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Favelas e comunidades serão as vítimas do Covid-19

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Imagem do site Recontaai.com.br

Apesar de trazido ao Brasil pelas classes mais altas, o Covid-19 pode fazer mais vítimas nas favelas e comunidades

Favelas e comunidades não têm água e nem cômodos suficientes para isolar os doentes. Foto: Renata Vilela. Jardim Ângela, São Paulo, SP.

Depois de chegar ao Brasil de avião, no corpo de pessoas que estiveram na Europa, o coronavírus se estabeleceu no Brasil. Primeiro, no seio das classes mais altas, que viajaram ao velho mundo. Depois, na contaminação dos amigos e parentes. E, pela relação com ranços escravocratas, contaminaram também empregadas domésticas.

E foi das classes mais pobres: empregadas, porteiros e outros profissionais que lidam com os ricos, mas que não têm acesso à mesma saúde, que vieram as primeiras vítimas fatais.

Favelas e comunidades: falta água, falta habitação, falta tudo

Nem um mês depois dos primeiros casos anunciados no País, já começou a haver a transmissão comunitária da epidemia. Ou seja, já não era mais necessário ter contato com viajantes para se contaminar. O vírus já estava disseminado no País.

Nesse momento, a crônica falta de água em favelas e comunidades das maiores cidades do Brasil ficou em evidência: como lavar as mãos, se não sai água das torneiras?

Moradores do Rio de Janeiro e Distrito Federal mostraram torneiras secas e também casas com poucos cômodos e muita gente. Um problema histórico, que segundo estudo de 2019 da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), atinge ao menos 8 milhões de pessoas.

O que fazer?

Foto: Renata Vilela. Morro do Vidigal, Rio de Janeiro, RJ.

Sem poder contar com o poder público (que apesar da celeridade para deter o coronavírus, negligencia faz anos as comunidades carentes), a população está se organizando.

Preto Zezé é presidente da Central Única das Favelas Global (Cufa Global), que está presente em 26 estados e no Distrito Federal. Segundo ele, toda a Cufa “está com a rede focada no combate ao vírus, na campanha #CufaContraOVírus que atende os mais vulneráveis: mulheres, idosos e mães solo.”

Ele explica que toda a campanha é baseada “no empoderamento da favela, na formação de lideranças e articulação de agendas positivas nos territórios”. Para tanto, a Cufa se organiza junto à iniciativa privada, organismos internacionais e, principalmente, na força da comunidade.

“A favela já vive sem saneamento, coleta de lixo, sem qualidade de serviços públicos. Mas ela é que está pagando a conta da quarentena, de quem pode guardar dinheiro e estocar comida”, ressalta. E isso se refere ao fato de que na favela estão os que trabalham em aplicativos, o que limpam as cidades, os frentistas e informais, os que não têm direito “de parar”.

Por isso, a Cufa está trabalhando como nunca para barrar os efeitos da pandemia nas favelas e comunidades de todo o Brasil. Lançaram um documento com 14 propostas para empresas e governos se engajarem na geração de renda; porém, ainda não foram anunciadas as adesões.

Além de chamar à responsabilidade os que mais lucram com a pobreza no Brasil, criaram outras ações. Um centro de distribuição nacional, que organiza alimentos e produtos de limpeza e conta com mais de 100 mil voluntários.

Também organizaram o vale-mãe, um voucher que contempla as trabalhadoras cujo trabalho do cuidado com os outros não é remunerado. São R$ 120 para atender mulheres que cuidam sozinhas de dependentes, sejam crianças, pessoas com deficiência ou idosos.

A contrapartida que esperam do governo, segundo Zezé, é a ajuda com equipamentos de proteção, financiamento de materiais, fornecimento de um canal para mobilização que transmita informação a todos os territórios.

Jardim São Luiz se organiza para resistir ao Covid-19

Andre Cristi, jornalista, morador e ativista do Jardim São Luiz, bairro periférico na Zona Sul de São Paulo, traz o relato da experiência que a comunidade desenvolveu para lidar com a chegada da pandemia.

“Aqui no Jardim São Luiz, periferia da zona sul de São Paulo, o novo coronavírus chegou primeiro na família do funcionário de uma multinacional corretora de valores. Já era possível perceber como seria quando a pandemia chegasse de vez: junto do infectado, moram 11 pessoas.

Na terça-feira, 24 de março, em que o período de quarentena se iniciava oficialmente, o bairro amanheceu mobilizado contra a doença. Alguns comércios ainda abertos, mas as ruas vazias. À noite, nos grupos de WhatsApp do bairro, circulavam filmagens do panelaço no Jardim São Luiz. Ativistas da velha guarda desacreditaram. Talvez o primeiro panelaço desde o movimento de mulheres contra a carestia, nascido no bairro em 1978.

Desde a semana passada, no entanto, comércios completamente secundários reabriram a todo vapor: sapatarias, lojas de utensílios para celular, comércio de som automotivo e até o jogo do bicho. Na última quarta-feira (1), a maior feira livre do bairro estava em ritmo de temporada. Foi o incentivo presidencial para voltar à normalidade, foi a ausência de qualquer política pública para os pequenos comerciantes da periferia.

Enquanto isso, fundações e organizações sociais e políticas do bairro colocavam suas vaquinhas na rede para arrecadar cestas básicas. A realidade que saiu dessas campanhas é brutal: a arrecadação funcionou, o dinheiro está disponível, mas simplesmente não há logística para impedir a fome. Falta quem faça o transporte, quem embale, quem higienize, quem entregue, onde guardar os mantimentos, quem entre em contato com os moradores. 

Sem auxílio do poder público, essas organizações (como Bloco do Beco e Fundação Julita) permanecem na linha de frente do combate à fome, a base puramente da solidariedade e da disposição. Milhares de vidas dependem delas.