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O sonhado primeiro turno e a "polarização" criada por quem não tem voto

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Maurício

Desde a redemocratização, poucas vezes a possibilidade de uma vitória da esquerda no 1º turno foi tão ventilada a um ano das eleições. E, aparentemente, nunca foi tão possível.

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Em outubro de 2013 (tremenda ironia histórica), segundo o Datafolha de 12 de outubro, Dilma possuía 42% das intenções de voto, contra 21% de Aécio. E essa foi a marca mais alta que um futuro presidente petista alcançaria em uma pesquisa a um ano do pleito. Até agora.

Em resultados finais de 1º turno, Lula sempre conseguiu marcas crescentes. Foram 17,18% dos votos no primeiro turno de 1989; 27,07% em 1994; 31,71% em 1998; 46,44% e 48,61% nas duas em que ganhou, em 2002 e 2006, respectivamente. Nas suas duas eleições vitoriosas, houve grande esforço da mídia e dos demais partidos para garantir um 2º turno. Em 2006, ao contrário de agora, os resultados finais do 1º turno mostraram que, além de Lula e Alckmin, que tiveram somados pouco mais de 90% dos votos, os demais candidatos tiveram votações sofríveis. No entanto, à época, ninguém chamava isso de polarização.

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O cenário atual do Datafolha de dezembro (Lula 48%, Bolsonaro 22%, Moro 9%, Ciro 7% e Doria 4%) mostra uma tendência de consolidação e crescimento de Lula em relação às outras pesquisas do ano.

Mas por que seria importante – e assim todo o partido e a militância estão considerando – a vitória no primeiro turno?

Segundo o site Jota, que cobre principalmente o Poder Judiciário, utilizando uma ferramenta que analisa todas as pesquisas e suas variações no tempo, a chance de Lula vencer no 1º turno já é de 12,5%. No entanto, há um mar de desafios a serem superados para se alcançar a votação significativa que se deseja.

A mídia continua em guerra com a candidatura petista, ora escondendo ora lançando alertas apocalípticos sobre um futuro governo Lula – fim do sagrado teto de gastos, revogação de reforma trabalhista, Lei de Meios, reversão de privatizações – tudo o que foi defendido com unhas e dentes durante este governo, mesmo que se criasse a pantomima de uma oposição.

Há ainda o antipetismo mais arraigado de classe média, que embora vocifere contra uma “corrupção” sem fatos, teme ainda mais um “radicalismo” mal definido. São medos similares ao propagado temor do Mercado, esta entidade que embasa os valores mais progressistas da mídia nacional. Para isso vem se construindo uma aliança com o centro político, que procurará amenizar as desconfianças gerais, ao menos dos mais incautos.

Vale notar que muitos votos outrora dados ao atual presidente revertem-se diretamente a Lula, especialmente nas classes mais pobres. Também é importante lembrar que a eleição apresenta duas candidaturas de extrema direita, com nuances que pintam ou esboçam o fascismo, seja a partir de lideranças fardadas ou togadas. E que todas as alternativas a Lula e Bolsonaro aproximam-se mais do famigerado mercado e dos ideais lavajatistas que coordenaram o golpe de 16. Mas é justamente a parcela mais despossuída da sociedade, onde o atual governo garantiu sua vitória eleitoral, que hoje dá o suporte de massa à candidatura de Lula.

Ao lado do antipetismo maleável da classe média e o ranço constante da mídia, figura ainda o antipetismo raivoso de uma esquerda não petista, que parece ser sua garantia de existência política e inviabiliza qualquer aliança progressista. É o setor em que, apesar do diálogo entre direções dos partidos, apresenta um confronto constante não só nascido nas militâncias, mas também alimentado por atores políticos de peso, colocando em dúvida até mesmo futuros acordos e alianças. Boa parcela dessa esquerda foi partícipe, consciente ou não, do golpe contra o governo petista. E já se apresenta como fator de desestabilização futura de um próximo .

Será difícil manter e ampliar a vantagem atual. Porém, contra tudo e todos, é a tendência que vem se apresentando. Será um ano para se manter o foco e o trabalho de convencimento da população, mais nas ruas do que nas redes, pois lá não há lutas por espaços de poder. Nas ruas, o único alimento disponível é a esperança.