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O Terror e os Dias

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card artigo Mauricio Falavigna

“A destruição faz parte do ciclo.”
(Steve Bannon)

“O fascismo é política, cultura e tempo; cada época tem seu fascismo.”
(Primo Levi)

A instalação do caos destruiu as noções de tempo. O ciclo destrutivo e antipolítico no qual ingressamos subverteu a ordem institucional, o funcionamento das próprias instituições – e isso inclui os partidos, não só o funcionamento dos poderes, a agenda e o cotidiano políticos. O poder instalado só rege a inundação caótica de nossa vida social, subvertendo regras e desafiando cada limite do ordenamento público.

Vivemos de efemérides. Dias 7, 12, talvez dia 18... Apenas 2022 parece possível, mas o ano e as eleições não chegam. Tudo gira em torno de datas/eventos com teores incertos, fluidos ou irrealizáveis. De um lado um impeachment que não pode se realizar no momento, não resolveria os problemas mais graves que vivenciamos e não traz sequer um esboço de futuro imediato.

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Do outro lado, pedidos por um golpe que já foi dado, ou de exibição de força, de destruição de destroços como o sistema político e o STF. As pesquisas provocam mais temor que as ruas, que aglomeram por vezes o delírio fascista minoritário, que só se compraz com o sofrimento e a eliminação do próximo; por vezes agrupamentos da esquerda e de setores da burguesia arrependidos, todos divididos profundamente e transpirando temores.

Intenções bonapartistas, alegadas pela mídia como o risco que corremos, dependem da adesão de parcelas burguesas, e de apoios militar e midiático, como se viu no golpe eleitoral que levou esse presidente ao poder. Essa adesão vai se desfazendo lentamente, pois temem ainda o retorno de seu pesadelo, que lidera as pesquisas. Como já demonstraram, preferem o obscurantismo que lhes garante a superioridade “natural”, a livre disposição sobre os corpos excluídos.

As esquerdas, ou o conjunto da oposição intitulada como “progressista”, já se divide pelos meios de comunicação. A grande mídia estabelece quem “pode” fazer oposição. E, mesmo quando se posta como contrária ao presidente e à tentativa de golpe, mostra suas preferências na cobertura, nas entrevistas, nas opiniões. O dia da Independência contou com ampla e total cobertura da festa fascista. Mais de 400 manifestações contrárias foram minimizadas.

Os programas “sérios” e que servem como referência para a formação da opinião pública podem demonstrar rompimento com o monstro que apoiaram, mas aprovam os princípios neoliberais que orientam a política econômica do governo, agem como se Lula não existisse, só chamam para debates e entrevistas membros adestrados da dita “esquerda” (ou os atraem para matérias enganosas), excluem Lula e o PT da cena política e abrem espaço para pautas identitárias ou de costumes que não confrontam o sistema, caracterizando-as como a “nova política”.

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A única ação política das últimas semanas foi a viagem de Lula ao Nordeste. Arrastou mais gente às ruas do que as manifestações. Envolveu nomes tradicionais e de peso na política brasileira. Estabeleceu alianças ou suas possibilidades. Arrastou mais “movimentos” que as palavras de ordem das redes sociais. Manteve a perspectiva da ordem institucional, ou seja, teremos eleições normalizadas em 2022. E essa viagem foi meticulosamente escondida pela mídia, que opera “cancelamentos” e fake news há muito mais tempo que o mundo das redes.

A sensação que não passa é a de que caímos em um poço cujo fundo sequer alcançamos. Restam poucas certezas. Uma delas é a de que o atual mandatário não participará de um pleito do qual saia perdedor. A outra é que pretende manipular as eleições mais uma vez, e esse objetivo faz parte dos ensejos de muitos de seus ex-apoiadores, agora arrependidos. A terceira é a de que, se houver eleições normalizadas, não existirá terceira via: será Lula contra o candidato da mídia e do neoliberalismo, o confronto propalado entre Lula e Bolsonaro jamais ocorrerá.

A última certeza é a de que a oposição ao fascismo em vigor ainda não aceita (e isso inclui boa parte da chamada “esquerda”) que a classe trabalhadora e os excluídos se sintam representados no poder. Não há uma Frente porque qualquer estratégia em comum é impossível, e a pobreza do “Fora Bolsonaro” é uma solução de marketing, não dá conta da realidade política e social vigente. No momento, por mais que as tensões sociais nos arrastem para as ruas e para a luta, parece não haver condições de uma aliança em torno de um programa democrático popular, que estanque a espoliação ao trabalhador e promova desenvolvimento com justiça social.

O problema encontra-se nas incertezas. Eco dizia que “o fascismo é um jogo que pode ser jogado de várias formas”. As redes sociais fazem parte do horror que se ampliou, mas o complexo midiático também possui grande domínio neste setor. Momentos de crise como o que vivemos geram duas caástrofes iminentes: a concentração do poder (privilegiando os donos do Capital em oposição ao Trabalho) e o desejo popular por Lei e Ordem, que dá sustento a discursos e medidas repressivas.

A frágil esperança que resta é a do convencimento de mais grupos sociais daquilo que deveria ser óbvio: o que é temido e proibido pelos donos do poder é o único caminho a trilhar. O que é mais atacado pelos “formadores de opinião” é a chave para confrontar o ambiente macabro que circundou nossa existência coletiva. Temos que garantir 2022 e transformar o córrego de esperança em um rio caudaloso. Há que se esquecer os ruídos do entorno. Abandonar os medos, as pautas e as palavras de ordem que vêm do alto, de fora, do inimigo. Nossa esperança, por mais irracional que hoje pareça, é que do caos nasça uma estrela, uma estrela que dance e brilhe como desejamos viver.