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Governo Bolsonaro: em breve não verás e nem terás País nenhum

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opina mauricio
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No apego de um homem à sua vida há algo mais forte que todas as misérias do mundo. O juízo do corpo tem o mesmo valor que o do espírito, e o corpo recua diante do aniquilamento. Cultivamos o hábito de viver antes de adquirir o de pensar.”

(Camus, O Mito de Sísifo)

Até que ponto pode chegar a rejeição e o ódio ao próprio lugar de origem? Temos assistido a um projeto de destruição consciente, que ultrapassa a realidade física, que visa aniquilar quem fomos, quem somos e qualquer esperança de vir a ser. A terra, a gente, o passado, o presente e projetos futuros: nada escapa do ódio ao próprio País que hoje está instalado no poder.

Em relação ao meio ambiente, a tragédia já era anunciada. Bastou a notícia da vitória nas urnas para que a soja, o gado, o garimpo se expandissem a ferro e fogo, eliminando qualquer elemento de vida, leis de regulação e órgãos de fiscalização que se apresentassem no caminho.

Ao mesmo tempo, ao longo destes três anos, vimos uma luta constante contra o levantamento básico de quem somos, como e onde vivemos. Ataques criminalizaram do Inpe ao IBGE, rejeitando qualquer levantamento de dados e imagens que mostrassem o curso da tragédia que vivemos. Até o censo demográfico vem sendo postergado e tratado como algo sem utilidade pública.

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Para além de um retrato acurado de quem somos, de base para estudos, planejamento, políticas públicas e ações institucionais, de ser referência à sociedade como um todo, aparentemente o censo peca em vislumbres que causam espécie ao decoro dessa gente. Fornece bases de comparação. Mostra a desigualdade. Revela a pauperização. Ressalta o retrocesso. Tal qual as imagens do Inpe mostram a devastação, os dados do censo escancaram a pobreza. Nossa identidade é feia e não deve ser exibida.

No final do ano, a área de pesquisa sofreu um corte de verbas que deu a dimensão de sua importância para a mentalidade vigente. O MCT teve 87% da sua verba cortada, sufocando milhares de pesquisadores que contavam com os recursos para continuar seus trabalhos. O orçamento da pasta caiu de R$ 690 milhões para R$ 89 milhões. É uma redução de 58% de 2015 para cá. Atualização, inovação e protagonismo na área científica não é algo que deva fazer parte de nossa identidade. Pesquisar quem somos e para onde iremos é algo fora de cogitação.

Na área cultural é que a ideia de genocídio fica clara. Pois não se trata apenas de matar pessoas vivas, mas de apagar fontes, memórias e bases de reflexão, autoconhecimento e criação.

Em ambiente de mercado em crise devido ao avanço predatório global de grandes corporações de entretenimento e cultura, a manutenção de atividades criativas e até a sobrevivência dos atores deste mercado depende da intervenção estatal, especialmente em casos de enfrentamento dos desníveis socioeconômicos regionais e do avanço das tecnologias digitais.

Por aqui, além de todo o desprezo a políticas e incentivos públicos, a pandemia parece ter cumprido um sonho dos mandatários: quaisquer atividades presenciais, ou que escapem das garras das corporações que nos colonizam com seus bens culturais e formam o mainstream de entretenimento, estão condenadas à invisibilidade e ao encerramento de atividades. O fomento, o apoio e o foco na cultura, que ocuparam papel central nos governos petistas, encararam desde o golpe a extinção de seu Ministério, figuras patéticas e declaradamente destrutivas ocupando cargos na área, a demonização da principal lei de incentivo e a tentativa clara de extinção de alguns órgãos.

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Se tomarmos o cinema e a Ancine como exemplo, podemos relembrar o patamar que alcançamos. Durante todo o período FHC, foram lançados 186 filmes nacionais. Entre 2003 e 2016, 1212 longa-metragens brasileiros chegaram ao mercado. A média anual subiu de 23 para 86 filmes. O número de salas de cinema quase dobrou entre 2003 e 2015, alcançando um público de 173 milhões anuais. Só em 2016, o audiovisual brasileiro cresceu a uma taxa de cerca de 10%. Uma área que agregou R$ 24,5 bilhões à economia do País só em 2014. Em 2016, somente esta área gerava mais de 250 mil empregos diretos e indiretos. No Brasil atual não sabemos sequer quando os filmes nacionais produzidos nos últimos dois anos vão atingir o público.

Por fim, o patrimônio da memória. Funarte, Fundação Palmares, Iphan… Entidades que tenham algum laço com a preservação de quem somos e já fomos são ridicularizadas e esvaziadas. O Iphan, que deveria zelar pela preservação e fiscalização do estado de conservação de bens culturais do país, teve seus mais baixos orçamentos nos últimos três anos. Foram R$79 milhões em 2019, R$31 milhões em 2020 e R$9 milhões em 2021. Hoje uma cervejaria ameaça Luzia, uma bizarra loja de departamentos ameaça outro sítio arqueológico, espaços tombados têm sua regulação destruída para a exploração privada.

O sucateamento se dá de diversas formas. Funcionários de carreira com qualificações para a área foram afastados do Iphan. O Fórum de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural Brasileiro levantou que 12 de seus superintendentes regionais não possuem o mínimo perfil para o cargo, outros não possuem especializações para lidar com patrimônio memorial. Todos nomeados neste governo. Nossa identidade, palpável ou imaginável, deve ser apagada sistematicamente.

Teremos de reagir antes do último passo para o precipício. É natural que reajamos. A destruição é da terra, da história, das gentes, das lutas e sonhos. O aniquilamento de nossa identidade avança para o passado. O ódio por quem somos é incomensurável. Sequer devemos procurar quem fomos. E, se esse ideário prosseguir, não teremos nem mesmo o direito de imaginar o que seremos.