Pular para o conteúdo principal

A Luta pela Memória e a Morte do Bolsa Família

Imagem
Arquivo de Imagem
card artigo Mauricio Falavigna

O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente. O materialista histórico sabe disso.

(Walter Benjamin, Sobre o Conceito de História)

Era uma luta contra a fome e a miséria. Os elementos de barbárie, desumanizadores. Combater a miséria era o foco da transformação social. Se havia um componente moral, residia na antítese entre o mal palpável, a pobreza extrema, e a humanização do brasileiro.

O programa possuía uma perspectiva de mudança contínua, econômica e social. Articulava uma série de políticas públicas, em seu bojo se carregava a ideia de mudança de paradigma. O sucesso do Bolsa Família e do Fome Zero foi reconhecido e copiado mundialmente, incorporado até mesmo por governos liberais que se curvaram à exigência de programas de transferência de renda.

Com intenções tão transparentes e execução tão bem sucedida, a cada avanço social registrado só restava à classe dominante extravasar a sua moralidade, desprezando fatos e ganhos concretos, mensuráveis. Estamos criando a cultura do dar, dar, dar. Ou ainda, mais circunspectos, é um artificialismo que cria uma dependência do Estado, associando Mercado à Natureza. Em última instância, se apelava para o comportamento selvagem dos dominados: as pessoas gastam o Bolsa Família no bar, em pinga… Pequenos ganhos de autonomia da massa que sempre esteve ali para servir despertaram o pavor nos senhores seculares.

As tentativas deste governo em minar a tradição criada – que não era a da doação benevolente, mas da ampliação do acesso à civilização – foi passando por diversos projetos alternativos. Auxílio emergencial, 13o salário, reformulação do Cadastro Único… Em agosto, a MP 1061 finalmente extirpou o Bolsa Família, em função de um Auxílio renomeado, ainda sem clareza de valores, extensão e fontes. Mas era urgente liquidar a memória de um governo e de uma postura que foram exceções em nossa trajetória. Calar um nome e assentar uma marca em novos princípios.

Com o indefectível apoio midiático, as principais questões se tornaram a sustentabilidade (dentro do teto de gastos definido e incensado) e a sazonalidade. É uma situação emergencial, nem endêmica e nem histórica. Não se trata de corrigir anomalias ou combater desigualdade: o propósito é amainar o desastre social (certamente provocado pela pandemia, não pelo sistema), movimentar alguns indicadores da economia em curto prazo, deixar claro o seu caráter provisório (uma esmola emergencial, um cala boca) e, principalmente, transformar o programa em uma vantagem eleitoral – e isso sequer é disfarçado.

Basta lembrar do slogan do Auxílio Emergencial, “O Governo Federal continua estendendo a mão para milhões de brasileiros”. Funcionou por um curto período, limitado pelo desastre econômico. Foi corroído pelo aumento do desemprego, pelo achatamento da renda, pela insegurança alimentar programada, pela destruição de todo um conjunto de políticas sociais, pela inflação, mas trouxe uma curta recuperação do governo nas pesquisas. Busca-se agora, nervosamente, mais uma sobrevida.

Não é a intenção aqui explorar as possibilidades de fracasso do novo programa. A aceleração da inflação e o desabastecimento, apagões energéticos e crise de combustíveis são alguns fatores que irão entrar em cena, mas aqui são secundários. A redução do alcance de famílias com direito ao Auxílio também pode pesar no cálculo eleitoral. Mas a ideia aqui é ressaltar a transformação do combate à miséria e à fome em uma disciplina da pobreza. Se o objetivo durante os governos anteriores de Lula e Dilma era o combate à pobreza, a saída do Mapa da Fome, a retomada do desenvolvimento e o acesso a benesses civilizatórias (educação, saúde, habitação, saneamento, cultura), a intenção deste governo é mitigar críticas, abafar gritos, esticar seu tempo de vida e “acalmar pobres” por uns meses, institucionalizando a massa de excluídos, recolocando-a em seu lugar, onde sempre esteve e deve ficar.

Considerando que o objetivo é essencialmente eleitoral, também é preciso apagar memórias, símbolos de uma outra política e de uma outra vida. Essa aflição constante que se faz presente e aumentará o tom no próximo ano terá que se confrontar com a invocação constante da memória recente.

Curioso lembrar o uso da imagem de Mito, e até mesmo do nome do meio do atual presidente, Messias. Foi a pregação da destruição de todo um mundo e seus valores que sustentou o apego de uma parcela da população ao seu nome. A destruição do aparato estatal e de políticas públicas ganhou, em nosso período, um reforço imagético e um discurso apropriado para simbolizar uma era ultraliberal, onde o Mercado restabelecia seus direitos e a tradição de estamentos sociais imobilizados, de “meritocracia”. A exploração econômica selvagem seria a regra histórica, quase divina. E, por ironia, do outro lado, o messianismo também abriu suas veias e poderá ser utilizado à larga.

Para enfrentar as elites, será inevitável uma candidatura popular apelar para a memória coletiva de um tempo recente, ressaltar feitos de sucesso e os valores que os dirigiram, comparar condições materiais de vida e possibilidades de futuro. E o que também será inevitável: todas as imagens desse passado estarão atreladas a um nome, um símbolo do próprio brasileiro pobre, expropriado desde o nascimento até sua morte. Um nome que carrega as falas e os entendimentos da maioria silenciosa, a teimosia e o orgulho escondidos, que ultrapassa espectros ideológicos e posições partidárias, vinculando a tradição da pobreza à luta pela transformação e pela justiça social.

Benjamin dizia que, em cada época, “é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo”. E orienta o historiador guiado pelo materialismo histórico a despertar, arrancar da massa bruta do passado quaisquer centelhas de esperança. Pois “também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”.

Neste embate, o conselho ao historiador pode ser o mesmo a todos os engajados em derrotar o inimigo. A consciência de ser a parte dominada da sociedade, a lucidez sobre o sistema de exploração, a certeza da transformação desejada terão de caminhar lado a lado com o apelo a imagens que, necessariamente, não precisarão vir da ordem consciente. Ativar a memória e amarrá-la à felicidade, ao conforto e à autoestima serão armas essenciais para desconstruir a muralha das classes dominantes. Afinal, temos do que nos lembrar. E, em nosso sebastianismo latente, tão patético quanto humano, temos uma imagem de redenção viva e encarnada.

É preciso derrotar o inimigo. Para isso, precisaremos resgatar o ar que um dia respiramos. E a voz que tentaram emudecer.

LEIA TAMBÉM:
- PEC cria condições para mercado paralelo de precatórios, diz advogado
- Governo estuda prorrogar auxílio emergencial