Pular para o conteúdo principal

Negociações mais difíceis e ganhos reais menores nos últimos anos, diz técnica do Dieese sobre bancários

Imagem
Arquivo de Imagem
reajuste salarial dos bancários em relação à inflação ao longo dos governos

A impressão que a vida dos trabalhadores vinha piorando ao longo dos anos foi confirmada ontem (9) depois da corretora Tullet Prebon Brasil divulgar uma pesquisa que mostra que sob Bolsonaro, pela primeira vez desde o início do Plano Real, em 1994, o salário mínimo perdeu poder de compra.

Isso significa que neste último ano, o reajuste do salário mínimo foi menor do que a inflação do período. Algo que bancários e bancárias - principalmente os mais velhos - conhecem bem pois foi a partir do governo Lula, em 2003, que a categoria conseguiu garantir reajustes com aumento real de salário.

"Antes dos governos petistas era muito difícil os bancários conseguirem ganho real. Em diversos anos houve abono para compensar os reajustes", disse ao Reconta Aí Vivian Machado, mestra em economia e técnica do Dieese da subseção Contraf-CUT. Ela conta que foi a partir de 2004 que começou um período longo de ganho real, mas que nos últimos anos "as negociações têm sido mais difíceis, os ganhos reais caíram e o abono reapareceu".

Para Machado, o problema do abono é ser transitório: "O reajuste salarial vai impactar em todos os encargos e até na aposentadoria. O abono vem, mas não compõe o salário, é apenas um adicional recebido em um momento, que não ficará no salário do trabalhador posteriormente", explicou.

Abonos salariais nas negociações desde 2003

Segundo dados da subseção da Contraf-CUT, os últimos abonos salariais recebidos pela categoria foram:

  • 2004: além do reajuste, foi concedido um adicional fixo de R$ 30 para quem ganhava até R$ 1.500;
  • 2005: além do reajuste, foi concedido um abono de R$ 1.700;
  • 2008: o reajuste foi escalonado por faixa salarial. Para quem ganhava até R$ 2.500, o reajuste foi de 10%.
    Acima disso, o reajuste foi de 8,15%. No gráfico, considerou-se o reajuste de 10%, pois contemplou a maior parte dos bancários;
  • 2015: além do reajuste, o vale-refeição e as cestas-alimentação tiveram reajuste de 14%;
  • 2016: além do reajuste, o vale-refeição teve reajuste de 15% e o auxílio-creche teve reajuste de 10% . Foi concedido um abono de R$ 3.500,00;
  • 2020, além do reajuste, foi pago um abono de R$ 2.000.

A diferença destes abonos para os dos anos anteriores é que foram dados em conjunto com reajustes no salário e em benefícios. Por exemplo, em 2016, por causa da alta dos preços dos alimentos a inflação subiu e além do reajuste de salário e do abono, houve reajuste no vale-refeição e auxílio-creche.

As dificuldades no último período

Segundo Machado, os bancários vêm enfrentando uma dificuldade de negociação com os patrões nesse último período. E o motivo não é só a agenda anti-trabalhadores expressa em reformas como a trabalhista e a previdenciária. "O governo dificulta as negociações porque ele controla os Bancos Públicos. Então é mais difícil para os bancários conquistarem os reajustes".

Bolsonaro controla a Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil por meio das indicações de presidentes para as instituições. No caso do governo atual, Pedro Guimarães - presidente da Caixa - e Fausto de Andrade Ribeiro - presidente do Banco do Brasil - levam a cabo a política ultraliberal do ministro da Economia Paulo Guedes. Política que inclui a desregulamentação das leis trabalhistas e a privatização das estatais. Além disso, os dois Bancos Públicos fazem parte das cinco maiores instituições financeiras do Brasil e tem um grande peso nas decisões relacionadas à categoria.

Outro fator importante, segundo a economista, foi o fim da política de aumento real do salário mínimo no governo Bolsonaro. "A política de valorização do salário mínimo teve um impacto na economia como um todo, diminuindo a desigualdade e elevando os menores rendimentos em geral", afirmou.