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Juros baixos e fundos de pensão

Opina Aí

Sérgio Mendonça*

Esse artigo pretende iniciar o debate sobre o impacto na economia brasileira e nas entidades fechadas de previdência complementar (EFPC), ou fundos de pensão, de um possível longo ciclo de taxa básica real de juros muito baixa ou até negativa. 

Para atingir suas metas atuariais será necessário rever suas estratégias de investimento e aplicações, deixando o conforto das aplicações em renda fixa e títulos públicos e ampliando sua parcela de recursos em aplicações de renda variável, ações, títulos de empresas privadas e, espera-se, investimentos produtivos.

Ainda que seja óbvio e lógico que os fundos de pensão tenham que mudar a estratégia de investimento, a longa convivência com taxas de juros básicas muito altas acomodou as instituições nas aplicações de baixo risco e alto retorno. Como diz o ditado, “o uso do cachimbo faz a boca torta”! Haverá muita resistência das direções das entidades em migrar os investimentos para a economia real, ampliando as carteiras com aplicações de maior risco. E o recente ataque da Operação Greenfield aos investimentos em fundos de investimentos e participações (FIP) alimenta esse receio.

Para o país, contudo, esse caminho poderá viabilizar a retomada do crescimento econômico. Diversas instituições e pesquisadores apontam a necessidade de elevação da taxa de investimento em 5% do PIB nos próximos anos para que o país cresça, renove sua infraestrutura e aumente a produtividade da economia. Será necessário elevar a taxa de investimentos de 15% (atual) para, no mínimo, 20% do PIB.

Os fundos de pensão possuem um patrimônio de aproximadamente 13% do PIB, cerca de um trilhão de reais, e têm 62% dos investimentos aplicados em títulos públicos ou de renda fixa. 

Em um desejável cenário futuro de juros baixos, serão desafiados a diversificar seus investimentos. As EFPC são instituições estratégicas para o necessário esforço de ampliar o investimento de médio e longo prazo em infraestrutura e de capitalização das empresas sediadas no Brasil. E o investimento produtivo de longo prazo poderá assegurar o retorno esperado para o pagamento das aposentadorias e pensões dos participantes desse fundo. A queda da taxa básica de juros pode ser o “empurrão” que falta para esse novo ciclo! 

Para terminar, cabe registrar que “nem tudo serão flores”. O cenário de um longo ciclo de taxas de juros baixas não está assegurado no Brasil. A taxa SELIC, que permaneceu em 2% nos últimos oito meses (agosto/2020 a março/2021), voltou a subir e já está em 3,5% ao ano. As projeções do Banco Central (COPOM) e do mercado financeiro apontam para uma SELIC próxima de 5% ao ano em 2021. Mesmo assim, descontada a inflação, atual e esperada, ainda será uma taxa real baixa comparada à trajetória recente. As razões para a elevação da taxa básica em ambiente de baixo crescimento e de demanda agregada contida são controversas. Não se pode ignorar, entretanto, o poder de fogo do mercado financeiro interno e externo nessa nova rodada de elevação da taxa básica de juros.

*Economista, diretor do Reconta Aí, ex-diretor técnico do Dieese

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