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Para onde aponta o caminho da arte no Brasil?

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arte indígena

Para Amanda Aguiar Ayres, professora do curso de Teatro da Universidade do Estado do Amazonas e coordenadora do projeto Arte e Comunidade, o caminho da arte no Brasil passa por se reconectar à cultura dos povos originários junto à tecnologia.

Parece um tema complicado, mas a fluência da professora e pesquisadora mostra que com o diálogo é possível unir suas raízes pessoais: Maranhão, Rio de Janeiro e Brasília ao mundo amazônico, e mostrar os resultados disso ao mundo por meio da internet.

Por meio da plataforma Me Ver, Amanda mostra ao mundo o trabalho desenvolvido em comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas junto ao projeto Arte e Comunidade.

Arte e comunidade alia o teatro à cosmologia dos indígenas, quilombolas e ribeirinhos

Amanda Aguiar Ayres

Reconta Aí - O que te atraiu para a região amazônica?

Amanda Aguiar Ayres - A diversidade é algo que naturalmente pulsa no meu coração; filha de uma maranhense e um carioca, nasci em Brasília. Fui para o Amazonas em 2013 enquanto vivíamos um momento histórico de ampliação dos cursos de arte nas universidades brasileiras - graças ao incentivo do governo, na dimensão de ampliar o acesso à universidade pública. 

A minha graduação anterior na Universidade de Brasília me possibilitou formar os primeiros professores de teatro de Rondônia. A partir daí, vi que o Norte tem um espaço muito significativo, uma importância muito grande para trabalhar com essa formação de professores nas áreas da arte.

Reconta Aí - A arte amazônica é plural e tem raízes anteriores à colonização do País. Como você trata essa questão?

Amanda Aguiar Ayres - A perspectiva da cultura Amazônica tem uma dimensão de ancestralidade muito profunda; os povos originários trazem uma dimensão muito significativa. É um campo de estudo maravilhoso. Precisaria de muitas vidas para estudar com profundidade o campo das matrizes indígenas anterior à chegada dos colonizadores. Eles trazem saberes e vemos que cada etnia tem sua própria cosmologia, história e suas matrizes.

Reconta Aí - Onde o Arte e Comunidade atua?

Amanda Aguiar Ayres - O Arte e Comunidade desenvolve um trabalho muito significativo junto à perspectiva afro-indígena. Trabalhamos em comunidades indígenas, em especial o Parque das Tribos, que é um território que agrega diversas etnias indígenas. Mas também no quilombo de São Benedito e nos Prosamins.

Reconta Aí - E como o Arte e Comunidade se desenvolve?

Amanda Aguiar Ayres - Trabalhamos com a dimensão do diálogo e da valorização a essas culturas, que têm uma relação muito profunda com a natureza e sua maneira própria de educar - muito mais integralizada. É uma escola cotidiana, nossas aulas são um grande bate papo em que aprendemos bastante.  Temos um espaço junto à universidade em que o Arte e Comunidade vem trazendo para além de uma visão da educação pautada na Europa e na dimensão colonizadora. Buscamos compreender essas matrizes e valorizar os conhecimentos das culturas afro-indígenas-ribeirinhas.

Reconta Aí - Qual o tipo de pedagogia envolvida nesse tipo de educação?

Amanda Aguiar Ayres - A pedagogia teatral do Arte e Comunidade vem sendo construída desde 2013. Atualmente temos estágios diferentes do ciclo de formação em diferentes comunidades. É uma metodologia que se constrói a partir do diálogo. Temos alguns princípios básicos do trabalho, mas muito do que vai ser construído parte do desejo, dos sonhos individuais e coletivos. 

Geralmente chegamos à comunidade e buscamos nos olhares sensíveis, os cheiros, os sabores e o que tem de bonito naquele local. Estabelecemos o diálogo com as pessoas, identificamos as lideranças comunitárias, os mestres da cultura popular, os espaços de saberes e fazemos um diagnóstico.

A partir desse diálogo, em que identificamos os sonhos, os desejos e as habilidades, escrevemos um projeto. O projeto é feito junto aos estudantes do curso de teatro, que terão um semestre para desenvolver esse diálogo junto à comunidade e escrever. No semestre seguinte, chegamos à comunidade com a proposta de oficinas de teatro. 

Ao longo das oficinas, identificamos o que seria interessante para construir uma dramaturgia. E construímos essa dramaturgia todos e todas juntos, professores da universidade, estudantes de teatro mestres e mestras da cultura popular, crianças e jovens. Aí vira uma grande brincadeira coletiva que envolve toda a comunidade. 

E no outro semestre começamos os processos dos ensaios, que podem acontecer dentro de um teatro no local em que a comunidade julgar adequado.

Reconta Aí - E os frutos desse trabalho?

Amanda Aguiar Ayres - Temos um campo de produção grande. De 2013 para cá já montamos mais de doze espetáculos teatrais, onze trabalhos de conclusão de curso trazendo a memória do Arte e Comunidade, uma tese de doutorado na USP, dez iniciações científicas, mais de vinte artigos publicados em congressos nacionais e internacionais, artigos de livros. 

Reconta Aí - Onde entra a internet?

Amanda Aguiar Ayres - Minha formação foi com foco em arte e comunicação. Aproveitando essa bagagem, inserimos isso no projeto durante à pandemia. Fazemos transmissões de teatro e obras de arte cênica por meio da plataforma Me Ver. Dessa forma juntamos professores e estudantes de diversos estados, e até de outros países, para montagens.

Fazemos isso com participação dos internautas em espetáculos ao vivo pelo Youtube. E esse trabalho tem possibilitado ampliar o acesso às obras desenvolvidas. O objetivo é trabalhar a mediação tecnológica como oportunidade para novas formas de conhecimento.