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Os Anos Que Não Acabaram - somente alguns desafios...

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Maurício

O mesmo bloco de tempo, no qual sentimos que cada passo à frente é curto e não compensa a caminhada para o passado, não sofreu qualquer abalo pela mudança do calendário. E, ainda que haja luz lá na frente, barreiras se multiplicam pela estrada.

Não há perspectiva de retomada econômica, nada indica que haverá alterações na política de combustíveis, não há perspectiva de investimentos no setor energético, o desabastecimento continuará devido à política de não estocagem, a inflação continuará pressionando os consumidores. O desalento, a pobreza e a fome estarão presentes.

Não bastasse o cenário desolador, é ano de eleições e de promessas de golpes, ameaças de reações contra o que restou das instituições, difusão de notícias falsas, ataques a reputações, instrumentalização das polícias contra inimigos políticos, pronunciamentos de militares boquirrotos e, mais do que nunca, de desespero midiático ante a possibilidade de fim das políticas neoliberais.

Será mais um ano de resistência, obstinação e de difícil compreensão de realidades políticas que tendem a ser simplificadas por uma postura de boicote (típica da grande mídia) ou de insatisfação radical (comum a partes da militância de esquerda).

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O primeiro enfrentamento consiste na assimilação dos riscos que enfrentamos. Tanto o fascismo tresloucado de quem assumiu o poder, como o privatismo, o ensejo de desmantelamento da máquina administrativa, não vão sair do poder sem espernear.

Vale lembrar dos interesses corporativos, rentistas e do agronegócio que seguem beneficiados durante a crise e o caos, vale lembrar de fardas que especulam e enriquecem, togas que mantiveram seus privilégios, instituições instrumentalizadas (como a PF e o MP) para manter à distância qualquer esboço de governo popular, vale lembrar o voluntarismo e a sede de sangue das polícias militares estaduais. Tudo pode e irá ser experimentado, seja para promover um golpe impossível ou apenas para marcar território.

O segundo desafio é compreender que, apesar de uma candidatura aparentemente imbatível que representa a volta da esquerda ao poder, essa maioria não consiste em uma maioria partidária ou da própria esquerda. E que garantir governabilidade será a principal tarefa deste ano de campanha.

A ideia de Federação deverá ser fundamental para isso, garantindo até mesmo o aperfeiçoamento pedagógico do eleitorado, já que ela é programática e com duração de quatro anos – mas será preciso firmar compromissos com os aliados de reverter não somente o comportamento, mas também ações já implementadas e que resultaram em perdas de patrimônio nacional, de direitos trabalhistas, de garantias sociais e de governabilidade.

Mais do que aceitar essas realidades, há que se lembrar que o foco da campanha estará no emprego e na fome, na reconstrução da presença do Estado, no amparo social. E esse será o cerne do convencimento: conquistar por meio da memória, da situação de vida que se perdeu, nos futuros individuais e coletivos que deixaram de ser construídos.

Por fim, é preciso trabalhar sobre dois pontos: as eleições legislativas e o combate à abstenção eleitoral.

Não basta focar na eleição presidencial como nossa última alternativa. Será preciso garantir uma presença muito maior e mais qualificada no Congresso. Isso já vem sendo repetido há tempos, mas urge contar com os principais quadros e com a mobilização da militância para esse objetivo durante todo o ano. E, o que não tem sido falado: é preciso uma campanha para as pessoas saírem de casa, votarem.

O estimulado desprezo à política gerou uma abstenção crescente, inclusive porque, na prática, o voto não é mais obrigatório. Uma pequena multa regulariza a situação de ausência. E a parcela que demonstra desinteresse está próxima aos que vivem o desalento e a desesperança. Essa é uma massa de votos que pode ser convencida a votar contra tudo o que representou os últimos anos de governo.

Pode ser o ano do alívio. Mas até lá, além de resistir aos percalços, é preciso compreender que a destruição foi imensa, que qualquer programa ou ações políticas parecerão pequenas perto de nossos sonhos, e que ainda estamos longe de respirar tranquilos. Recomeçaremos quando os anos, enfim, terminarem.