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Jacarezinho É Outro País

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Imagem do site Recontaai.com.br


“Isso é como se estivéssemos combatendo em um país inimigo”.
Gal. Mourão, vice-presidente da República

O primeiro mito: o noticiário reflete a realidade, o fato não contém parcialidade ou interpretação que o deforme. Segundo mito: a função da mídia é questionar o poder. Se houver desvios da ordem institucional, manobra individual ou coletiva que se afaste do interesse público, deverá ser exposto pela imprensa. Desta forma, teríamos assegurados o direito à informação e o conhecimento da realidade. E, silenciosamente, entendemos a normalidade do mundo.

Vamos ao que sabemos e, como só temos a mediação dos grandes meios de comunicação, usaremos a experiência e a imaginação. Primeira parte da notícia: em operação policial na comunidade do Jacarezinho, três policiais foram feridos (um viria a falecer), além de mais dois cidadãos feridos em um vagão de metrô por um tiro misterioso. Bem mais tarde, a segunda parte da notícia: 24 “criminosos mortos”. Comunicado oficial da polícia: operação planejada por dez meses, em função de denúncias sobre aliciamento de menores pelo crime organizado. O comunicado oficial fez questão de garantir que os mortos eram criminosos, sem exceção. Os nomes não foram revelados.

Informação adicional, dada apenas em poucos canais: as operações policiais em favelas do Rio de Janeiro estavam suspensas pelo STF, e precisariam de autorização judicial que não foi requisitada.

Circulamos no dia de ontem por diversos canais televisivos. A informação adicional acima raramente foi fornecida. Bandidos e policiais eram os personagens, sem nuances. O direito de invasão por parte da polícia não foi questionado. Nos veículos considerados mais sérios, a notícia foi se transformando a partir das preocupações de entidades internacionais de Direitos Humanos. Algumas dúvidas sobre a legitimidade da ação foram levantadas, sempre a partir do viés da violência policial, se foi legítima ou não.

Então vamos ao que não foi nem será falado. Polícias, pastores e milícias, além da classe média baixa que acompanha o “datenismo” nos sofás e contempla o mundo-faroeste a partir de seus parâmetros morais, que lhes fornecem padrões imediatos em preto e branco, aplaudiram a violência planejada. Sim, planejada foi apenas a violência, sem qualquer esforço perdido na sua justificativa. É o público ainda fiel à imagem de um governo que está ameaçado, talvez em seus estertores. O apelo aos valores genocidas são o suspiro de um grupo dirigente na mira de uma CPI que, sem dúvida, apresenta-se como o caminho para descartar um erro eleitoral.

A realidade não expressa nos noticiários levanta hipóteses. Em geral, nos casos de chacinas fardadas, sabemos que a polícia abre espaço para milícias assumirem o controle do tráfico, de serviços ilegais e do crime organizado nas comunidades. Mas o peso excessivo, a gratuidade do massacre, a arrogância nos comunicados, os ataques ao “pessoal dos direitos humanos” e a fala do vice-presidente Mourão erguem outro cenário. Não havia suspeitos ou alvos predeterminados, apenas a intenção do confronto e os assassinatos como objetivo final. É mais que provável que as vidas foram ceifadas pela repercussão. Como um ato político, um manifesto ou atentado.

Os fatos mais visíveis e incompreensivelmente não narrados são os mesmo de sempre. Em um espaço onde o Estado não se faz presente na educação, na saúde, no saneamento básico, na urbanização, na integração ao mundo oficial, faz-se presente na repressão policial. A segurança pública parte do princípio de que pobres são uma ameaça recorrente, são corpos marginalizados e descartáveis, que precisam ser explorados na vida e na morte. Enquanto respiram e andam, são mão de obra escrava. Mortos, rendem sorrisos da elite e a satisfação raivosa de cidadãos comuns, daqueles que anotam suas dificuldades na conta dos indesejáveis, jamais levam o boleto ao andar de cima. Assassinados, garantem votos e alívio coletivo para a sociedade da qual não fazem parte. Não são cidadãos nem em projetos. Uma massa disforme com vítimas e criminosos, jamais seres humanos reconhecíveis como tais. Como disse Mourão, são “um país inimigo”.

É para explicitar esse domínio que este governo foi eleito. E, no prolongamento de sua agonia, veremos outros manifestos pela sua continuidade no poder. A tragédia de Jacarezinho pode se repetir com o avanço do cerceamento do presidente. Em outras palavras, pareceu uma declaração: “se continuarem nos ameaçando, vai morrer mais gente”. Aliás, o atual presidente avisou reiteradas vezes que não cairia sem atirar. É esse cenário que surge como hipótese mais palpável. Mas saberemos melhor por poucos representantes da imprensa alternativa e de meios internacionais.

De qualquer forma, apenas Jacarezinho chorará por seus mortos. Eles também não fazem parte do grupo social que deseja tirar o genocida do poder. A grande mídia e boa parte da sociedade não podem identificar-se com o país inimigo. Seria traição à Pátria.