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A luta contra a corrupção é o horror político

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card artigo Mauricio Falavigna

Corruptiōnem, corruptio, em latim “quebrar aos pedaços”, estragar, deteriorar. Busca oferecer ou prometer vantagem indevida a qualquer pessoa, para incitá-lo a praticar, omitir ou retardar ato ex officio, segundo o Código Penal. No senso comum, suborno ou oferta de vantagem indevida. Indevida por prejudicar outros ou toda uma coletividade. Malgrado a criminalização, é tida como uma falha moral que pode ser encontrada nas esferas privada e pública, e inclusive tornar-se hábito ou comportamento pessoal ou social.

Esse componente moral, uma característica de costumes, que Aristóteles considera pertencente “a todo mundo sublunar”, vem sendo utilizado para sufocar o debate político no Brasil. É preciso lembrar que o sistema de livre mercado sob o qual vivemos pressupõe um bom uso da dissimulação, a valorização do sucesso pessoal, a glamourização da esperteza no tocante à sobrevivência e até ao enriquecimento, sem falar em um complexo de ideias veiculadas como positivas – individualismo, empreendedorismo, meritocracia. No entanto, esses valores são desvinculados da estrutura moral que condena a “corrupção”, que nem mesmo define a conceituação do termo, deixando ao bel prazer da mídia efetuar condenações públicas. Um exemplo caro a esse relativismo é a sonegação de impostos, crime não só relacionado à corrupção como, muitas vezes, praticado de maneira contumaz pelas próprias empresas de comunicação.

No atual cenário de um neoliberalismo selvagem que se reforça tardiamente no Brasil, a lei do mais forte, a manutenção dos privilégios e a conquista de um lugar no topo são bem vistos. Selva é o grito de ordem e o ambiente mais comum, com a competição sendo estimulada a se desenvolver sem as amarras da lei e do Estado. E, como frisa Luhmann, “o político moralmente ideal pode ser eticamente superior, mas é incapaz de fazer política”. Essa é a visão disseminada pela mídia que afasta a atividade política de qualquer conceito de superioridade ou importância junto às massas, imprimindo um caráter negativo e reducionista que asfixia o debate sobre… política.

Chegamos a um ponto em que os principais dilemas para o nosso futuro são desprezados em função dos escândalos sobre moralidade. Direitos trabalhistas e garantias sociais foram exterminados legalmente, enquanto a justificativa era a de que “pelo menos afastamos a corrupção”. O desemprego bate recordes enquanto a mídia tenta salvaguardar o que restou da Lava Jato, a pantomima jurídica criada pela Globo para criminalizar um partido e a maior liderança popular brasileira. O país volta ao Mapa da Fome enquanto se comemora os lucros do agronegócio, mas as rachadinhas são o crime desta presidência. As tarifas de luz, o preço do gás e da gasolina são majorados e essas notícias são veiculadas como frentes frias que vêm do Sul, e não relacionadas às privatizações em curso. Os holofotes recaem sobre a corrupção na Saúde investigada de dia na CPI, e se apagam na votação noturna pela privatização da Eletrobras.

A política não é política para a opinião pública, ao menos enquanto não envolva a questão da corrupção. Esta é a chancela com que já se justificou mais de um golpe na democracia, tentou se criminalizar um partido e se forjar heróis e vilões midiáticos. Quaisquer visões de país que esses personagens carreguem são elipsadas. As verdadeiras pautas de construção e mudança nacionais são excluídas do debate público. E, indo além, a própria atividade política é diminuída e recoberta por uma nuvem de desconfiança moral.

E eis os riscos da esquerda, alijada da grande mídia e com poucos recursos para se fazer ouvir, quando ela se apropria das práticas, discursos, palavras de ordem e temários da mídia para ganhar espaço junto à opinião pública. À medida em que avança nesse campo, ela é pautada pelo seu inimigo. Rachadinhas e falcatruas na compra de vacinas servirão para derrubar o presidente, mas escondem o fato de que toda esta gestão resumiu-se a um grande balcão de negócios. Mais do que isso, releva as relações entre esta gestão e o sistema econômico e político que ela defende e vem implantando sem empecilhos.

A grita contra a corrupção pode derrubar um mito forjado na catarse, que se ligou emocionalmente ao que há de pior em nossa cultura e em nossa história acumulada, ao que há de mais mesquinho e vil em todas as classes sociais. Mas esse clamor moralista não oferece riscos ao sistema que nos oprime. Não contribui com a compreensão da realidade que nos mata. Não acrescenta uma reflexão ou lição a ser apreendida para o nosso desenvolvimento. E amplia a rejeição à classe política e à política em si, como assunto cotidiano essencial para a vivência cidadã. Prolonga o horror político e o caos em que estamos imersos. Não esperem maior participação eleitoral no próximo pleito se o debate concentrar-se, como é o plano de quem realmente ocupa o poder, na discussão moral sobre corrupção. Essa obsessão tira dos agentes políticos o espaço para a exposição de ideias de gestão, de ação, de futuro. E tira da população o chão da realidade que a afeta todos os dias. Não há uma luta entre o Bem e o Mal, mas sim entre os que têm e os que não têm. Lutar contra a corrupção pode ser uma forma de não combater o sistema.