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O Petróleo É Deles: de um sonho de soberania a um Exército envelhecido e desnacionalizado

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Imagem do site Recontaai.com.br

Esta semana vivemos mais uma polêmica envolvendo Petrobras, Bolsas, governo e seus fardados nomeados. Mais uma vez o delineamento se deu em função dos parâmetros dos meios de comunicação: o privatismo e as “liberdades econômicas” estão na agenda tanto da mídia quanto do governo, mas a suposta “intervenção” do presidente na Petrobras foi notificada ao público (sempre bestializado) como um arroubo estatizante, uma afronta ao livre mercado. Para incrementar a revolta midiática, mais um general foi nomeado – e a comparação com outras áreas em que eles já exercem sua obtusidade, como a Saúde, foi inevitável.

Além da grande e infelizmente notável presença nos ministérios, os militares já ocupam um terço das estatais. Mas Petrobras e Forças Armadas possuem uma história juntas, bem oposta aos ideais de mercado e de entreguismo.

O sonho do petróleo nasce dentro do Exército brasileiro. As Forças Armadas apoiaram Getúlio na construção do monopólio estatal. Os militares tinham ideais nacionalistas e desenvolvimentistas dentro de uma perspectiva de soberania e industrialização. O Exército brasileiro já esteve imbuído de um projeto de Nação. Mesmo no pós-Guerra, quando o Gal. Dutra assumiu a presidência e, fazendo jus aos militares atuais, pensou em abrir ao capital estrangeiro o mercado de petróleo, foi o Clube Militar que entrou em ação para defender o monopólio estatal. O nacionalismo do Exército brasileiro nasceu junto com “O Petróleo é Nosso”. E o primeiro projeto de Nação soberana e desenvolvida nascia na Era Vargas, baseado nos elementos mais estratégicos para que se alcançasse esse objetivo: petróleo e militares.

Esse projeto teve andamento. Cerca de 70% do crescimento do valor da transformação industrial entre 1996 e 2010 devem-se apenas a dois setores, a exploração intensiva de recursos naturais e a expansão do complexo petroleiro. O petróleo sempre foi considerado um ativo estratégico para o desenvolvimento tecnológico e econômico do Brasil. Refinarias, terminais, dutos, distribuidoras e, mais recentemente, até a indústria naval sempre fizeram parte do complexo industrial-militar de defesa. O desenvolvimento soberano era uma premissa da ideologia formadora das Forças Armadas no Brasil, assim como a nossa segurança energética sempre foi um ideal a ser perseguido e assegurado no tempo. Não é à toa que Getúlio, JK e Jango nomearam generais para administrar a estatal.

Entregas

Os militares viram (e participaram) o País acumular mais de U$ 1 trilhão em reservas apenas no pré-sal. Viram nossa produção bater recordes na produção de petróleo e gás, e viram a Petrobras se tornar a maior e melhor empresa nacional e uma das dez maiores do mundo em seu setor.

Os militares hoje vêem (e participam) o desmantelamento da empresa e do ideal de soberania. Venda de gasodutos, entrega da BR Distribuidora, anúncio de venda de refinarias por números irrisórios para os parâmetros deste mercado. Guedes parece babar com a privatização – e provável desnacionalização – da empresa, o defenestrado da semana, Castello Branco (orgulhoso por distribuir maiores lucros aos acionistas), só falava da partilha do pré-sal…

Agora o que vemos é um general de volta a Petrobras. Nos últimos anos, vemos generais bem alimentados, acumulando rendimentos, sentando-se mudos ao lado dos algozes da estatal, revelando a imagem de um Exército envelhecido, privatizado, desnacionalizado e paralítico. Admitindo a realidade dessas Forças Armadas sem indústria, dependentes de Forças Armadas de países industrializados e imperialistas. Generais colonizados e subservientes ao capital internacional.

Se restou uma parcela nacionalista, desenvolvimentista e com fumos de soberania nas FFAA, ela é fraca e calada, muda e subjugada. Não a conhecemos. Qualquer ação diferente do general nomeado seria uma profunda surpresa.

‘Dilemas’ do investidor

Enquanto isso, como se os Marinhos tivessem enterrado Samuel Wainer definitivamente, a mídia adestra a opinião pública: o mercado é o impulso civilizatório, qualquer intervenção governamental na economia (mesmo em uma empresa estatal!?) é perniciosa, nosso período sob governos
petistas geraram desde a crise econômica atual até o preço do gás e da gasolina, não há saída fora dos desígnios do grande capital. “O petróleo é deles”, gritam sem usar essas palavras. Qualquer preocupação com o público, com um projeto de Nação, com soberania e desenvolvimento, não passa de “populismo”, esse conceito absolutamente vilipendiado à direita e à esquerda.

Com exceção de Lula, hoje silenciado pela mídia, ninguém grita contra a influência dos EUA, contra a Globo e contra os instrumentos do poder como o Judiciário e as Forças Armadas. Nossa elite parece satisfeita. A oposição parece só pensar em eleições, mesmo sob um Estado de exceção. Não encontramos uma saída.

O petróleo é deles. O país é deles. O futuro é deles