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O fim da globalização. E o Brasil?

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O termo Globalização ganhou força a partir da década de noventa do século 20.

A queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética (URSS), dois símbolos importantes do mundo pós segunda guerra mundial, consolidaram a hegemonia americana (EUA) no mundo.

O mundo vivenciou “globalizações” em outros momentos da história. A expansão marítima de Portugal, Espanha e Holanda nos séculos 15, 16 e 17. A hegemonia da Inglaterra a partir da Revolução Industrial (séculos 18 e 19). E a hegemonia econômica dos EUA no século 20, com suas multinacionais, sobretudo a partir da segunda grande guerra. Todas podem ser vistas como “globalizações”. Se quisermos viajar no tempo, o império Romano também comandou sua “globalização”, integrando vastas áreas territoriais sob seu domínio.

A globalização a que estamos nos referindo, no período recente, é aquela liderada pelos EUA após o fim da URSS (1991). Alguns analistas chegaram a afirmar que a hegemonia dos EUA e a correspondente ordem liberal representariam o fim da história.

Mas a história sempre prega peças. O ressurgimento da China como potência econômica, desde o final do século 20, tem desafiado a liderança estadunidense nos últimos anos. Ressurgimento porque, ao longo da história, a China sempre foi uma potência econômica. Medido pelo Produto Interno Bruto – PIB, a China tinha a maior economia do mundo até, praticamente, o final do século 19. Foi ultrapassada pela Inglaterra e depois pelos EUA nos últimos 150 anos.  

Quais foram as principais características da atual globalização que, provavelmente, está com os dias contados?

A hegemonia do dólar como única moeda mundial de referência. O poder do sistema financeiro dos EUA, apoiado em seus grandes bancos e instituições financeiras. O domínio de mercado das grandes empresas americanas, especialmente as 5 maiores big-techs (Alphabet/Google, Apple, Microsoft, Amazon e Facebook).  

Outra mudança estrutural foi a transformação da economia chinesa na máquina industrial do planeta. A causa principal desse deslocamento da produção industrial para a China foi a busca pelos baixos salários pagos naquele país. Um dos principais desdobramentos foi a criação das cadeias globais de produção em praticamente todos os setores da Indústria. A dimensão financeira da globalização também merece ser destacada. A abertura dos mercados financeiros promoveu profunda integração econômica e financeira em escala mundial. Esses movimentos foram viabilizados pelas revoluções nos transportes e nas tecnologias de comunicação.

Um exemplo permite compreender melhor esse fenômeno. Nos dias de hoje, um celular é produzido e montado com peças de centenas de fornecedores espalhados por dezenas de países. Sempre em busca de custos menores e maior eficiência.

Ocorre que a atual globalização, tal como a conhecemos, está “desmoronando”. Por trás dessa globalização estava o pressuposto de um mundo pacífico, voltado apenas para a dimensão dos lucros e da eficiência econômica. Todos os países viveriam em paz, os mercados triunfariam sobre as antigas rivalidades dos Estados Nacionais e assim, viveríamos num mundo feliz para sempre!  

Pelo menos foi assim que nos “venderam esse peixe”. O que não nos disseram é que por trás dessa máquina econômica estava o poder incontrastável do complexo industrial e militar dos EUA. A “Pax” americana garantiria o desenrolar desse mundo harmônico dominado pela economia a partir de 1990.

É esse mundo liberal globalizado que está ruindo com a pandemia do Coronavírus e a guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Mas que já estava com seus alicerces abalados desde a crise financeira de 2008, a ascensão da China e o rearmamento da Rússia.

Na pandemia, inúmeros países ficaram na dependência da China e dos EUA. Máscaras, vacinas, medicamentos, respiradores, indispensáveis para o enfrentamento da maior crise sanitária em 100 anos, são produzidos em pouquíssimos países que, por óbvio, priorizaram proteger suas populações. Qualquer cidadão do mundo passou a valer menos que um americano. Ou um brasileiro passou a valer menos que um chinês.

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia joga a pá de cal na globalização, insistentemente vendida como “harmoniosa” pelas grandes empresas, bancos e países que dela se beneficiaram.

Daqui para frente nenhum país confiará mais no outro. Se os EUA, controlando a moeda mais forte, podem bloquear 300 bilhões de dólares da Rússia em reservas cambiais, porque a China seguirá confiando em deixar seus 3 trilhões de dólares em títulos e moeda americana? É verdade que os EUA já bloquearam reservas do Irã, da Venezuela e do Afeganistão. Mas agora resolveram bloquear as reservas da segunda maior potência nuclear e bélica do mundo. A Alemanha não confia na Rússia. Essa, por sua vez, não confia nos EUA e na União Europeia. E por aí vai.

Se ocorrer uma nova pandemia, porque o Brasil não vai se preparar para produzir as vacinas e respiradores em território nacional? Escolherá continuar sua dependência da China, EUA e Europa para essa produção?

Entramos na era da “desglobalização”. As cadeias globais de produção serão encurtadas regionalmente ou nacionalizadas, mesmo que os custos de produção cresçam. Os preços dos bens e serviços subirão, pois diminuirão as vantagens de produzir explorando operários chineses, asiáticos e mundo afora. A segurança nacional virá na frente da eficiência econômica.

E o Brasil nesse “novo mundo”?

Não é razoável que nossas lideranças econômicas e políticas não enxerguem os desafios que estão na nossa cara. É fundamental repensar a inserção econômica do Brasil na economia mundial. Se já era necessário repensar nossa trajetória antes dessas crises, agora virou questão de sobrevivência.

A reindustrialização é imperativa para o país diminuir sua dependência de outros países. A segurança energética também é decisiva nessa quadra histórica. Como segurança energética, leia-se, a preservação da Petrobras e da Eletrobras como empresas da sociedade e do Estado brasileiro. O desmonte da Embrapa coloca em risco a segurança alimentar do Brasil. Reverter as privatizações e o desmonte do Estado são questões estratégicas e de segurança nacional.

É para ontem a construção e execução de um novo projeto nacional de desenvolvimento que seja capaz de enfrentar os desafios históricos que estão colocados. Um paralelo histórico pode ser lembrado. Na segunda guerra mundial, o Brasil foi capaz de instalar a maior indústria dos países do hemisfério sul, negociando os interesses nacionais com as potências econômicas dominantes, EUA, Europa e Japão.

Mais uma vez estamos diante de eventos desafiadores, daqueles que mudam a história do mundo e de um país. Resta saber se teremos capacidade de construir consensos para enxergá-los e enfrentá-los em nome dos interesses da maioria da população brasileira.