caixa. Após a conquista do direito pela população, com a estimativa de 30 milhões de novas poupanças, o índice passa para 1.340 contas desse tipo para cada empregado do Banco. Novamente, um aumento próximo ao um terço, de 26%.

“A Caixa assumiu uma demanda muito subestimada. A realidade provou que é algo gigantesco, o que está criando aglomerações nas agências, que estão trabalhando com um número menor de empregados, justamente para tentar evitar o contágio por conta da pandemia. Eu vejo uma série de gargalos e que todos eles estouraram nas agências, nas costas dos empregados, que estão pressionados, correndo risco de se contaminar”, complementa Serrano.

Ferreira vai na mesma linha, criticando a falta de coordenação na implementação da ação: “Governo não está preocupado com as pessoas, não é possível, em um país do tamanho do nosso, não envolver estados prefeituras e outros bancos neste processo. Faltou comunicação organizada para a população, explicar o que iria acontecerNa prática, ficou só para a Caixa fazer”.

Histórico

Se a expansão promovida pelo auxílio emergencial, cuja operacionalização parece levar os clientes à procura de pontos físicos em meio a recomendações de isolamento social, já teria sobrecarregado a estrutura da Caixa tendo em mente apenas os dados de 2019, o impacto da medida é ainda mais intenso quando se enfoca o tamanho e capilaridade da instituição em uma série histórica.

Rita Serrano alerta que a crise tem provado na prática a importância de instituições públicas fortes, mas que isso não significará automaticamente uma mudança na política do governo em relação ao tema: “O governo, mesmo com essa lição colocada, quer manter o mesmo programa de privatizações. A população tem que perceber que o caminho, inclusive as dificuldades que se têm hoje, é devido à falta de investimento que o Estado não fez no último período”.

Com uma clara expansão – de número de agências e de empregados – a partir de 2002, os dados começam a sofrer uma reversão nos anos recentes.

“A Caixa não contrata gente desde 2016. Há déficit de funcionários, um problema que já existia. Tem 30 mil pessoas que passaram em concurso, e ninguém foi chamado. Isso, agora, atropelou tudo. O problema não é novo. A Caixa está negligenciando o atendimento à população”, finaliza Ferreira.

Em relação à estrutura física, o último intervalo em que se detecta aumento do número de agências foi entre 2015 (3404) e 2016 (3412). A partir de 2017 (3394) a diminuição é constante. Em 2019, o número foi, como já mencionado, de 3373.

Os mesmos anos são válidos para os recursos humanos. O pico do número de empregados também ocorreu em 2016, com 94.978 pessoas. Ano passado, a Caixa tinha 84.066, mais de dez mil pessoas a menos.