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Há os que matam, há os que morrem – a Polarização Verde-Amarela

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A sequência dos últimos dias trouxe atos criminosos que prometem ser a tônica da despedida deste governo. Voltamos à campanha de 2018, mas a naturalização do ato de eliminar quem não tem poder se expandiu. E os discursos que noticiam, comentam e explicam cada crime, bem, insistem em impor o tema da polarização como a nova palavra de ordem que deve ser absorvida negativamente pela opinião pública.

Ameaças de estupro, elogios a torturadores, simulações de fuzilamento, incentivo a invasão de terras do agro e à mineração ilegal, ataques às garantias de indígenas e quilombolas, misoginia manifesta e aporofobia explícita –tudo foi admitido como idiossincrasias deste governo, expressões condenáveis, nada foi criminalizado. E foram simultâneas à retirada de direitos dos trabalhadores, a desregulamentações, ao esvaziamento de órgãos públicos de controle e fiscalização, ao aparelhamento de forças de segurança do Estado... Enquanto isso, houve o assentamento do discurso para a opinião pública: a maldade embolorada do Estado versus a imagem reluzente e moderna do Mercado. Não houve pudores entre os fomentadores do Golpe – Judiciário e Mídia: bastava demonstrar horror ante as falas, mas sustentar o caminhar econômico deste governo. A materialidade do discurso “empreendedor” era pesada e terrível, mas as intenções de fazer o País retornar ao Éden dos privilegiados era doce.

Violência política, discursos de ódio, radicalismos (sempre no plural) foram determinados como os estigmas negativos. A polarização se tornou o mal que explicaria nossas mazelas a quem ainda tenta entender o mar de sangue e excrementos que parecem cair de nuvens ou drones todos os dias.

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Vamos lá, o que é violência? Desemprego, fome, exploração do trabalhador até a última gota de sangue, despejos, são violência? Informações públicas que bailam entre cloroquinas e empreendedorismos são violência? A venda de patrimônio público e de nossa autonomia energética é violência? Lawfare, encarceramentos sem provas, manipulação de eleições, perdas de direitos coletivos, são violências políticas? São discussões interditas.

Matar favelados em suas casas, indígenas e indigenistas em seus territórios, eliminar lideranças rurais e biomas, fomentar milícias e chacinas policiais são violências usuais, já aceitas. Mas esta gente voluntariosa, os guardas da esquina, já quebraram o tabu: começaram matando vereadora em dia de semana, agora assassinam militante petista na folga dominical.

Ante a tristeza, a revolta e possíveis alarmes públicos, o discurso da ordem agiu rapidamente: a fala mais dura de um ministro do STF foi referente a salvaguardar a democracia, sem citar nomes de candidatos e partidos. Por sentir-se ofendido, chegou a cancelar um pequeno partido de esquerda e um deputado de direita cheio de anabolizantes, mas é incapaz de localizar a origem e criminalizar mandantes. A mídia lançou mão de jornalistas que mantém alguma roupagem progressista (a gravata e alguma preocupação ambiental) para iniciar a rodada de falsas simetrias, arengando “discurso de ódio” a “beligerância dos likes”, “violência política” a “gestos tresloucados”. Temos de lembrar que somente alguns credenciados possuem a autoridade preestabelecida de explicar o mundo.

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E vieram apresentadores famosos lamentar a “polarização”, candidatos da terceira via pegando a dica e postando mensagens piedosas, emergidas diretamente da Marcha para Jesus... Todos chorando a morte de dois pais de família, sem culpas e sem lembrar a manchete óbvia: “guarda bolsonarista invade festa de aniversário e mata tesoureiro do PT”. Aliás, essa chamada, o cerne da própria notícia, um assassinato político, jamais existiu. O ritual da circunstância teve de ser trabalhado pelos donos da fala, criando as grades de filtro para conjurar os riscos do acontecimento.

Não há ódio político generalizado e nem a polarização é uma questão. Há apenas o ódio ao excluído e aos ensejos de justiça social. O ódio de classe do Capital, infelizmente unilateral. E a polarização (nada mais corriqueiro em qualquer eleição) só elimina os peões de um lado do tabuleiro, o mais populoso. O Golpe, o Lawfare e os colaboracionistas da mídia mataram a democracia. O bolsonarismo mata gente todos os dias. A política econômica de Guedes mata. O desemprego e a fome matam. A ausência do Estado mata. As forças de segurança matam com autorização expressa, como atos de campanha. Não há nem esperança da falsa simetria existir.

Não é como nos contam: só eles matam, só nós morremos. E, como o general vice-presidente lembrou oportunamente, quem explica o mundo está aqui apenas para fechar o caixão.