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Neoliberalismo: produção e gerência do sofrimento

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O psicanalista Christian Dunker fala em evento do Instituto Lavoro sobre a mudança de mentalidade e subjetividade na era do neoliberalismo.

O psicanalista Christian Dunker fala em evento do Instituto Lavoro sobre a mudança de mentalidade e subjetividade na era do neoliberalismo.

Segundo o psicanalista Christian Dunker, o neoliberalismo não é somente uma forma de pensar a economia ou a política. É também, primordialmente, uma forma de pensar. A forma neoliberal de pensar faz a gerência do sofrimento dos indivíduos atualmente. Os sintomas sociais decorrentes, são o adoecimento das pessoas.

O psicanalista discorreu sobre o sofrimento. Afirmou que ele envolve três traços sociais importantes:

  • Ele se dá no interior de uma narrativa (algo que articula presente, passado e expectativa de futuro);
  • É covariante, varia no mesmo sentido, da forma em que é reconhecido (existe de acordo com as narrativas de sofrimento aceitáveis socialmente);
  • Sua transitividade (ele é coletivizado, compartilhado, contagioso).

Antes, depois e agora

O liberalismo clássico, de acordo com Dunker, era constituído sobre a premissa de que era necessário proteger o trabalhador do sofrimento. Esse preceito não era um valor puramente moral. O liberalismo derivou para o estado de bem-estar social para que o trabalhador fosse produtivo e rentável.

Em 1973, o liberalismo foi transformado. No ano da ascensão da Escola de Chicago, no Chile, e do ápice dos condomínios no Brasil, houve a sistematização das doenças psiquiátricas. Com esse advento, sobreveio outra política para lidar com o sofrimento. A crueldade dos novos tempos, o momento do neoliberalismo, trazem a lógica da produção quantificável e qualificável do sofrimento para, novamente, aumentar a produtividade e o lucro.

Variáveis como o medo de perder o emprego, o incentivo à competitividade, entre outras, são um estímulo à paranoia. E são feitos gerencialmente, ensinados em manuais de administração e marketing.

Desde 1973, uma ou duas gerações já estão formadas sob esse espectro de pensamento predominante. Essas novas gerações foram educadas para entender-se como uma empresa em todos os aspectos do pensamento. São pessoas que não se formam ou estudam, mas investem em si mesmas. Esta é uma nova relação com o saber, e é advinda da mentalidade neoliberal.

Assim como a relação com o saber, as relações amorosas seguem o mesmo rumo. Amor e desejo estão organizadas como empresa assim, o objeto do amor e do desejo pode ser “demitido” caso não cumpram as expectativas. A mesma coisa com o trabalho, se o trabalhador se pensa como empresa, ele deixa de ser funcionário, vira colaborador. Dessa forma, age como se as relações de trabalho fossem ações entre empresas associadas, sem se dar conta da enorme desigualdade nessa relação.

As consequências mentais do neoliberalismo

Dunker responsabiliza essa mentalidade pela depressão. Contraditoriamente, a depressão é o transtorno mais “prejudicial” aos nossos tempos. Durante a depressão, a pessoa não produz e não consome, por isso é considerado o pior mal da atualidade. A sensação de que todos são demissíveis, descartáveis e substituíveis gera essa fuga psíquica.

O Brasil acompanhou a transição dessa política de cálculo do sofrimento. A primeira geração de nativos digitais do País é comparável a primeira geração que teve contato com a radioatividade. Os efeitos da nova mentalidade, assim como no uso da tecnologia da radiação não eram conhecidos, e a humanidade só soube da sua gravidade depois do estrago causado.

Aqui, um exemplo importante da expressão da nova forma de pensar pode ser observado no uso da linguagem. Atualmente, deixou-se de privilegiar a expressão verbal em detrimento da escrita. Porém, um novo tipo de escrita, cujas novas temporalidades – deixar de responder ou responder o tempo todo – são a marca.

A crise de adoecimento mental e sofrimento psiquico é mundial. A maneira de trabalhar mudou e está cobrando um preço das pessoas. Por mais que a observação do fenômeno seja passível de verificação, falta um discurso que diga que isso tem que parar. Ser proibido jurídica e politicamente.

A humanidade, assim como o indivíduo, tem dois ativos passíveis de venda no capitalismo neoliberal: sua força de trabalho e o seu potencial de sofrimento.

Seminário

Com palestrantes de cinco países -Itália, França, Estados Unidos, Espanha e Brasil – o IV Seminário Internacional do Instituto Lavoro começou nesta quinta-feira (21) e segue até hoje (22), em São Paulo. O evento tem como eixo de reflexão “a tomada de consciência sobre a era do totalitarismo neoliberal” e, este ano, o tema em debate é “o futuro do trabalho e o trabalho do futuro”.

Os palestrantes italianos Gianni Arrigo – advogado e professor de Direito do Trabalho da Faculdade de Economia na Universidade de Bari, Itália, e Federico Martelloni, professor Associado em Direito do Trabalho na Universidade de Bolonha, membro da Coalizão Cívica e conselheiro comunal da cidade de Bolonha, participaram da primeira mesa.

Ainda ontem, Cyril Wolmark (Diretor do Mestrado em Direito Social e Co-Diretor do IRERP da Universidade Paris Nanterre) e Tatiana Sachs (professora da Université Paris Nanterre, Doutora em Direito Privado e Ciências Criminais pela Université Paris Nanterre e Mestre em Direito do Trabalho pela Université Paris I Panthéon-Sorbonne) participaram da segunda mesa.