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Inflação extrapolada: "Alta de juros não resolveu e vai continuar não resolvendo", diz economista

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Com a confirmação nesta terça-feira (11) de que a inflação de 2021 superou o teto da meta, variando 10,06%, as perguntas que se colocam são: o governo poderia ter feito algo, ainda pode fazer para 2022?

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, deve enviar uma carta pública ao Ministério da Economia tentando responder estas questões. Até o momento, o conjunto das instituições públicas responsáveis pela questão tem apostado em uma saída usual: a alta da taxa básica de juros.

Desde que o Banco Central passou a elevar a taxa Selic, economistas críticos à medida já previam que ela não funcionaria para conter a alta de preços. Isto porque aumentar juros funciona para um certo tipo de inflação - justamente a que não existe no Brasil. E, por isso, a previsão é de que caso Campos Neto e o governo insistam nesta alternativa, a inflação continuará crescendo.

O economista e diretor do Reconta Aí, Sérgio Mendonça, já em julho de 2021 alertava para o fato de que a alta de juros não funcionaria.

"Nós não estamos com uma inflação de demanda. A economia não está andando bem, o mercado de trabalho está mal, a renda não está crescendo, os salários não estão crescendo. Então não há uma inflação de demanda, exceto pontualmente, em um ou outro setor, mas não macroeconomicamente", disse na ocasião.

O aumento da taxa de juros funciona para os momentos em que a inflação de demanda - ou seja, quando o consumo de bens ou serviços está aumentando.

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Esse tipo de aumento de preços, segundo a teoria predominante, ocorre quando "o conjunto dos atores econômicos - empresas, famílias, o próprio governo - tem excesso de dinheiro. Esse excesso sobre uma oferta, de produtos e serviços, faz com que os preços, de forma agregada, tendam a subir. Se esse raciocínio é válido, se diminuem os recursos da demanda", conforme explica o doutor em Economia Paulo Kliass.

Por isso, o aumento da taxa de juros pode servir como alternativa nestas situações: "Quando o governo aumenta a taxa básica e o sistema financeiro segue, as empresas serão atraídas para essa maior rentabilidade financeira e retiram dinheiro do consumo e alocam recursos na poupança".

Kliass ressalta o ponto levantado por Mendonça. "Concordando ou não com esse modelo [explicativo], o fato é que a inflação de 2021 foge totalmente disso. Ela não ocorre por excesso de demanda. Estamos com o desemprego elevado, a mão de obra empregada está com salários bem abaixo em comparação com o passado. O que explica a inflação são basicamente os componentes da chamada inflação de oferta", defende.

Isso significa que o consumo não aumentou, mas sim a oferta de bens e serviços está enfrentando problemas. "São preços sobre os quais não adianta aumentar a taxa de juros. Eles não vão reduzir a intenção de consumo. São, por exemplo, preços agrícolas. O governo se recusou a atuar [neste setor], porque se acabou com a política de estoques reguladores", exemplifica o economista.

No caso do preços dos alimentos, a desvalorização cambial e os preços internacionais favoreceram a exportação em detrimento da venda no mercado interno brasileiro. Por outras razões, o preço da energia e elétrica e dos combustíveis também sofreram altas que não têm relação com um consumo maior.

"Se olharmos a composição do IPCA, produtos como alimentos, transportes, moradia pesam muito. O governo promoveu alta de juros. Isso não resolveu e vai continuar não resolvendo", avalia.

Seja revendo a política de preços da Petrobras, seja retomando estoques reguladores, a contenção da inflação de oferta no Brasil exigira formas do governo incidir na composição destes preços. Mas há um problema: o próprio governo. "Isso [administra preços], pro cardápio liberal, é o pior dos mundos".