Reconta Aí Atualiza Aí Fator fundamental para preço do arroz é alta do dólar, explica consultor

Fator fundamental para preço do arroz é alta do dólar, explica consultor

preço do arroz

O aumento do preço do arroz se tornou um dos principais temas do debate público econômico. Uma das explicações apontadas por integrantes do governo foi um possível efeito inflacionário causado pelo auxílio emergencial. Para Fábio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores, o fator fundamental é mais simples: a alta do dólar.

Isto ocorre porque, conforme Silveira explica, a cotação do arroz, assim como outros produtos, é feita de acordo com o mercado internacional, no valor da moeda dos EUA.

Confira abaixo a entrevista ao Reconta Aí com as explicações.

É possível creditar ao auxílio emergencial algum efeito sobre o preço do arroz?

Esse assunto é bastante claro. Não foi o auxílio emergencial que provocou a alta no preço do arroz.

A alta do preço do arroz foi fundamentalmente causada – sem excluir outras variáveis pela alta do dólar.

O arroz é um produto que tem sua cotação, em boa medida, não toda, influenciada pelo câmbio. O preço do arroz no sul do Brasil, de onde se irradia o preço para o País como um todo, é influenciado pelo preço do Uruguai, que por sua vez é influenciado pelo preço na Argentina. O Cone Sul tem um processo de formação de preço relativamente convergente. O preço do arroz no Brasil guarda relação com o preço do arroz internacional.

Como isso funciona?

Há várias praças, principalmente na Ásia. Se sobe o preço o do arroz asiático, isso influencia na formação do preço do arroz no sul do Brasil. Esse preço no sul do Brasil é cotado em dólar, como é cotado o preço do arroz no mundo todo. Como são cotados em dólares os preços das matérias primas no mundo todo.

Os preços das commodities é, em primeiro lugar, determinado pelo mercado internacional. Em segundo lugar, pela oscilação do câmbio. A taxa de câmbio no Brasil está em média 30% que a média do ano passado. Portanto, o arroz, em média, tenderia a subir em média 30% ou 35% em relação ao ano passado.

O preço do arroz, de uma certa maneira, ficou relativamente estável no mercado internacional. O governo e o Banco Central erraram em deixar o dólar subiu muito? Eu acho que sim. Agora cabe ao BC tentar devolver uma parte dessa taxa de câmbio. Já vem devolvendo, acho que se se deram conta da bobagem que fizeram de deixar a taxa de câmbio chegar a R$ 5,50. Agora minha impressão é que estão tentando, adotando uma visão mais clara de que é necessário deixar a taxa de câmbio ceder mais um pouco.

Resumindo: é fundamentalmente uma questão de câmbio.

A alta do dólar pode elevar o preço também pelo fato de mercados estrangeiros se tornarem mais atrativos para o produtor brasileiro?

De maneira geral, a maior parte da produção brasileira de arroz é destinada ao mercado doméstico. Quando o câmbio está alto, é verdade que o produtor de arroz pode tentar exportar um pouco mais. Mas ele não tem canais, clientes e estruturas para exportar da noite para o dia um volume seis vezes maior de arroz [do que já vinha fazendo].

Não há escassez de arroz. O Brasil não saiu exportando arroz. Ele exportou soja. Ele não exportou arroz em um volume impressionante. Pode até ter tentado, mas não tem logística para isso. Não se faz isso em seis meses, um ano. São necessários vários anos para tentar se estabelecer como exportador de arroz no mercado internacional.

Nesse ano, com uma recessão fortíssima, é possível ter sobra de arroz. O auxílio emergencial, na verdade, permitiu que as pessoas consumissem um pouco mais de arroz. As pessoas não consumiram só arroz. O que elas estão comendo de arroz este ano não tem uma grande diferença em relação ao no ano passado. Os números da própria agência do governo não apontam no sentido de haver escassez. Há um estoque normal, e pode até subir um pouco.

O arroz é o mais emblemático, mas se você olhar a carne, aumentou 60% nos últimos 12 meses. Todos alimentos tiveram altas impressionantes.

Reduzir ou eliminar alíquotas de taxas de importação pode ajudar a baixar o preço do arroz?

Vai dar uma pequena aliviada. Um efeito leve.

Quais as alternativas, então?

Obviamente, teria subido ainda mais. Estavam tentando tirar subsídio. Se tirar, piorou. A cesta básica ficaria mais cara.

Como o Banco Central tem muita reserva, eles poderiam queimar parte das reservas para baixar a taxa de câmbio. Além de baixar o câmbio, outro caminho seria baixar os tributos dos alimentos. Baixar PIS/Cofins, ICMS. A carga tributária dos alimentos é altíssima no Brasil.

A gente deixou o dólar subir e há uma carga tributária historicamente elevada no setor de alimentos. A renda está sendo prejudicada pela alto dos preços. Neste caminho, será muito difícil uma recuperação da economia em 2021.

Em um País que não tem mais uma indústria relativamente forte, como tinha há 30 anos, isso também serve para mostrar que é importante tratar bem o agronegócio. Tem que se desenhar uma política econômica e industrial que leve em consideração esse potencial. Ou vamos liquidar um dos últimos recursos gerador de riquezas no País.

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