Reconta Aí Atualiza Aí Natal na Era Bolsonaro – as festas entre a peste, a fome e a pobreza

Natal na Era Bolsonaro – as festas entre a peste, a fome e a pobreza

Para isso fomos feitos
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra

(Poema de Natal, Vinícius de Moraes)

A publicidade é incessante, luzes e ternura envolvem o ambiente por detrás de janelas de casas diretamente transplantadas dos Estados Unidos. A alegria e as expectativas familiares se regalam em shoppings que traduzem a felicidade definitiva. No Natal, a explosão do consumo tenta se unir aos bons sentimentos, até mesmo à sensação de que os desafortunados devem ser amparados.

O presidente prometeu um 13º para os beneficiários do Bolsa Família. Fala vazia, já que sequer houve previsão orçamentária ou vontade política de realizar esse gasto. Não haverá o prometido 13º; os auxílios emergenciais já foram suspensos ou reduzidos, a renda das classes mais pobres diminuirá drasticamente. O Natal será de fome.

As crianças – a publicidade tem um profundo amor pelas crianças… No Natal, esse esforço de cuidar dos pequenos, de preferência dos mais rosados e bem vestidos, mostra a responsabilidade dos adultos sendo recompensada: os brinquedos alegram tanto os sorrisos infantis como o coração dos adultos.

Enquanto isso, quem cuida da formação das crianças…

Em portaria assinada pelo Executivo, o reajuste salarial dos professores no ano de 2021 foi simplesmente cortado. Houve uma redução de 8,7% no custo anual por aluno do Fundeb. A formação das crianças, já quase anulada pela pandemia e pelo ensino à distância, não é uma prioridade. Muito menos o incentivo a quem cuida dessas crianças. Professores, já esfolados pela carga de trabalho, por normas de distanciamento e pelo desemprego provocado pela suspensão das aulas, terão o Natal e as Festas para aprenderem a viver com ainda menos. O Natal é de desalento.

Mas ainda há as comidas, a ceia ideal, o desafogo anual da classe média. As imagens nas telas dos celulares, computadores e tevês lembram a toda hora os excessos prometidos durante o ano: a mesa farta e a geladeira cheia, as quantidades e as exceções que esses dias permitem.

Não bastasse as contas exorbitantes do gás e da luz (quando há luz), economistas já calculam uma 16º correção no índice de inflação anual, de 3,45% para 3,54%. Os alimentos lideram a alta, como todos percebem a cada dia nas feiras e mercados. A classe média mais abonada também se privará daqueles importados que as torna superior aos vizinhos, pois o preço do dólar chegou ao nível da ameaça que a mídia mais gosta de repetir: “se o PT ganhar a eleição…”. O Natal será embriagante e ruidoso, com espumantes nacionais de segunda linha, choro e ranger de dentes.

Ao menos os feriados serão prolongados, a época é de folga e lazer. Afinal, bufar de cansaço e perder o dia suando em corredores de shoppings e nas ruas lotadas de centros comerciais é mais prazeroso do que bater ponto, cumprir com as obrigações do trabalho, entregar suas tarefas no prazo exigido pelos patrões…

O mais provável é que os cidadãos suem as camisas em filas de emprego, buscando ocupações até mesmo temporárias em troca de salários diminutos. A taxa de desemprego chegou a 14,6% no terceiro trimestre do ano, maior índice registrado na série histórica do IBGE iniciada em 2012. São mais de 14 milhões de pessoas sem emprego. Não estamos contando o desalento e as pessoas exploradas em subempregos. O Natal é de humilhação, tristeza e desespero para o trabalhador.

Por fim, para não esquecermos da pandemia, está claro que as eleições e a necessidade de explorar o consumo até a última gota dominaram as mídias e as administrações municipais, que não se arriscarão a um novo lockdown. Mais do que celebração de nascimento, as Boas Festas da Era Bolsonaro aumentarão os números da pandemia – o Natal da peste e da morte.
Como diz o poema de Vinicius, estamos cavando a terra.

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