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Mil Dias de Livre Mercado: Atraso, Morte e Pobreza

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card artigo Mauricio Falavigna

...todo o mundo acreditava nisso e aguardava o dia da cólera que provocaria, evidentemente, o tumulto e a destruição de todas as coisas visíveis.

(Georges Duby, O Ano 1000)

A mente humana prega peças, esse é um lugar comum. Expandimos o sentido de palavras e imagens, aliando-as aos nossos medos e desejos. O número mil é um exemplo de simbolismo desarrazoado, mas com a força de uma coluna que alicerça nosso imaginário. O mil é a totalidade da vivência nunca alcançada, ou que não pode ser ultrapassada, o marco que gera um círculo perfeito ou o fim de uma temporalidade.

A sobrevivência de Sherazade inicia-se na aposta de uma noite a mais, garantia de romper a finitude do tempo do qual não era senhora. Nas Escrituras, um símbolo de vivência avançada. Matusalém viveu 969 anos, morrendo pouco antes do Dilúvio, pois não poderia ver tudo, presenciar o círculo completo. A marca de mil é ainda mais poética nos escritos corânicos, onde Matusalém vive “mil anos menos cinquenta”, indicando que a totalidade é inalcançável. Os milenarismos se sucederam desde o ano 1000, no aguardo do final (ou reparo divino) dos tempos.

A cada marca de mil, um ciclo é descrito é avaliado, inevitavelmente. Neste momento toda a mídia (e o próprio governo, de maneira constrangida e constrangedora) dedica-se ao balanço de mil dias de Bolsonaro. E fica claro que não há nada no Executivo que justifique um balanço. Talvez um anedotário, mas não há atuação que dê conta da coisa pública. Pelo contrário, há um declarado desprezo pela coisa pública e pela própria máquina administrativa, que se busca desmantelar de vez, inclusive com a reforma administrativa que hoje tramita no Congresso.

Não são mil dias de Bolsonaro. São mil dias de Guedes, dos especuladores, dos rentistas, do agronegócio. São mil dias de liberdade, segundo o conceito liberal levado a ferro e fogo pelo ex-assessor de Pinochet, com o aval do Mercado, esse Ser Supremo, e o complexo midiático, Sua voz terrena.

Essa liberdade arrastou mais 2 milhões de famílias para a miséria. Hoje mais de 40 milhões de brasileiros estão na extrema pobreza. 20 milhões passam fome. O desenvolvimento foi solapado: indústrias abandonaram o País levando seus empregos (e a renda e o consumo familiares), pequenas empresas fecharam as portas, a agricultura familiar (nossa maior produtora de alimentos) ficou sem crédito, os estoques reguladores foram extintos, as grandes propriedades se expandem de maneira criminosa (e voltam a usar trabalho escravo, sem penalidades), o setor de serviços – maior empregador do País – hoje opera com empregos informais. 30 milhões de brasileiros vivem com apenas um salário mínimo.

As metas da inflação e de crescimento são um desastre visível. Entre agosto de 2020 e agosto de 2021, o IPCA acumulado foi de 9,68%. Só neste ano, até agosto, a inflação oficial cresceu 5,67%. Quando o governo se iniciou, a cotação do dólar era de R$ 3,87. Hoje está por volta de R$ 5,34. A moeda brasileira teve o 6º pior desempenho frente ao dólar, uma desvalorização de 22,4%. Algo que, mais uma vez, é um dos fatores a pressionar a inflação, mas beneficia os exportadores de commodities. Ao sabor do livre mercado, a inflação disparou, a produção interna retroagiu, os empregos sumiram e o desespero social dividiu a sociedade. Há os poucos que fazem três ou mais refeições ao dia e há a imensa maioria, que luta para ganhar o dia.

Ainda sob o signo do anti-intervencionismo estatal, a política de paridade com o preço de importações fez disparar os preços dos combustíveis, o que atende aos interesses dos acionistas. Na ânsia de concretizar privatizações, uma ausência de planejamento e o descaso na manutenção só beneficia as distribuidoras privadas de água e energia, e pressionam ainda mais os preços, a parca renda familiar e a possibilidade de sobrevivência. Estamos sob o risco iminente de apagões e racionamento de água. Mas devemos manter a fé na autorregulação do mercado.

A questão ambiental viu a legislação desprezada e seu complexo de fiscalização sucateado, privilegiando madeireiros, grileiros, fazendeiros, mineradores e gente que empreende, que faz, que demonstra seus méritos a ferro, à bala e a fogo.

O morticínio gerado pelo papel do governo no combate à Covid também contou com o abandono do Estado e, como mostrou a CPI corrente, privilégio concedidos a empresários na compra de vacinas, elaboração de prescrições médicas, produção e compra de medicamentos e insumos, chegando ao ponto de se instalar um gabinete privado, fora do aparato governamental, para resolver problemas de gestão.

Por sorte não foi um ciclo fechado. São mil dias, mas não simbolicamente. Como diz a tradição islâmica, "mil menos cinquenta". Nada e ninguém completa um ciclo de realização ou destruição. “Menos cinquenta” é a nossa salvaguarda. Ou a milésima-primeira noite. Basta uma semente esquecida e a destruição total não se completa. E ainda temos memória e esperança. Memória de um tempo de crescimento, de luta por justiça social, de respeito a um povo e a um país. Esperança de que ele volte. E que acabe, enfim, o tempo de liberdade dos animais predadores.