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Lava Jato, Ucrânia e a Mídia - a infantilização da política

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Vivemos recentemente uma grande fraude jornalística, agora devidamente esclarecida, mas sem possibilidade de restabelecimento total da justiça. Crimes da mídia jamais são julgados, mesmo quando trazem resultados hediondos.

A Lava Jato foi uma farsa que produziu prisões injustas e arbitrárias, um prejuízo econômico de (no mínimo) R$ 326 bilhões, gerou desindustrialização e desemprego, conspurcou um processo eleitoral, entregou segredos e patrimônio nacionais aos norte-americanos e, por fim, como um enorme tsunami moralista, levou um grupo fascista ao poder. Muitos atores se uniram na empreitada de uma realidade paralela, de agências dos EUA ao nosso Judiciário. Mas o sucesso político dependia da construção de uma opinião pública majoritária – e para tanto, o protagonismo foi dos meios de comunicação.

Muitos já denunciavam a fraude gigantesca, mas foi o trabalho de um hacker (não jornalístico) que forneceu a comprovação material de tudo o que envolvidos, seus advogados e a militância de esquerda gritavam no vácuo. Montou-se um gabinete do ódio para derrubar um governo, criminalizar um partido e a principal liderança popular do País. O conluio entre jornalistas e procuradores fabricava as notícias falsas diárias, escândalos simulados eram usados para chantagear os acusados, membros do Judiciário que erguiam a voz contra as ilegalidades da Lava Jato eram “cancelados” pela opinião pública. O oleoduto de dólares por trás da voz grave de Bonner se mesclava a capas bombásticas da Veja e criavam um ambiente de unanimidade.

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Profissionais da mídia se despojaram de qualquer responsabilidade ou senso ético, uniram-se ao aquário dos editores para aperfeiçoar o colaboracionismo com os interesses dos proprietários. Jornalistas que se encontravam no limiar do esquecimento foram ressuscitados, carreiristas ganharam espaço rapidamente – bastava repetir a senha do engajamento. Qualquer noção crítica foi superada no caminho do sucesso.

A adesão do público foi conquistada por paródias de novelas ou desenhos infantis. Um nome fantasia, músicas dramáticas, imagens de abertura (o oleoduto lembrava a primeira versão de Pecado Capital), palavras-chaves como propina, corrupção, quadrilha, assalto… Como nas fábulas e desenhos infantis, criou-se um núcleo de mocinhos (Força Tarefa), um herói principal e o grupo de bandidos (um partido) e seu líder.

Era fácil de entender a trama. Fácil para comprar a opinião pública. Analistas políticos e acadêmicos chamados para a “depor” nos telejornais não tinham qualquer réstia de espaço para sequer uma divergência, dando autoridade à versão golpista. Para os menos infantilizados e mais compenetrados, apelava-se para a moral infalível do Grande Juiz, o Mercado. Assim, com uma realidade paralela criada, dominou-se o palco e a plateia.

Com as revelações posteriores, era de se esperar uma desmoralização, um mea-culpa, uma mudança de postura. Pois bem. O conflito atual na Europa fez reviver todos os procedimentos anteriores, com um roteiro ainda mais simplório. Os interessados são os mesmos, com pressão ainda mais forte do bom amigo americano.

O nascedouro da guerra não merece qualquer análise: a história é jogada fora, os interesses múltiplos de grandes potências não existem. Um urso sanguinário invadiu uma terra de beatitude. Quaisquer fatos, imagens ou depoimentos que contradigam esse roteiro são excluídos. Professores especialistas em geopolítica são cortados ao vivo se saírem do script. Um descrição incansável de personalidades, de estilos e de imagens (muitas vezes falseadas) criam a identificação com o lado bom do conflito. Denúncias de ligações profundas do governo com neonazistas ou de armas químicas e biológicas são tratadas como irrelevantes, exageradas ou simplesmente fake news. Termos como milícias, escudos humanos, censura e coquetel Molotov foram ressignificados positivamente.

Assim como o presidente da Venezuela, que parece não ser mais o intrépido Guaidó. Em dois momentos cruciais – um para o Brasil e outro para todo o mundo, que parece realocar seus polos de influência – voltamos a ter uma visão da realidade que busca a infantilização e a conquista pela catarse coletiva. O Mercado voltou como grande comentarista e hoje pode justificar qualquer desastre do governo atual com a guerra (e o grande inimigo).

No final de 2014 (auge da famigerada Lava Jato), os seis principais jornais impressos tinham, somados, uma tiragem de mais de um milhão de exemplares. Em 2020 esse número caiu em quase 70%. E o crescimento digital foi mínimo, não reequilibrou essa queda vertiginosa. A reação à cobertura do conflito parece gerar muita insatisfação nas redes (não há outro espaço disponível), há mais vozes dissonantes e notícias do evento sendo resgatada de outras mídias internacionais.

Nada se aprendeu. Mais uma vez os interesses dos principais grupos econômicos não encontram resistência na atividade jornalística. Mais uma vez tenta-se criar uma realidade paralela e fechada moralmente entre o bem e o mal. Enquanto gritam que o Ocidente (no qual alguns nos inserem, sem grande motivos civilizatórios) há liberdade de imprensa, temos a impressão de que um Kim Jong-un saído de uma anedota (pois o Ocidente sempre só nos mostrou uma caricatura) edita todos os noticiários com sua vocação de cineasta. Mesmo que alguns ganhem dinheiro e espaço, talvez o que realmente prevaleça, seguindo a tendência dos últimos anos, seja o enterro da credibilidade da mídia nacional.