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Inventário das Ausências - O que não estará no relatório da CPI

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card artigo Mauricio Falavigna

Estamos chegando ao término dos trabalhos da CPI da Covid, que atraíram a atenção de boa parte do País. Já sabemos – e há muito – que tanto as teses do negacionismo militante quanto a mais grave, da indiferença a um genocídio premeditado, proliferaram nos corações e mentes daqueles que deveriam cuidar da sociedade durante a pandemia. O que não deveria ser surpresa alguma para um governo que cultua a morte lenta do desemprego, da retirada de direitos, do abandono e da miséria. Uma gestão que despreza e destrói todas as políticas sociais e de amparo ao trabalhador e aos mais pobres em favor de especuladores e poucos grandes empresários do agronegócio.

No entanto, como essa postura genocida não constitui um crime real, pelo contrário, é quase um atestado de contemporaneidade, foi preciso descobrir o que também era óbvio: os mugidos anticientíficos e irracionais podiam partir do rebanho, mas os boiadeiros jamais acreditaram nisso, já que o único motor de suas ações é o lucro. Quando passou-se a investigar quem ganhava dinheiro produzindo desinformação, fabricando e negociando remédios ineficazes de prevenção, negando vacinas aprovadas para fazer negócios mais lucrativos, a CPI chegou a crimes mais compreensíveis, palpáveis. Afinal, é sempre o dinheiro.

Porém, para além dos crimes denunciáveis – e entenda-se por isso não a legislação, mas a capacidade de causarem impacto moral a partir da mídia – há conclusões a que esta CPI não pode chegar. Todas negociatas levantadas pela investigação trouxeram à tona o envolvimento de duas categorias incensadas eticamente pelos formadores de opinião e, por que não, pelo senso comum.

Um dos argumentos utilizados à rodo pelos setores conservadores da sociedade, moldando o imaginário das classes populares, era a aura de honestidade, seriedade e competência da Forças Armadas. Eram, na crença corrente e desmemoriada de boa parte da sociedade, valores intrínsecos à formação de um militar, por menos que essa fé seja minimamente justificável após uma Ditadura de duas décadas onde começaram rasgando a Constituição, prosseguiram cometendo todos os tipos de crime contra indivíduos, grupos sociais e erário, e terminaram sem julgamento.

Ainda assim, há a aura. E, no entanto, a CPI deu a entender que anos de formação na selva só servem para preparar um soldado para a rapina. Que qualquer senso patriótico, tão declamado, deve estar ligado a outras bandeiras. Que, para além do latente entreguismo, da subserviência aos interesses externos e do desprezo ao papel constitucional das Armas, o grande interesse é pelo enriquecimento fácil, pelos acúmulo de cargos e salários, pelas oportunidades de açambarcar a máquina pública para a realização de negócios escusos.

A outra classe “profissional” exposta nas apurações é a dos empreendedores. Empresários, negociantes. Gente do mercado. Lobistas, intermediários, investidores, todos os envolvidos que desfilaram pela Comissão possuem cartão pessoal de CEO, diplomas de administração e experiência em grandes empresas. Gente que chegou até lá por mérito e que cumpre à risca as regras de um ambiente onde a competitividade faz com que os mais fortes e espertos se estabeleçam. Como deve ser. Gente moderna e em voga, que encara qualquer habitat como um mundo a ser desbravado, explorado e saqueado para se produzir e acumular riquezas.

Na verdade, o maior mérito da CPI da Covid (jamais citado na mídia) foi mostrar como funciona o aparelho estatal quando é entregue às mãos da iniciativa privada. A ética, a lisura e a eficiência da iniciativa privada são tão folclóricas quanto à honestidade e à seriedade dos militares. O Brasil possuía o sistema de vacinação mais elogiado do mundo. O Ministério da Saúde possuía a prática de negociar e adquirir as vacinas necessárias para a população.

O Governo Federal se eximiu da coordenação do combate à pandemia, passou a regular a distribuição de vacinas conforme seus gostos políticos e tentou abrir a aquisição de doses a intermediários. Privilegiou a “eficiência militar” em detrimento do conhecimento acumulado pelo setor público e seus funcionários. Privilegiou o negócio, e não a ação estatal para combater uma tragédia. Mas como exigir essa conclusão clara se 90% da Comissão Parlamentar debate os desmandos à tarde e, pela noite, votam por privatizações, aprovam desregulamentações em setores essenciais, diminuem o papel e o tamanho do Estado e de suas responsabilidades?

Pior que isso, como os formadores de opinião podem fazer essa clara correlação se, em seus noticiários e comentários, aprovam as intenções da política econômica deste governo e os ideais empreendedores, competitivos e neoliberais que permeiam as ações de um Guedes, mas também de um Pazuello?

Ainda haveria um terceiro elemento a se destacar na investigação dos escândalos revelados pela CPI, que é o verniz evangélico que recobre muitos dos atos e personagens envolvidos. Mas esse é um assunto proibido, já que encontra guarida tanto nos parlamentares governistas quanto de oposição. Essa é outra pandemia, não combatida, que um dia precisará de muito mais do que uma CPI para exibir seus estragos.