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O Som e a Fúria – a CPI, as pesquisas e as ruas

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card artigo Mauricio Falavigna

A sabedoria suprema é ter sonhos bastante grandes para não se perderem de vista enquanto os perseguimos.”

...não há tempo no mundo que não seja desespero, nem mesmo o tempo é tempo antes de ter sido”.

(William Faulkner, O Som e a Fúria)

Uma semana de ruídos, gritos, esperanças e medos. No mesmo terreno movediço em que já nos habituamos a caminhar, com vários caminhos a seguir. Resta saber se são de retorno ou se levarão a um novo lugar. E se o burburinho se refere à realidade.

A sessões da CPI da Covid, entre balbúrdias, protestos governistas e crimes explicitamente desnudados por mentiras transparentes, parece ter levado a presidência e a famiglia aos estertores. Essa impressão não advém só das investigações que marcharam pela óbvia trilha do dinheiro, mas principalmente da narrativa midiática. As Organizações Globo voltaram suas armas contra o chefe de governo e seus apoiadores mais próximos, procurando a sensação (e a certeza) de que o presidente é corrupto – única qualidade necessária para o processo de impeachment. Nem mesmo se fosse comprovado o mando de um assassinato ou uma simulação de atentado, os resultados seriam tão eficientes em nossa cultura política.

Como toda peça precisa de um cenário, as ruas foram estimuladas a abrigar a classe média despolitizada e impregnada de valores morais que, finalmente, foram feridos. A fome, o desemprego, as mortes pela pandemia, o banditismo militar e civil não ultrajou a dignidade do brasileiro. Mas o incômodo com o “novo normal”, a ausência de vacinas (a panaceia) e a descoberta de que elas não vieram por um etéreo caso de corrupção (como o do Fiat Elba, bode expiatório de outra gangue política, até hoje não assimilado pela massa) fez a insatisfação transbordar. Provocou a ira de artistas, estrelas do BBB, destaques do funk e animadores de programas de auditório. Lágrimas chegaram a escorrer de apresentadores do principal noticiário nacional.

Os atores da peça foram garantidos para o próximo ato. Se havia uma expectativa das ruas serem avermelhadas, houve um grave erro de cálculo. E agora há um desespero para tomar o papel principal. Os lemas serão "Fora Bolsonaro”, “Vacinas Já” e nada mais. Pouco importa a proporção das cores, a mídia decidiu que essa é uma exigência verde-amarela como a camisa da seleção. Serão milhões em ação, justificando os editoriais que demonstram nojo do presidente que elegeram, mas satisfação com sua política econômica e com o estilo “Pra Frente Brasil” que, na marra, terá que ligar as massas na mesma emoção.

A única ameaça ao roteiro são os alertas das pesquisas. Se há um único objetivo que o golpe jurídico-midiático (e militar) não conseguiu, foi o de abater um partido e a principal liderança do país. Mas o cenário sempre oferece novas oportunidades de criar uma resistência à esperança popular. Desde o final da Ditadura de 64, as ruas foram um instrumento de virada para a direita. Quando as multidões não foram arrastadas por disputas (e pautas) eleitorais, o resultado das aglomerações resultaram em soluções conservadoras. O Diretas Já pode ter sido um sucesso popular memorável, mas resultou em eleições indiretas e cinco anos de Sarney. As caras pintadas repaginaram Itamar e, ao lado do plano real, deram início à hegemonia tucana. As manifestações de 2013 foram o estopim do golpe que vivemos. Sempre que a democracia institucional, frágil e líquida, ameaça levar uma proposta popular ao poder com legitimidade, ela escorre entre os dedos e é remodelada pelos donos do poder, com o auxílio dos meios de comunicação. Nunca houve uma quebra de institucionalidade sem a participação direta e incisiva da Rede Globo. Gritar por impeachment sempre foi um apelo da emissora.

Se o roteiro for seguido, a narrativa do evento deverá trazer em seu bojo o entusiasmo popular, a festa pela queda do clã Bolsonaro e o surgimento de uma outra via para retomar a dita “normalidade". Escapar da vontade popular, tentar modelá-la para outros desejos, será imprescindível. E não se tratará mais da malfadada terceira via, já que uma delas será definitivamente descartada. Será preciso que as elites moldem um candidato que recupere o neoliberalismo cínico, mas com rigor nas aparências e que não encare a miséria social como motivo de orgulho. Que lamente a peste, a fome e a morte com verniz civilizado. E será difícil reconstruir essa imagem tão peessedebista.

Mas há vida além do palco ou picadeiro. As privatizações avançam, a luta pela reforma administrativa se sustenta, o famigerado partido militar apresenta Santos Cruz como sua alternativa, Lula e seus números na pesquisa vêm rearranjando as peças no tabuleiro partidário, a eleição continua no horizonte e parece ser o momento tardio de saída do Estado de exceção. O desmantelamento do Estado e do patrimônio público continua a avançar ferozmente, a insatisfação sem nome e sem motes claros continua encontrando a memória e a experiência de Lula para se fazer ouvir e esperançar.

Por mais que números apontem uma solução otimista, resta à esquerda saber se esse longo curso será mais navegável na estagnação das águas podres que nos afogam ou no orquestrado maremoto das ruas. De qualquer maneira, as soluções virão de cima, seja em acordos com uma elite amedrontada ou manobras de seus membros mais renitentes.

Resta aos setores progressistas salvaguardar a única possibilidade de derrotar o Golpe. Dentro do cenário de despolitização criado com esmero há duas décadas pela mídia, a imagem de Lula se tornou maior que partidos ou espectros políticos. Todo o cálculo realizado para uma retomada das pautas de esquerda só poderá passar pelo seu nome. Urge retomar as bases, organizá-las politicamente, mas o tempo é curto e o estrago já é imenso. O tamanho do eleitorado de esquerda é muito menor do que o eleitorado de Lula. O tamanho do eleitorado conservador também. O som e a fúria devem encontrar seu caminho. E ele não passará pelo picadeiro, pelo palco, pela mídia.