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A Integração Regional na América Latina – Conversa com Antonio Prado

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A semana que se passou trouxe o pré-lançamento da chapa petista e uma série de entrevistas e aparições públicas de Lula. As reações da mídia foram claras: a procura e imediata denúncia de qualquer colocação que escape do pensamento dominante e seja passível de críticas. Dessa forma, recorta-se apenas o que interessa, o que saia do escopo do pensamento único – destacou-se a “culpa ucraniana e da OTAN”, críticas aos EUA, legalização do aborto, frases soltas que poderiam atiçar ânimos contrários de minorias e movimentos sociais – e deixou-se de fora qualquer conteúdo que poderia delinear um futuro governo.

Mas uma das críticas mais presentes, que partiu também da mídia independente e analistas progressistas, referiu-se à falta de detalhamento de uma política econômica. Ao mesmo tempo, todos os indícios que mostravam novos rumos para a economia nacional e estiveram presentes nos discursos do candidato foram calados. E a maior insistência de Lula em suas falas, a integração regional latino-americana, foi subtraída de qualquer noticiário ou análise publicada.

Conversamos com Antonio Prado, professor e economista, ex-DIEESE, ex-Secretário-Executivo Adjunto do CEPAL, entre outras atividades, e que fez parte da campanha em 2002, coordenando a área de “Melhores Empregos”. Ele não acha imprescindível a apresentação de um programa econômico completo, disse que sequer é habitual, e dá seus motivos: “Na minha visão, o que um programa econômico na campanha deve apresentar são linhas gerais, sem detalhamento, até porque muita coisa passará por negociações em Congresso. Na verdade é muito precipitado fazer isso, é o mercado que gostaria de colocar suas pautas na mesa e limitar as ações do próximo governo”. Em 2002, segundo Prado, “já havia um programa econômico – mas um programa com linhas gerais”.

E, mais do que isso, Lula e um governo petista não são exatamente novidades em nossa vida política e econômica. Há um currículo envolvido. “Lula já tem uma história como presidente, já tem credibilidade, terminou seu governo com 87% de aprovação geral. Isso não é pouca coisa. Ele tem o que mostrar, a economia cresceu naquele período. Foram gerados milhões de empregos, o salário mínimo subiu significativamente, a questão fiscal foi resolvida e houve crescimento, não foi recessiva. Se pegarmos todas as situações econômicas, até as reservas internacionais, o resultado foi excelente. Na visão dos economistas convencionais, as reservas sequer eram uma questão crucial. Mas o legado foi tão importante que Bolsonaro, que destruiu tanta coisa, não conseguiu destruir isso. A inflação foi baixa, as exportações dobraram, houve crescimento em todos os setores. Temos um candidato com uma história de gestão democrática e diálogo com todos os atores sociais. É até contraprodutivo delinear todo um programa neste momento, já que está sendo feito um arco de governanças para se administrar com qualidade, sem sabotagens”, diz Antonio Prado.

Mas e a integração com outros países do continente? Lula vem falando em retomar com força os caminhos do Mercosul, UNASUL, CELAC e também em fortalecer os BRICS. E isso vem sendo calado nos noticiários e nas análises de formadores de opinião, como se não tivesse importância. Lula chegou a falar em um discurso sobre “moeda regional”. Não mais repetiu esse tema, mas deixou clara a intenção de não ficarmos exclusivamente à mercê do dólar. E, no novo desenho global, essa é uma questão que deverá adquirir importância crescente. Prado analisa essas ideias dentro do contexto mundial atual:

“O fato dos EUA e da Europa terem usado o mecanismo financeiro como arma, mecanismo de pressão, causou uma crise inédita. Não é trivial congelar ativos de 600 bi da Rússia – esse tipo de uso gera uma desconfiança geral e exacerba incertezas no mercado internacional. O efeito é brutal em termos da ordem econômica internacional. Relembrando o caso do ‘Toyotismo’ e seus impactos na indústria automobilística norte-americana: ele foi combatido com o embargo da soja para o Japão, afetando inclusive a segurança alimentar daquele país. Isso volta a preocupar, esse uso da soberania do dólar como arma gera incertezas. Foi o que fez disparar os esforços na criação de sistemas alternativos, o que já vinha em debate há anos, já se questionava os chamados ‘privilégios exorbitantes’. Essa soberania do dólar faz com que os EUA não tenham problema para financiar seus déficits, já que o mundo usa os títulos norte-americanos como reserva. Mas as medidas financeiras de guerra farão com que todos os países pensem em sua vulnerabilidade. Isso é um tsunami no mercado financeiro internacional. Essa situação durante a guerra é muito temerária, mexeram com o país com o maior arsenal nuclear do mundo. Este é o contexto, o privilégio exorbitante que já vinha sendo questionado desde a década de 70”.

E no caso do nosso continente e de uma moeda regional? Antonio Prado responde:

“Esses processos de integração tem etapas – a da união monetária é a última. Mesmo que seja uma moeda digital, ela seria resultado de uma integração bem sucedida – é preciso um longo processo de convergência de variáveis macroeconômicas (não podem haver desequilíbrios muito grandes de inflação, produtividade, déficits públicos). Seria um processo demorado de aprofundamento da integração – e seria mais resultado de uma integração do que uma pré-condição para ela”, completa o economista.

E quais seriam as dificuldades imediatas para a criação de uma moeda única? “Temos algumas: na América do Sul já temos um país que já renunciou a sua própria moeda (Equador, totalmente dolarizado) e outros países que, por suas instabilidades ou circunstâncias específicas, se dolarizaram muito, como a Argentina, que tem uma dolarização profunda (além de Bolívia, Peru, Uruguai). Há que se considerar todo esse panorama, é um processo lento, de convergência longa. Um objetivo de longo prazo, complexo. Seria preciso um fundo para lastrear essa moeda – significa usar reservas internacionais de cada um dos países para constituir esse fundo – e, se fosse para usar parte dessas reservas internacionais, talvez fosse melhor constituir um fundo de investimento para investir em infraestrutura regional, aprofundando as relações comerciais e de cadeias produtivas, algo hoje praticamente inexistente (a Autolatina foi uma exceção)”.

Mas como enxergar essa proposta de integração como uma diretriz de um futuro governo? Prado afirma: “O desejo de aprofundamento dessa integração é um ponto positivo. Essa integração aumentaria nosso peso e nossa força no mercado internacional, e a crise do Covid demonstrou que o outsourcing é muito vulnerável a rupturas do fluxo do comércio, estamos em situação de desabastecimento em várias cadeias produtivas por causa das quarentenas. A pandemia marcou um certo fim desse modelo de globalização, pois mostrou que não há como manter cadeias produtivas fora das redes nacionais com a mesma amplitude dos últimos 30 anos. Por isso, aprofundar a integração seria importante para estimular as cadeias produtivas regionalmente, e certamente seria uma estratégia de desenvolvimento e de futuro”, completou.

Resta saber por que esse debate não é aprofundado pelos especialistas e pelos formadores de opinião. A intenção está posta, conversações certamente já estão sendo feitas, mas a importância da proposta vem passando ao largo do debate político.