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A inflação voltou para assustar os brasileiros novamente?

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Quem nasceu, viveu no Brasil e tem menos de 40 anos não conviveu com a “quase” hiperinflação no país. Um mês antes da implantação do Plano Real, em junho de 1994, a inflação acumulada, em apenas 12 meses, chegou ao patamar de 4.922,60%!

Considerando nossa experiência histórica nesse campo, a recente elevação da inflação acende um sinal de alerta. A economia brasileira apresentou taxas muito altas de inflação por mais de duas décadas. E sempre foram taxas muito maiores do que as dos países desenvolvidos.

Nos últimos seis meses (setembro de 2021 a março de 2022) a taxa anual de inflação está acima de 10% no Brasil. Mas para uma economia que já teve, em um único mês, março de 1990, uma taxa de inflação de 82%, uma taxa anual próxima de 10% é preocupante? Será que aquela super inflação do nosso passado recente pode retornar?

Nesse mês de março de 2022, a taxa de inflação oficial atingiu 1,62%, a maior inflação para um mês de março em 28 anos, desde 1994! Em 12 meses a taxa de inflação atingiu 11,3%. Esse número surpreendeu, praticamente, todos os analistas. Daí a enorme preocupação sobre o rumo futuro da inflação nos próximos meses.

A volta da inflação no mundo depois de quatro décadas

Alguns meses após o início da pandemia do novo Coronavírus, em 2020, a inflação voltou a crescer no Brasil e no mundo. A desorganização da economia mundial, nesse período, foi muito intensa, com a interrupção da produção de diversos insumos, das cadeias de suprimentos e de produção, das dificuldades logísticas no transporte marítimo, e assim por diante.

A retomada desigual da produção nas várias regiões do mundo pressionou para cima o preço do petróleo, das demais commodities minerais e das commodities agrícolas. Os governos, especialmente dos países desenvolvidos, para evitar um colapso econômico, injetaram trilhões de dólares para sustentar a demanda. Essa demanda pressionou a retomada desorganizada e assimétrica da oferta de bens, resultando na elevação dos preços.

Quase todos os países, incluindo o Brasil, foram atingidos por esses problemas de oferta de bens. Por exemplo, até hoje a indústria automobilística brasileira tem enfrentado escassez de componentes eletrônicos para a produção de veículos automotores.

Cabe aqui um registro. Desde a década de oitenta do século passado a inflação mundial foi baixa. Essa recente elevação, especialmente nos países centrais, é uma novidade no front econômico em escala global.  Essa inflação mundial veio para ficar? Essa é a resposta que vale alguns milhões! Tudo leva a crer que conviveremos com mais inflação no mundo nos próximos anos.

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A pandemia e a guerra da Rússia com a Ucrânia estão colocando fim à globalização tal como a conhecemos. Tudo indica que a produção com baixos custos, baseada nos salários menores praticados na China e em vários países da Ásia, não seguirá como hoje. Daqui para a frente os países priorizarão sua segurança nacional, garantido o abastecimento de insumos estratégicos, como energia e medicamentos. Os custos e a eficiência econômica ficarão em segundo plano. As cadeias produtivas serão encurtadas regionalmente ou internalizadas no espaço nacional. Um novo mundo, no campo econômico, está nascendo! E, nesse novo mundo, os preços e a inflação serão mais altos.

Então não há saída? A inflação é mundial eo Brasil não pode fazer nada?

O Brasil adotou, desde 1999, um regime de metas de inflação. Esse regime funciona assim: o Conselho Monetário Nacional – CMN fixa uma meta de inflação para os anos seguintes e define um intervalo de tolerância para essa meta. Nesse ano de 2022, a meta de inflação foi fixada em 3,5% e o intervalo em 1,5%. Assim, se a taxa de inflação, ao final deste ano, estiver entre 2% e 5%, terá sido exitoso o trabalho da política econômica do governo e do Banco Central.

Diante das informações conhecidas sobre inflação nos primeiros 3 meses de 2022, como se diz no popular, até as pedras já sabem que a meta (com a tolerância) não será cumprida. O teto da meta, 5%, será rompido em 2022. Esse teto foi ultrapassado também em 2021. As projeções atuais dos especialistas indicam uma inflação entre 7% e 8% até o final deste ano. Com viés de alta, se a situação internacional não ajudar.

Pelo fato do fenômeno inflacionário estar atingindo a maioria dos países no mundo, é inevitável que a inflação no Brasil também esteja alta, correto? Só que não!

O atual governo descuidou, e feio, do enfrentamento da inflação. A inflação é um fenômeno econômico muito relevante por afetar toda a população. Contudo, nem todos são atingidos igualmente. A população de baixa renda, mais vulnerável, sofre muito mais com a perda de poder aquisitivo, pois não tem reservas financeiras para enfrentar a subida dos preços.

Desde o início desse governo, em janeiro de 2019, e até março de 2022, a taxa de inflação cresceu 23,8%. A tabela a seguir apresenta a elevação de importantes preços na cesta de consumo das famílias. Nesse período os preços do grupo Alimentação e Bebidas cresceram 37,4%. A tarifa de energia elétrica cresceu 39,1%. O gás de botijão subiu 59,9%. A gasolina subiu 61,2%. O óleo diesel subiu 76,8%. O etanol avançou 72,5%. E as carnes subiram 73,0%.

Inflação – Governo Bolsonaro

Grupos e Itens selecionadosJaneiro 2019 a Março 2022  
    
Geral   Alimentação e Bebidas23,8%   37,4%  
Carnes73,0%  
Energia Elétrica39,1%  
Gás Botijão59,9%  
Óleo Diesel Gasolina76,8% 61,2%  
Etanol72,5%  
    
Fonte: IBGE. IPCA

Como podemos verificar com as informações acima, a inflação dos últimos anos foi causada, principalmente, pela elevação dos preços dos combustíveis, da tarifa de energia elétrica e dos alimentos.

Poderia ser sido diferente? Sim. Poderia.

Esses componentes da inflação apresentariam menores elevações se tivéssemos um governo que priorizasse a segurança alimentar e a segurança energética.

Vale dizer que o combate à inflação não é tarefa simples para nenhum governo.

Contudo, um país que é praticamente auto-suficiente em petróleo, possui uma robusta matriz energética e elétrica, avança rapidamente em energias renováveis (eólica, solar, biomassa) para geração de energia elétrica e é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, dispõe de condições mais favoráveis para combater a inflação com essas características.       

E quais seriam as políticas necessárias para que esse, ou qualquer governo, entregasse uma inflação mais baixa?

1. Mudar a política de preços dos combustíveis praticada pela Petrobras;

2. Fortalecer uma política de estoques reguladores para alimentos (arroz, feijão, trigo, milho, soja);

3. Taxar produtos de exportação (carnes, petróleo) para que fossem vendidos no mercado doméstico ao invés de exportados;

4. Elaborar um planejamento do setor elétrico que assegure a oferta de energia, mesmo em momentos de escassez de água e de crise internacional;

 As medidas acima não eliminariam a inflação. Mas certamente mitigariam sua elevação.      

E, se parece ser tão fácil elaborar e executar essas medidas que trariam a inflação para um patamar mais baixo, por que elas não são implementadas pelo governo?

Porque, para implementá-las é necessário enfrentar os poderosos interesses do mercado, do agronegócio, dos acionistas estrangeiros e nacionais da Petrobras e dos investidores que querem comprar a Eletrobras e outras empresas estatais do setor elétrico a preço de banana!

Sem enfrentar esses poderosos interesses, aos quais esse governo se curva, provavelmente conviveremos com inflação mais alta nos próximos anos.