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A Negação da Política e as Forças Descontroladas

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card artigo Mauricio Falavigna

Quando a verdade é fraca demais para se defender, ela precisa partir para o ataque.
(Brecht, A vida de Galileu)

Com a pauta da anticorrupção, o jornalismo desconstruiu a imagem da política e dos políticos. Difundiu a noção de Estado-empresa, alardeando o privatismo e o Estado mínimo como opções racionais, contemporâneas e irrefutáveis. Foi minando a imagem de pessoas públicas e da própria política como arena de debate. O espaço político, na medida em que a grande mídia adotou o enfoque único nos escândalos de corrupção, verdadeiros ou forjados, foi esvaziado e associado a um campo de não-cidadania.

Como previu Sennet já na década de 70, esse declínio do homem público cedeu espaço para as discussões dos espaços privados, moralmente encarados como superiores e, nas duas últimas décadas, como o espaço das políticas possíveis, até mesmo substituindo lentamente as pautas progressistas que se postavam contra o mercado e o sistema capitalista como um todo.

Ao mesmo tempo, o comando da política econômica foi algo vendido ao público como “técnico”, distante das questões sociais e explicitamente pró-mercado: os interesses do setor financeiro, das grandes corporações, enfim, do capital, se tornaram os único legítimos, alterando leis consolidadas e transformando o mundo do trabalho. Qualquer posição contrária foi tomada como “ideológica” e, assim sendo, eivada de irracionalismos.

Tudo o que era político tomou vergonha de sê-lo, a política virou o reino do teatro dos não-políticos. Após o golpe jurídico, midiático e militar de 2016, assistimos ao decréscimo da participação eleitoral (abstenções aumentaram em média 30% nas últimas eleições) e vimos personagens “não-políticos” assumirem a cena: religiosos, radialistas, promotores, policiais, presidentes de clubes, militares e empresários promoveram a maior renovação do Legislativo desde a redemocratização, alcançaram governos e presidência.

Mas alguns problemas dividiram as forças sociais que engendraram 2016.

O instrumento do Golpe, a Lava Jato, propiciou que Ministério Público e juízes agissem politicamente, à margem da Constituição. A ilegitimidade das instituições possou a ser clara (e denunciada) para o cenário político brasileiro e internacional. A necessidade (até econômica) de estabilidade e previsibilidade da vida pública passou a ser a grande pauta da mídia e do Judiciário, transformado agora em ator político ativo.

Outra reação de oposição ao governo se deu a partir de 2018. Se a condução da política econômica ultraliberal não desagradou nenhum setor golpista e tampouco à elite do País, tivemos que conviver com o combate pelos “verdadeiros valores da Nação”, levado a cabo por uma minoria abertamente fascista que assaltou o poder. Associando as pautas raciais, de orientação sexual e de gênero à decadência moral, esse grupo desagradou boa parte da elite, criou um clima de guerra e angariou mais setores para a oposição. Houve uma exigência por restabelecimentos institucionais e democráticos segmentados na questão dos costumes. Quanto à mudança de rumos da política econômica, isso continua fora de questão. Se o reacionarismo moral atrapalha os propósitos neoliberais, que seja extirpado.

De qualquer forma, desde a libertação de Lula e a anulação de sentenças da Lava Jato, criou-se uma expectativa de normalidade, de retomada das engrenagens democráticas. Sempre com dois espectros rondando esse retorno: a mídia, que continua a censurar todo partido ou liderança que ameace os rumos econômicos atuais; e o Judiciário, que amplia a cada dia seu papel político e interfere nos outros Poderes como um salvador da legalidade.

Nos últimos dias vimos que a resistência conservadora não quer abrir mão do poder alcançado. Qualquer restabelecimento terá um caminho pedregoso pela frente. Se já há uma parte do empresariado e dos políticos tradicionais ansiando por um retorno, forças golpistas descontroladas podem ser vistas com as pretensas candidaturas de próceres dos crimes da Lava Jato.

A mídia faz todo o esforço para recuperar a imagem da Força Tarefa e de seus incensados heróis. Militares saúdam essas candidaturas como a possibilidade de se manterem no aparato estatal. E o Ministério Público, até mesmo sob a espada da legalidade (do Judiciário), precisa salvaguardar sua ação política e seu projeto de poder. Se houve um momento irreconciliável entre forças do Golpe, esta é a oportunidade de arregimentar todos novamente. Ou quase todos. Pode haver um afastamento dos fascistas mais ruidosos, que querem preservar pautas morais olavistas. Mas a maioria pretende manter benesses e rendimentos. E Moro já provou seu valor neste cenário.

De qualquer forma, todas as vertentes que se aglutinarão em torno da possível candidatura, embora pareçam antagônicas no discurso público, rejeitam a política democrática. Negam as vozes dissonantes. E já mostraram que podem conviver muito bem com o vezo autoritário. Não acreditam nos “valores brasileiros” infantis do bolsonarismo, mas na “técnica” que suprime o debate público e cala os interesses de trabalhadores e excluídos. Virão com a sua verdade, tal qual tratores, atropelando fatos e vozes que os contrariem.

Essa deslegitimação da política deverá prosseguir, sufocando qualquer conflito de interesses públicos e inviabilizando uma retomada institucional. É uma reação que terá de ser enfrentada pelos que ainda estão imersos na política, mas parece que, mais uma vez, as soluções irão depender – como tem sido – de ações do STF. O que também nos distancia mais uma vez do jogo democrático. E cria novos perigos.