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Governo e oposição: desrazões e tiros no pé

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Imagem do site Recontaai.com.br

“A maldade bebe a maior parte do veneno que produz.”
(Sêneca)

Chegamos a um ponto em que todas as pessoas com um mínimo de esclarecimento, noção da realidade, argumentos racionais e alguma preocupação coletiva concordam com o fato de que este governo não pode chegar até 2022. Não há condições de prosseguir sob o caos. As vozes que clamam por esse fim unem vários espectros políticos, ex-governistas conservadores e a oposição de esquerda. Em meio aos protestos, duas pautas sempre surgem como preponderantes: o impeachment (já que naturalizamos a judicialização da política) e a urgente vacinação.

Quanto à primeira pauta, está muito claro que não há ainda condições objetivas de alcance. Quanto a tão desejada vacinação, os entraves são tantos, todos decorrentes da ausência de enfrentamento da pandemia, que não há soluções claras à vista. E temos de nos lembrar que o público que concorda com as duas pautas, que possui as qualidades descritas nas primeiras linhas deste texto, é bem menor do que deveria ser. Não me refiro sequer aos que creem que a vacina possui chips de vigilância ou possibilidades reptilianas. Na verdade, basta olhar as ruas, praias e casas noturnas para descobrir que boa parte da população não se preocupa com mais de mil mortes diárias. O que faz com que as duas pautas mais caras à oposição sejam praticamente alheias à sensibilidade social. Talvez o maior sinal de que são ineficientes é o de que surgem na grande mídia com frequência.

O desespero social passa por outras desrazões deste governo. Pequenos negócios fechando, grandes empresas indo embora, falta de emprego e renda, altas de preços da cesta básica, luz e gás consumindo bocados cada vez maiores da já combalida renda familiar… O auxílio emergencial maquiou esse drama por alguns meses. A simples redução à metade do seu valor já aumentou a crise. Se entre maio e agosto as vendas no comércio cresceram, a partir de setembro, quando o auxílio caiu para 300 reais, elas estagnaram até despencarem em dezembro. Se a economia mostrava números de recuperação – o suficiente para agradar comentaristas econômicos e mercado, além de anestesiar a população – esse otimismo forçado arrefeceu-se.

Os cortes orçamentários, o teto de gastos e a obsessão pela reforma administrativa parecem um tiro no pé das pretensões políticas deste governo. Para além do desejado desmantelamento de todo aparato estatal, a ausência de investimentos governamentais e de programas sociais, inclusive de redistribuição de renda, está prejudicando até setores sociais que apoiaram o presidente. E atingem também grandes empresas, financiadoras da campanha e da volta dos militares ao poder. O consumo deixou de ser o motor da economia – algo que, aliás, os críticos dos governos petistas, à direita e à esquerda, apontavam com nariz torcido como a base de sustentação e popularidade dos anos Lula e Dilma.

O auxílio emergencial, de uma maneira ou de outra, insignificante ou, improvável, no valor aproximado da cesta básica, deve retornar. O próprio governo sabe que dele depende para contribuir com a anestesia geral a que fomos submetidos. No entanto, a irracionalidade ainda graça. O financiamento deverá vir de empréstimos externos, e sob condicionantes obtusas. Márcio Pochmann ressalta: “O governo quer a aprovação da reforma Administrativa em troca do novo benefício, se esquecendo da sequência lógica de que ajuste fiscal não se enfrenta com crescimento de cortes e custos. Sem renda haverá menos consumo, menos produção, menos tributação e menos arrecadação para o governo. É um círculo vicioso”. O governo negocia essa ajuda como se estivesse regateando no mercado, procurando economizar gastos e maximizar vantagens. Falidos, desempregados e excluídos são inimigos incovenientes.

Enquanto as discussões se alongam, o brasileiro se vira para ganhar o dia. Saques de abono salariais, de FGTS, corrida pelo cadastro social para abater a conta de luz, busca de emprego, filhos sem escola, alimentos da cesta básica subindo mês a mês, o botijão de gás tornando-se artigo de luxo… Pega-se o que se consegue, um bico aqui e outro ali, mas as ruas vão se enchendo de gente sem eira nem beira, portas de comércio fechadas, imóveis vazios, violência e tristeza latentes.

As vozes da oposição que pedem o fim deste governo e vacinas disponíveis, mas pretendem manter a política econômica neoliberal, não irão contribuir para um desfecho minimamente razoável desse drama. Mas as vozes de oposição que combatem as ideias deste governo não podem se limitar aos termos “impeachment” e “vacinação”. É impossível alcançar o imaginário social com esses termos, por mais urgentes que sejam essas tarefas. Não são preocupações reais da população. E é impossível destrinchar um conteúdo de combate real aos ditames econômicos focando nesses temas. É preciso desnudar o contexto – como chegamos ao fundo do poço, política e economicamente – e combater o que aflige trabalhadores e excluídos.

Seguindo o pronunciamento do presidente Lula na celebração dos 41 anos do Partido dos Trabalhadores, urge mostrar que cada ato deste governo visa favorecer o capital e esmagar o trabalhador. Que não há preocupação social, que a marginalização do brasileiro desvalido é crescente, que o esmagamento dos pobres é um objetivo colocado em prática diariamente. O auxílio emergencial, neste sentido, é a pauta mais importante sendo tratada no momento, mas também temos de mostrar à sociedade o tamanho das perdas de direitos e conquistas que o trabalhador sofreu desde o golpe. A espoliação incessante. É preciso ter sensibilidade social e escapar das falas da mídia, que moldam as pautas para a opinião pública. É preciso, como disse Lula, retomar o objetivo de representar os que não têm voz e nem vez.