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PIB crescendo 5% em 2021: dá para confiar?

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O Boletim Focus do Banco Central, levantamento das projeções econômicas feitas por instituições do mercado, vem apontando uma estimativa de crescimento de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no ano de 2021.

A entrevista abaixo, com o doutor em economia Paulo Kliass, busca compreender até que ponto tais previsões são factíveis. Para ele, ainda faltam elementos para se cravar um crescimento da economia brasileira deste tamanho.

Reconta Aí - Alguns analistas falam em "efeito estatístico", ou seja, que um crescimento de 5%em 2021 após um ano de recessão é proporcionalmente menor, na realidade, que um crescimento de 5% caso 2020 tivesse tido uma variação positiva. Isso pode ajudar a explicar essas projeções que o BC tem colhido?

Paulo Kliass - O que você menciona como efeito estatístico é também um efeito econômico. A taxa marginal de crescimento é muito mais alta se você parte de um patamar muito baixo. Qualquer ganho marginal, nesta situação, é relativamente mais alto do que se você já tivesse em um patamar de crescimento sustentado. 

Qualquer ganho comparado com a base de 2020 - que foi uma recessão de 4,1% - passa a ser expressivo. Mas esse efeito não explica tudo. 

Esse efeito poderia gerar, por exemplo, um crescimento de 2%, como ocorreu no ano que sucedeu à recessão de 2016. Há fatores da dinâmica do ano em curso que também determinam esse percentual. 

Reconta Aí - A projeção de crescimento de 5% ou mais é razoável?

Paulo Kliass - [Em primeiro lugar], em relação aos números divulgados pelo o IBGE para o primeiro trimestre e que servem com base para as previsões de crescimento de 5% ao longo de todo 2021, há problemas metodológicos, principalmente na área do investimento. Isso fez com que, por exemplo, investimentos nas plataformas da Petrobras tivessem um peso maior em relação aos anos anteriores. 

Houve uma mudança na metodologia que dificulta a comparação entre períodos.

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Reconta Aí - Retirando esse efeito, como avalia essas projeções?

Kliass - No patamar de 3% e agora chegou em 5% e está se mantendo neste nível, acima de 5%. Eles têm a avaliação de que as bases estão dadas para que este número seja alcançado.

O agronegócio anda bem, pois não depende de demanda interna, é basicamente exportação. Outros setores primário-exportadores, como de minério, também estão indo bem. Isso ajuda explicar. Eventualmente alguma recuperação devido a retomada das atividades, ainda que não no nível imaginado por conta do ritmo lento da vacinação, e também ainda o efeito do auxílio emergencial. 

A grande questão para mim é que o mercado de trabalho continua muito deprimido. O desemprego é altíssimo, um recorde de 14 milhões de desempregados. A precariedade, a informalidade, continua graçando por conta da reforma trabalhista. A massa salarial, então, ainda está bastante debilitada. 

Do ponto de vista da demanda interna, é difícil imaginar que vai dar acima de 5%. Eu ainda estou aguardando mais informações. A estimulação da demanda externa - quando você exporta soja, por menos gerador de emprego que seja o setor, você tem um efeito em cadeia nas áreas de transportes, de insumos, no comércio local, enfim - ajuda a explicar. Mas há uma lacuna para se explicar esses 5%.