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Governo da Morte: a Amazônia Miliciana – Conversa com Ricardo Rao

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Em meio a confirmações e desmentidos do que todos já intuíam desde o primeiro dia, conversamos com o indigenista ameaçado e exilado Ricardo Rao. Aliás, Ricardo, mesmo exilado na Europa, não tem dúvida sobre a informação dos corpos encontrados. E, de qualquer maneira, entre informações de embaixadores britânicos e da direção bolsonarista da Polícia Federal, não é difícil saber quem teria mais credibilidade.

Ricardo Rao entrou junto com Bruno na FUNAI, em 2010. Como ele diz, há facções diversas na FUNAI, e eles eram da chamada facção rondoniana, que não era de concurseiros em busca de cargos, promoções e pouco trabalho. No Mato Grosso do Sul ele travou o primeiro conhecimento in loco do genocídio que segue em curso acelerado. Mais tarde passou para Marabá (PA), já como indigenista qualificado, e depois foi para Imperatriz (MA). Ainda no Pará conheceu o que chama “câncer da mílícia”, e a participação profunda das polícias militares nessa organização.

Vamos ao panorama oficial que resume a tragédia em números frios. Além de um estrangulamento orçamentário, a FUNAI é esvaziada de sua função pela interferência política de aliados do presidente. O próprio Bruno Pereira foi exonerado da coordenação de índios isolados e de recente contato pela FUNAI em 2019, e todos seus companheiros sabem que a pressão veio do agronegócio. No ano de 2019, por sinal, sob a batuta de Ricardo Salles, o Ibama também foi esvaziado e o Inpe sofreu forte ingerência política. O governo federal fechou unidades do Ibama, não renovou o quadro de fiscais e alterou as regras de autuação de irregularidades. De 2000 a 2010, o Ibama emitia entre 20 mil e 25 mil autos por ano, com média anual de 5 mil multas ambientais por desmatamento na Amazônia Legal. Em 2020, o número caiu para 2.334 autos de infração nessa vasta região. No ano passado, mal passaram de dois mil. E quem está na região sabe: abriram as porteiras das terras indígenas.

Se o Estado foi se esvanecendo, as milícias ganharam espaço e poder. Ricardo conta: “Se investigarem a fundo a morte do Bruno, aparecerão os PMs. Não é umaça podre, são barris”. Ele relembra sua própria experiência: “o 4º BPM de Marabá deve ser o lugar com mais milicianos no planeta. Em Imperatriz, um subcomandante da PM invadiu minha sala para liberar uma moto apreendida como instrumento de crime ambiental”. As ameaças sempre foram uma constante a lideranças indígenas e aos indigenistas, mas todos sabiam que matar um deles geraria uma dor de cabeça constante junto à polícia e ao sistema de justiça. “Hoje não. Quando vi que assassinaram Paulino Guajajara, sabia que seria um dos próximos. Passaram das ameaças à execução, sem medo algum de represálias. Parece que este governo incentivou a morte e garantiu de vez a impunidade”.

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) contabiliza ao menos 313 pessoas assassinadas na região nos últimos dez anos. Isso são 77% do total de mortes (403) em disputas por terra ou água em zonas rurais do país. Só em 2021, foram 29 mortes nos estados da Amazônia Legal. Casos de violência contra indígenas aumentaram em mais de 60% na atual gestão federal. E Ricardo relata que as organizações milicianas não contam apenas com criminosos locais e PMs. “Quando saí, já estava começando a participação de militares das Forças Armadas nesse esquema. Armas e drogas entram pela fronteira, a corrupção lá é generalizada. O subtenente da Marinha Juciel, hoje na Funai, é capanga do delegado da PF, Marcelo Xavier, que foi nomeado à presidência da FUNAI. O subtenente foi para a FUNAI do Mato Grosso organizar a milícia de lá”. E Ricardo prossegue: “a PF hoje está completamente aparelhada. Esse delegado que veio de lá é uma figura triste do bolsonarismo. Em seu currículo, indiciou o amante da esposa, espancou o pai de 75 anos e, quando era delegado da PF em Barra do Garças, durante uma das maiores operações de expulsão de invasores realizada pelos órgãos federais, passava informações antecipadas aos fazendeiros invasores”. E o Ministério Público? O indigenista responde. “É preciso parar de encará-los como super-heróis. O MPF está completamente contaminado. A cara deles é de parasitas concurseiros, que querem sua mesa limpa. A cara deles é o Deltan Dallagnol”.

Ricardo teve que sair daqui há quatro anos, após ameaças de morte. “Nós somos judeus em 1938”, ele diz. E tem certeza de toda a trama que assassinou Bruno Pereira, que foram criminosos locais, contando com a ajuda de autoridades para decidir pelas mortes. “Sei que gravou um vídeo desmontando um esquema de pesca ilegal e tráfico, apontou nomes e sua denúncia foi vazada por autoridades, ou da PF ou o MP, para os futuros acusados. Aí sua morte foi encomendada. E tenho certeza de que Dom estava no lugar e na hora errados”. Mas também tem a certeza de que a morte de um jornalista estrangeiro é que dará a repercussão que o governo e as milícias locais não desejariam.

Em resumo: se a situação nunca foi a ideal, jamais o morticínio e a ganância estiveram tão em voga. A certeza da impunidade faz com que grileiros, madeireiros, traficantes e outros empreendedores ilegais avancem sob incentivo deste governo. E faz com que a morte avance também. Não podemos dizer que Bolsonaro não cumpriu com suas promessas de campanha: ele anunciou suas intenções.