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Moro x Lula: o Dilema da Mídia

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Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos. Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais”.

O Globo, 2 de abril de 1964

Se agregarmos juízes a “bravos militares” e substituirmos “manobras presidenciais” por “pesquisas”, teríamos a base dos editoriais e colunas de opinião dos principais veículos da mídia atual nesta semana.

A teimosia popular em manter Lula como o nome preferido para as eleições de 2022 parece suscitar a busca de todos os recursos para manter o golpe que levou os predadores ao poder. Manter a política econômica, o desmantelamento do Estado, os interesses do agronegócio, o rentismo e as benesses para os eternos privilegiados, como militares e membros do Judiciário.

Como nenhum dos nomes projetados alçou voo, as alternativas para manter as aparências democráticas foram se esvanecendo. O ex-juiz é a última opção encontrada. Mas, para isso, não bastaria a continuidade da demonização do PT e de Lula. Seria preciso reeditar o conluio que levou a Lava Jato a destruir o País. Com todos os cidadãos minimamente bem informados sabendo o que foi a Força Tarefa, seria possível os mesmos veículos – e seus jornalistas mais influentes – voltarem a simplesmente a mentir, desinformar, criar boatos que se tornam fatos investigados, voltar à ficção com a cara lavada? A carga de cinismo seria ainda maior do que a habitual.

Em 1954, os Diários Associados, os grandes jornais paulistas, o jornal O Globo e a maior parte das rádios cercaram o governo eleito e seu presidente. A investigação sobre o atentado da rua Tonelero foi guiado pela imprensa, que ultrapassou os aparatos policiais e judiciais para derrubar Getúlio. Os interesses norte-americanos, a elite conservadora nacional e a mídia coordenaram pela primeira vez uma perseguição política onde fatos, investigação policial e o ordenamento legal pouco importavam. Uma opinião pública foi construída para o golpe. O suicídio frustrou esses planos.

Dez anos depois, João Goulart não conseguiu escapar. Mais uma vez a participação ianque se fez presente, os militares seguiram a retórica anticomunista, setores da elite inconformados com as reformas de base espernearam e a mídia cumpriu o papel de inflamar, construir opiniões fantasiosas junto à opinião pública (o perigo comunista), cercar e participar ativamente do golpe e da ditadura instalada. A pesquisa de Dreifuss, mostrou a ação do GOP, Grupo de Opinião Pública ligado ao IPES, que era formado por jornalistas e publicitários, muitos deles nomes ilustres. Alguns posaram de heróis da resistência democrática nos estertores da ditadura, mas Juremir Machado atualizou suas reputações em nova pesquisa sobre o que chamou de golpe midiático-civil-militar.

Tendemos a acusar cada grande veículo em particular de atos medonhos isolados. No fundo, foram todos emprestaram carros para tortura. Foram todos os conglomerados que se locupletaram na “ditabranda”. Todos apontaram o dedo para “radicais” e festejaram o aborto do “comunismo”. Todos apagaram os nomes ou publicaram fichas falsas de resistentes que sobreviveram. Todos defenderam interesses estrangeiros, nababos nativos, golpistas e torturadores. Todos vibraram com a acumulação de renda por poucos, a naturalização da desigualdade, as medidas de força, o rompimento democrático.

Mais tarde, na chamada redemocratização, golpes midiáticos interferiram diretamente nas eleições e na deposição do primeiro presidente eleito. No impeachment de Collor, no entanto, liberados pelos patrões, jornalistas tiveram autorização para agir com independência. A CPI se tornou extremamente dependente desse trabalho. Na Lava Jato, deu-se o oposto. Os procuradores dirigiram o processo, ditaram matérias e textos, jamais foram questionados. A extrema concentração do controle da mídia por poucas famílias permitiu a elaboração de uma peça teatral. Aquários e redações se tornaram uníssonos. Todos sabiam da farsa da Força Tarefa, dos desvios constitucionais e até mesmo das limitações intelectuais dos “Intocáveis”, mas seguiram adiante. Foi preciso o material de um hacker vir à tona para dar materialidade ao que todos conheciam, e libertar muitos do jugo de uma obrigação: alimentar o antipetismo, justificar a prisão de Lula e a farsa das eleições de 2018. Mas o golpe já havia se concretizado.

Nesta semana, a mais poderosa emissora do País voltou seus holofotes para promover o ex-juiz e agora o seu vice, um general. Todos os veículos a acompanharam. Ao mesmo tempo, uma fala de Lula foi editada, cortada e descontextualizada para apresentá-lo como uma ameaça à democracia. Jornalistas renomados em cada um dos maiores meios se dedicaram a denunciar o candidato petista como alguém, no mínimo, não muito apegado à democracia. Cuba e Nicarágua não saíram das falas e colunas de analistas políticos. Mesmo sabendo que a fala foi manipulada. Mesmo acusando Ortega de fazer o que Moro fez por aqui. Mesmo sabendo que, se tivéssemos uma normalidade institucional e um Judiciário confiável, o atual presidente e o ex-juiz já estariam condenados e talvez até presos pelos crimes cometidos.

O dilema dos jornalistas não é real. A tradição de nossa mídia corporativa não reserva espaço para maiores surpresas. A democratização dos meios de comunicação hoje não é mais um tema que pode ou não surgir em programas de governo. Ela é a primeira condição para qualquer retomada democrática e institucional. Nossa vida política segue apenas os clamores dessa “opinião pública” unívoca e elitista. A concentração dos meios legitima a ditadura dos faraós embalsamados, que não deram o golpe para largar o poder de mão beijada.

Um veículo menor, tido como “independente”, que já apoiou Bolsonaro e jamais abandonou Moro e o lavajatismo (curiosamente muito utilizado e divulgado na CPI da Covid por senadores considerados progressistas), anunciou em manchete que, “sem Bolsonaro e sem Lula, Moro é o candidato favorito”. Poderia soar como anedota, mas foi uma convocatória. Impedir a candidatura de Lula deve ser visto como uma opção razoável.

Se houver uma bolsa de apostas, podem cravar que a maior parte dos jornalistas apertará as narinas e ressuscitará o espírito "glorioso" da Lava Jato. E, se preciso, incitará todo e qualquer golpe de força que alije uma liderança popular da disputa.

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