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Pandora Papers, Corrupção e Patologia da Mídia

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Arquivo de Imagem
card artigo Mauricio Falavigna

Há doenças piores que a doença.

(Fernando Pessoa)

A massa de imagens e palavras que nos mostra o mundo também nos molda os conceitos de certo ou errado, bom ou ruim, bonito ou feio. Mídia e entretenimento nos dão um parâmetro ético da vida e ditam nosso comportamento na pólis, não só em busca de objetivos individuais (o sonho da Selva), mas na perseguição do bem estar coletivo.

Frisadas estas platitudes, brota a pergunta? O que ofende a opinião pública brasileira?

A primeira imagem que surge à mente são canos de óleo jorrando notas de cem reais, como foi ilustrada a corrupção no noticiário declaradamente dirigido a Homer Simpson, o avatar do brasileiro na visão editorial e mercadológica da Globo. A imagem nos chega antes mesmo que a palavra “corrupção”, já que este é um termo propositalmente inconsistente, que se presta a cada ocasião. Mas a combinação da voz do apresentador, da imagem das notas voando e as palavras “Corrupção” e “PT” funcionaram bem como peça publicitária. Construíram emoções e certezas sólidas no imaginário coletivo. A “corrupção” tornou-se o grande pecado para a opinião pública nacional.

O massacre midiático foi em nome da moralidade. Falar em ética política seria um exagero, nem mesmo os editores de jornalismo de cada empresa assimilariam a expressão. Os casos de “corrupção” noticiados já foram desconstruídos, mostrando crimes desde a confecção do roteiro até os resultados obtidos pela Lava Jato. Intentos políticos geraram fábulas construídas pela mídia e vividas por promotores e juízes, que viram suas carreiras definharem, algo mínimo perto dos danos que causaram a pessoas físicas, ao desenvolvimento nacional e à vida institucional. Mas eles perderam a credibilidade de outrora. Respiram, ainda, pelo fato dos grandes meios jornalísticos persistirem na difusão das versões e emoções daquele momento. Mesmo ciente dos fatos, a mídia ainda insiste na salvaguarda de suas próprias ações criminosas, mas também nas imagens de uma reserva moral (a “luta anticorrupção”) e de uma culpabilidade imposta (a “corrupção petista”). Verdade, ética e justiça pouco importam até hoje para os jornalões.

Não parece tão inaceitável aos formadores de opinião publica que os que comandam a política econômica federal, o Ministro da Economia Paulo Guedes e o Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, utilizem-se de seus cargos e poder para benefício próprio, tomando decisões que incrementam seus patrimônios. Também é irrelevante para os grandes meios o fato de que Código de Conduta da Alta Administração Federal proíbe "investimento em bens cujo valor ou cotação possa ser afetado por decisão ou política governamental a respeito da qual a autoridade pública tenha informações privilegiadas". Além dos dois nomes envolvidos regerem a política cambial brasileira e serem atores importantes na reforma tributária, bastaria lembrar declarações de descaso com a alta do dólar, ou que, em julho de 2020, foi elevado o valor de depósitos no exterior que exigem declaração ao Fisco. Mas não há ética a se questionar, ou dolo a se investigar.

O fato do Ministro da Economia levar seu capital para o exterior, o que demonstra uma imensa confiança no seu trabalho e no futuro brasileiro, sequer é mencionado. Quanto à fuga do pagamento à Receita, bem… Todos os editores e jornalistas dos grande meios de comunicação sabem que abrir offshores é um ato de fuga de impostos e sigilo sobre a renda. Que é um capital que facilita a lavagem de dinheiro e largamente utilizado em atividades escusas e no crime organizado. Todo esse encadeamento lógico não fez parte da cobertura da grande mídia. Limitaram-se a notas de rodapé, até mesmo algumas justificativas condescendentes. Se, para a mídia, a ética é desprezada tanto na prática profissional como na vida pública de seus protegidos, a lógica também não é lá tão necessária à construção do discurso midiático. Basta impor os temas e provocar emoções a partir de suas interpretações.

O termo “corrupção” deve implicar em uma quebra legal, um rompimento da civilidade e das regras que asseguram o convívio social. No entanto, a sonegação fiscal, embora criminalizada, jamis teve qualquer liame com a corrupção, por mais tênue que fosse, nos noticiários de toda a mídia. Pelo contrário, esforços jornalísticos sempre demonizaram a carga tributária do empresários. Impostos e direitos trabalhistas costumam ser propositalmente mesclados com outra palavra feia, “burocracia”. E sempre apresentados ao público como atrasos e empecilhos ao progresso. Hoje a sonegação sequer é escamoteada, tornou-se um “ato de resistência” da elite nacional, e inclui as famílias proprietárias das empresas de comunicação, como pôde ser visto nos Panama e agora nos Pandora Papers.

É verdadeira a pressa de nos livrarmos desta presidência e deste governo. Também é certo que precisaremos reconstruir as instituições e boa parte do Estado desmantelado. Mas, se quisermos garantir solidez em uma República (ainda a ser construída) e em um processo democrático contínuo, é mais do que urgente uma reforma profunda nos meios de comunicação, um processo que democratize a comunicação na sociedade.

O escândalo das offshores deixou às claras como o discurso midiático ultrapassou a mera conotação classista, elitista. Ele hoje prescinde até das aparências da ética e da lógica. Sua persuasão leva à cegueira dos interesses coletivos, suas razões políticas são absolutamente privadas, sua presença cotidiana é doentia para a sociedade.

O comportamento da mídia brasileira é patológico.