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Gasolina é pra quem pode… E o petróleo não é nosso

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Assim como a chegada de Cabral, a descoberta do primeiro poço de petróleo também foi na Bahia. Mas ali, pela primeira vez, vislumbrou-se a possibilidade de um País e de um futuro sem subserviência. A criação e a consolidação da Petrobras sempre esteve no cerne de um pensamento nacionalista e desenvolvimentista que resistiu ao entreguismo histórico de nossas elites. Até mesmo uma parcela dos militares, talvez o setor que represente maior trunfo e símbolo do servilismo brasileiro, aderiu ao movimento.

Foram mais de quatro décadas de resistência da Campanha do Petróleo. Nem mesmo as décadas de ditadura militar alteraram essa soberania. Foi preciso esperar o neoliberalismo do período FHC para que o projeto de País de Campos e Gudin tivesse uma possibilidade de vitória. A Lei do Petróleo e a criação da ANP, em 1997, iniciou a escalada em prol dos interesses externos que minou a consciência sobre o controle de um recurso soberano que, como vemos, até hoje é uma peça fundamental no xadrez geopolítico.

Ao final dos anos de governo do PT, enquanto o Brasil era a sexta maior economia mundial, 20% do nosso PIB dependia de uma cadeia produtiva diretamente integrada à indústria petrolífera. E o Pré-Sal, a maior reserva petrolífera encontrada nesse período, encontrou a Petrobras como a empresa mais capacitada de explorar o recurso em águas profundas. Um casamento perfeito que poderia alterar o estatuto global brasileiro em termos de riquezas e poder econômico. Um casamento que certamente justificou intervenções políticas externas. Mais do que uma estatal que explorava uma riqueza nacional, a Petrobras foi uma ideia de País.

Hoje vivenciamos uma situação em que o monopólio é uma ideia pecaminosa, herética. E, apesar de nossa imensa riqueza natural, o que apavora o brasileiro é ter de lidar com a gasolina e o gás mais caro da história. Por trás da inacessibilidade desses preços, um País que empobreceu a cada dia com uma velocidade espantosa. Uma taxa de desocupação que ultrapassa os 13%. Mais de 40% dos trabalhadores ocupados sem carteira assinada e sem direitos. Cerca de 30 milhões de pessoas trabalhando por conta própria, e sabemos o que isso representa, malgrado o bucolismo empreendedor do discurso dos meios de comunicação. Quase 6 milhões de trabalhadores domésticos que não viajam mais de avião e já sabem que não irão ver seus filhos na Disney e nem na universidade. A renda diminuiu e a inflação tem sua previsão jogada para cima a cada semana. A fome voltou a ser a nossa marca e pessoas espalham-se desalentadas nas calçadas das capitais e até mesmo de cidades menores.

O caos que era justificado pela pandemia agora tem a guerra como apanágio. Mas o conflito na Europa iniciou-se há cerca de 20 dias. A nossa guerra é permanente. Toda a realidade retratada pela mídia aponta a guerra e o invasor como os vilões da alta do combustível. Tudo para preservar a paridade de preços internacionais e os lucros para os acionistas da Petrobras (mais de 50% das ações da Petrobras são de corporações de matriz norte-americana). Ninguém pode questionar a opção de abandono do refino e do complexo industrial em prol da venda de óleo bruto. Somos o País das commodities e o nosso futuro é o que sempre fomos.

Desde o poço chamado de Lobato até o Pré-Sal, de uma maneira ou outra, resistimos à invasão com uma quimera nas mãos, com a ilusão de que o petróleo era nosso, o pré-sal era nosso... De lá para cá, o território foi tomado e naturalizamos a tragédia da subserviência colonizada. Temos de voltar a sonhar. Decidir sobre o que queremos ser ou viver como pedintes entre os escombros.