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Juros baixos, dólar alto e seu pãozinho mais caro

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Imagem do site Recontaai.com.br

A cotação do dólarsuperou nesta quinta-feira (5) o patamar de R$ 4,60. Foi a 12ª altaconsecutiva na moeda dos EUA. O dólar para turismo chegou a níveispróximos de R$ 5,00.

As razões para asúltimas movimentações ascendentes do dólar têm sido divididas emdois eixos. O primeiro seria um movimento especulativo de agentes demercado para testar os limites da atuação do Banco Central. Nestahipótese, agentes financeiros pretendem detectar em que nível oórgão passará a intervir de forma mais contundente e direta nasvariações cambiais.

Em segundo lugar, arecente redução da taxa básica de juros, combinada à projeçãode que haverá uma nova queda na próxima decisão do Banco Central,tem levado investidores a procurarem mercados mais vantajosos, queexigem a conversão para dólar para investimentos.

Fausto Augusto,diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas eEstudos Socioeconômicos (Dieese), afirma que ainda não há clarezasobre em que patamar a taxa de câmbio irá se estabilizar, mas, dequalquer forma, a vida cotidiana será impactada.

“O que a gente está observando é que está ficando cada vez mais claro é que o dólar vai girar em torno de R$ 4,50 para cima”, diz.

Ele explica que o impacto da alta do dólar atinge três categorias de produtos. O primeiro é o bem produzido inteiramente no exterior e importado. O efeito da alta nessa categoria tende a ser rápida.

“Tudo que tem a ver com importados, que vai desde perfume, material eletrônico – celular, televisão – peças de máquinas, tudo isso tem elevação de preço. É quase que inevitável o repasse para os preços”, diz.

Um segundo nível diz respeito a bens que são produzidos aqui, mas com parcelas importadas. “Você também tem elevação nos preços de insumos de produtos diversos. A farinha é o exemplo mais tradicional. Vai mudar o preço do pão, do bolo, do macarrão. Nós ainda temos medicamentos, equipamentos que se utilizam de partes importadas”.

Para completar o café da manhã, o dólar também interfere no preço de commodities – produtos que servem de matéria-prima – produzidas no Brasil, e que também atendem ao mercado externo.

“Elevou o volume de compra de carne pela China, aumentou aqui. Isso é muito comum. O que pode acontecer? Elevação do preço do café, que é cotado internacionalmente. Se aumenta a cotação em dólar, a tendência é esse aumento voltar para cá. O etanol, a gente já está vendo uma alta nos postos. A usina pode escolher álcool ou açúcar, quando o câmbio está favorável, ela escolhe produzir açúcar para exportação”, explica.

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Juros e inflação

Guilherme Melo, professor de Economia da Unicamp, explica que uma das possíveis causas para a alta do dólar – a queda na taxa básica de juros – normalmente vista como benéfica para a economia, não necessariamente ocorreu por conta de uma causa positiva no Brasil.

“O fato da economia estar em depressão permitiu uma redução da taxa de juros. A taxa de juros baixa é uma consequência da depressão, por um lado; e, do outro, do cenário internacional muito ruim, em que todo mundo está baixando, permitindo que a gente baixe também”, indica.

“Essa taxa de juros mais baixa, que parece muito positiva, foi por motivos ruins. Bom seria uma taxa de juros baixa com economia crescendo. Com economia mundial estabilizando. A gente conquistou isso por motivos errados”.

Segundo Mello, essaqueda levou a uma “transferência da riqueza financeira,historicamente concentrada em títulos públicos de curto prazo”, oque reforçaria a ideia de que houve uma procura de dólares porconta desse fenômeno.

Com o dólar subindoe, provavelmente, os preços também, podemos esperar um incrementona inflação? “Não necessariamente”, responde Fausto Augusto.

“Mesmo com uma elevação de dólar, não necessariamente a inflação sairá do controle. A renda não cresce. Uma coisa é o preço dos produtos, outra coisa é o poder de compra. E o governo entende ser possível controlar a inflação com uma alta taxa de desemprego”, expõe ele, já que as altas taxas de desocupação representam um empecilho para que os preços disparem de forma explosiva.