Reconta Aí Atualiza Aí O País na Encruzilhada Pandemia, Crise Econômica e Opinião Pública

O País na Encruzilhada Pandemia, Crise Econômica e Opinião Pública

Pois, as encruzilhadas são lugares, e momentos, de reflexão para escolha do caminho a seguir, mas também são lugares naturais para que possamos nos desvencilhar das negatividades por nós criadas ou em nós respingadas.
(Mãe Stella de Oxossi)

O momento é de uma tensão política palpável. Parece que chegamos a um local familiar à cultura nacional: a encruzilhada, a encruza, onde desejos, oferendas, desesperos e decisões se deitam na esquina e enchem os peitos dos passantes, provocando temor ou incitando a vida.

A crise humanitária, da qual tanto se fala nos noticiários, vem sendo associada à doença, ao colapso da saúde, à morte. Hoje assistimos aos meios de comunicação anunciando o País como uma ameaça mundial. A insistência em tornar a doença como o grande motivo para a rejeição ao presidente é a palavra de ordem de editoriais, comentaristas políticos e econômicos. E traz a facilidade de uma justificativa única: “quem diz isso não somos nós, é a ciência”.

Esse discurso acaba por moldar um símbolo para o problema: o presidente caricato, seu negacionismo, sua baixeza, sua família e seu entorno. Primeiro define-se a crise como algo exclusivo da área da saúde. Em seguida transformam o presidente no único foco da crise, o único culpado, uma aberração que produziu a tragédia. Responsabilidades são retiradas.

Esse simbolismo e seu discurso recorrente deixam de lado, por conveniência, todos os aspectos da crise econômica. Desemprego, fome, desindustrialização e inflação são temas relegados a segundo plano. O auxílio emergencial ter sido reduzido em valores e beneficiários também importa pouco. A própria “Carta do PIBinho” (banqueiros, economistas, celebridades do mercado), entregue hoje ao público, joga todos os problemas socioeconômicos no colo da pandemia. Como se desde o golpe os números navegassem de vento em popa. Como se a maior parte dos brasileiros não sentisse a pressão do desemprego, da alta de preços, da fome batendo à porta.

Ao mesmo tempo em que volta seus esforços de combate ao chefe do Executivo, a mídia tenta salvaguardar o que restou da imagem da Lava Jato e manter a inelegibilidade de Lula. Como se a força-tarefa não tivesse destruído mais a economia do que a incompetência no combate ao vírus. Como se não houvesse a sensação de que, se estivéssemos no País dos governos petistas, do SUS e do Estado Social, já estaríamos sendo vacinados há meses.

Longe de dizer aqui que a incompetência da equipe governamental e do presidente não foram problemas graves. Que dar o exemplo obscurantista ou receitar capim ou cloroquina, esterco ou ivermectina, não teve e não terá consequências. Mas, na encruzilhada, é preciso escolher o caminho claramente. Deixar outras estradas e opções para trás. Fazer com que outros te sigam e repitam suas razões – isso é moldar a opinião pública. E a mídia nacional insiste em manter suas trilhas originais, a que reforça o antipetismo e que apóia a política econômica neoliberal. Insiste em pedir providências de um governo, cobrar ações estatais e, ao mesmo tempo, defender o desmantelamento do Estado, o fim das políticas sociais e a venda do patrimônio nacional.

Qualquer solução advinda dessa postura será paliativa e efêmera. Não basta trocar ministro da Saúde, ameaçar com tribunais internacionais, soltar notas de repúdio, ridicularizar a moral e os costumes de uma família beócia e manter a política econômica que vem nos asfixiando. Não basta manter a autocensura da imprensa, o Estado de exceção, um sistema político falido e as instituições desmoralizadas.

Já vimos que todos os caminhos levaram ao caos. E já conhecemos a trilha que nos levou à construção de um País. Todas as outras voltaram no tempo. Não se pode confiar nas placas de indicação da mídia: elas não nos levam onde as palavras prometem. Florbela Espanca nos dizia que “Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem / para exprimir a mentira e a verdade”. Na encruza, não podemos nos enganar e ouvir o sopro de voz dos inimigos.

É preciso que tomemos a estrada certa novamente.

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