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O drama da inflação para o trabalhador e para a população de baixa renda

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A inflação, diz a teoria econômica hegemônica, é um fenômeno monetário.

Isso porque a elevação persistente dos preços diminui o poder de compra da moeda ou do dinheiro.
Não é difícil entender isso. Se o preço de qualquer produto sobe em um determinado período, por exemplo, se o preço do feijão sobe de um ano para o outro, uma mesma nota de R$ 100 comprará menos feijão no ano seguinte do que comprou no ano anterior. Assim a moeda, no ano seguinte, valerá menos em termos de feijão. O mesmo raciocínio do feijão vale para um conjunto de bens e serviços que são consumidos pela população de um país.

Por definição, a inflação caracteriza-se por uma elevação contínua da maior parte dos preços de produtos, bens e serviços. Existe inflação quando sobe o preço do feijão, sobe o preço do arroz, sobe o preço da geladeira, sobe o preço do carro, sobe o valor do serviço cobrado pela manicure, pelo eletricista, pelo encanador e por aí vai. Quando a maioria dos preços sobem continuamente no tempo, aí é que a inflação mostra suas garras.

Essa é a parte visível da estória. Há, contudo, várias outras dimensões da inflação que devem ser entendidas.

Por que os preços sobem? A explicação usual dos manuais de economia diz que sobem porque há mais demanda do que oferta. Ou seja, as pessoas querem comprar um bem ou um serviço em uma quantidade superior à oferta daquele bem ou serviço.

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Nem sempre a demanda é maior que a oferta porque as pessoas estão gastando muito. Especialmente em um país como o Brasil que passa por dificuldades, com alto desemprego, precarização do trabalho, endividamento das famílias e baixo crescimento econômico. Muitas vezes a oferta se retrai por vários motivos e, mesmo uma fraca demanda pressiona os preços para cima porque a oferta é escassa.

Vamos a um exemplo: a demanda também pode ser maior que a oferta se essa cair, por quebra de safra agrícola ou por crise internacional que reduza a oferta do petróleo e eleve seu preço. Mesmo uma demanda anêmica, diante de uma oferta escassa, pode produzir inflação.

Outra dimensão importante da inflação é o poder monopolista e/ou oligopolista de grandes empresas. Mesmo quando a demanda não cresce, a inflação pode subir porque as empresas elevaram seus preços para recuperar suas margens de lucro. Grandes empresas que controlam o mercado tem o poder de subir preços, mesmo quando a demanda é fraca. Um bom exemplo, no Brasil, são as empresas de telecomunicações, de telefonia celular. Três grandes empresas dominam o mercado (CLARO, TIM e VIVO) e formam seus preços a partir desse poder oligopolista.

Não há um diagnóstico simples para o fenômeno inflacionário. Outros preços importantes da economia, os salários, a taxa de câmbio e a taxa de juros também influenciam a inflação.

Se a nossa moeda, o Real, se desvaloriza frente ao dólar, muitos produtos encarecem. Ou porque são produtos importados, ou porque são produtos exportados e os exportadores preferem vender no exterior e só aceitam vender aqui no Brasil se os preços forem iguais aos vendidos lá fora.

Se os salários de um determinado setor crescem, as empresas tentarão elevar os preços dos produtos que vendem para manter ou ampliar suas margens de lucro.

Se as taxas de juros sobem, as empresas tentarão elevar seus preços para enfrentarem dívidas financeiras que estão crescendo.

A inflação, como podemos notar, é um fenômeno econômico complexo, que têm múltiplas causas e cujo enfrentamento não é simples.

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Para concluir é importante destacar que a inflação tem forte influência no processo de transferência de renda na economia de um país. A elevação dos preços pode ser comparada a uma corrida no atletismo. Uns chegarão na frente dos outros. Os que ficarem para trás terão sua renda comprometida.

Nessa corrida podem perder os trabalhadores, podem perder as empresas, os exportadores, ou os produtores agrícolas. Não se trata, contudo, de uma corrida entre iguais. Na disputa econômica, uns são mais fortes do que outros. As grandes empresas têm mais poder que as pequenas. Os bancos são sempre muito poderosos. O agronegócio exportador tem força para preservar seus ganhos. Nessa corrida, o povão e os trabalhadores têm mais dificuldade de se defender do processo inflacionário.

Nessa disputa pela renda, as famílias de renda alta são capazes de minimizar suas perdas para a inflação. Isso porque elas podem aplicar suas sobras de renda em títulos que rendem juros e protegem seu patrimônio.

No entanto, em um país como o Brasil, com enorme desigualdade social, a maioria da população trabalhadora vive com orçamento familiar apertado, que não permite fazer aplicações financeiras nos bancos. Sua renda é gasta quase inteiramente em alimentos, habitação e transporte. Não sobra nada para poupar e se proteger da inflação.

E quando um país enfrenta uma inflação como a atual, com forte elevação dos preços dos alimentos essenciais, dos derivados de petróleo, especialmente do gás, e também da energia elétrica, o preço (sem trocadilho) pago pelo povão e pela maioria de nossa população, em termos de qualidade de vida, é muito alto. Socialmente essa é a pior forma de inflação, que coloca em risco a própria sobrevivência das pessoas.