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Parece o Brasil: Trump desmonta Correios, almeja privatização e quer impedir eleitores de votarem

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Reorganizado em 1971, o United States Postal Service (USPS, Serviço Postal dos Estados Unidos) é o maior órgão de envio de mensagens físicas do mundo. Com suas raízes no Departamento da Agência de Correios, criado em 1792 a partir da Lei de Serviços Postais, a autarquia jamais perdeu seu caráter público ao longo dos séculos.

O USPS é o terceiro maior empregador civil dos EUA, com mais de 600 mil funcionários, ficando atrás apenas da rede de supermercados Walmart e da administração direta do governo federal. A agência também tem a maior frota de veículos do mundo, com mais de 200 mil automóveis.

Pela abrangência geográfica da prestação de seus serviços, é o maior serviço postal do mundo, sendo responsável por quase metade (47%) das entregas no mundo, de acordo com dados da própria instituição. Durante o período entre o Dia de Ações de Graças e o Natal – grandes feriados ao final do ano – o USPS chega a realizar quase um bilhão de entregas.

Privatização?

O debate em torno do futuro do USPS, entretanto, se assemelha aos que ocorrem em relação a diversas empresas públicas brasileiras, incluindo os próprios Correios, cujos funcionários decretaram greve nesta terça-feira (18).

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Para Amanda Cursino, presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios e Telégrafos do Distrito Federal (Sintect-DF), a opção por órgãos públicos decorre da noção que o acesso ao serviço postal é um direito.

“Constantemente, o governo [brasileiro] fala em privatizar os Correios, mas essa não é a lógica na maioria dos países. Em todo o mundo, apenas oito serviços postais são completamente privatizadas. A maioria é estatal. Nos EUA, um país que defende o liberalismo, os correios são públicos”, diz.

A sindicalista lembra de casos como Portugal, no qual regiões deixaram de ser atendidas após a privatização e da Argentina, país que privatizou e depois reestatizou os serviços postais.

“Em um país continental, caso dos EUA e do Brasil, não se pode deixar que a iniciativa privada seja responsável. A iniciativa privada só quer atuar onde há lucro. Como funciona no serviço público? Se lucra nos grandes centros para subsidiar as localidades que não são lucrativas”, complementa.

Nos Estados Unidos…

Donald Trump, presidente dos EUA, já afirmou em algumas ocasiões seu desejo de privatizar o Serviço Postal. Em maio de 2020, Louis DeJoy foi confirmado como novo presidente da agência. Após modificações na dinâmica de logística, entregas foram prejudicadas, o que foi reconhecido pelo próprio DeJoy, que se defendeu afirmando que os efeitos das alterações não haviam sido previstos.

As semelhanças não param no fato de que os serviços são piorados, o que aumentam as críticas à agência estatal. DeJoy é um doador do Partido Republicano, agremiação de Trump, com potenciais interesses econômicos na privatização da USPS por conta de sua trajetória empresarial.

Há, por outro lado, uma dimensão adicional no debate em torno dos Correios nos EUA: seu papel nas eleições.

Recentemente, a agência afirmou que, por problemas de financiamento, a universalidade de seu atendimento entraria em xeque nos próximos meses. Isso afetaria de forma determinante o possível resultado das eleições presidenciais, cujas pesquisas indicam Trump atrás do democrata Joe Biden.

Como o sistema de votação americano permite que o eleitor se manifeste através dos Correios, a crise de financiamento do USPS põe em risco que esta modalidade de voto esteja disponível a qualquer cidadão que deseje se posicionar por este método.

Trump culpa os Democratas, que controlam a Câmara dos Deputados, pela crise de financiamento. Os opositores, entretanto, querem votar um fundo emergencial para os correiros dos EUA. O Republicano, por sua vez, se diz contra o valor proposto.

Em uma entrevista à Fox News, Trump admitiu que sua contrariedade com o financiamento emergencial se deve ao fato de que, em seus cálculos políticos, a votação por correio favorecerá o candidato adversário.

O Republicano afirma que essa modalidade de votação é fraudulenta, apesar de prevista e regulamentada pela legislação eleitoral. Do outro lado, os democratas lembram que o método sempre esteve disponível, é legal e, mais do que isso, necessário para um país que ainda sofre com a pandemia do novo coronavírus.