Pular para o conteúdo principal

"Fascismo é estágio superior do liberalismo", diz representante da França Insubmissa

Imagem
Arquivo de Imagem
frança

França e Brasil compartilham um elemento: a presença de fortes candidatos de extrema-direita no cenário político. Cada um apresenta suas dificuldades. No país europeu, a centro-direita liderada por Macron foi capaz de derrotar Marine Le Pen - com a esquerda ficando em terceiro lugar nas últimas eleições presidenciais. Por aqui, convivemos com Bolsonaro no governo, mas com Luiz Inácio Lula da Silva liderando as pesquisas de intenção de voto.

O Reconta Aí conversou sobre este e outros temas com Christian Rodriguez, secretário de Relações Internacionais do partido de Jean-Luc Mélenchon, La France Insoumise [A França Insubmissa, em português]. Rodriguez conhece a realidade política latino-americana; sendo ex-militante do MIR chileno, não se esquivou de perguntas sobre as alianças necessárias para se enfrentar a extrema-direita em cada país e afirmou esperar que Lula confirme o favoritismo contra Bolsonaro.

Rodriguez esteve no Brasil para realizar atividades de campanha como candidato ao Parlamento francês, disputando a cadeira reservada ao representante dos franceses que habitam a América-Latina. As eleições ocorrem em junho, e contam com algo incomum na França: a união de socialistas, comunistas, ecologistas e insubmissos, nome dado aos integrantes da LFI.

Reconta Aí: É sabido que boa parte do eleitorado da extrema-direita francesa é composto por ex-votantes da esquerda, em especial do Partido Comunista. Como a França Insubmissa busca reconquistar esse tipo de pessoa? Na sua avaliação, vocês estão tendo sucesso?

Christian Rodriguez - Acredito que a contribuição que queremos dar se dá a partir [do diagnóstico] do total abandono da esquerda, ou de uma boa parte de esquerda, ao nível do enraizamento popular. A porta que abrirmos é nos adequarmos, [construindo] um instrumento político adaptado para que possamos somar o máximo dos setores sociais que estão lutando hoje. A prioridade que temos - sair das formas tradicionais de organização, da forma partidária [clássica] - abre [a possibilidade de] um movimento para nós. Evitar os dilemas de um partido fechado.

Abre-se um movimento e hoje a vantagem é abrir o máximo possível, porque a política não é uma propriedade privada, ainda não foi privatizada, mesmo que eles queiram privatizar todos os dias. Foi isso que ajudou [a estabelecer a França Insubmissa]. Fomos em direção ao nosso povo de acordo com a luta, porque não há nada que se ganha sem luta.

Reconta Aí - Algumas experiências em outros países que buscaram superar antigos partidos de esquerda têm tido dificuldades. O exemplo mais dramático foi o Syriza, na Grécia, que foi sufocado pelas instituições da União Europeia. Como você pensa as possibilidades de uma alternativa radical na França levando em conta o peso do Bloco, liderado pela Alemanha, um país em que a esquerda é bastante minoritária?

Christian Rodriguez - O acordo [político existente na Alemanha] se baseia na imobilidade das forças. Ninguém pode se mover, porque o outro vai cancelar. Hoje, há a confirmação disso porque o ministro da economia acaba de anunciar um plano de austeridade. É possível ver como eles fazem isso em todos os lugares, o que quero dizer com isso é que a democracia vai se resumindo a uma única voz. [O plano deles] é estarmos sempre à mercê de uma Europa completamente neoliberal.

A felicidade do nosso povo está em jogo se continuarmos a aceitar as regras que existem na Europa. Não podemos continuar a pensar que o nosso povo ficará feliz, se a política agrícola comum vai contra a saúde do nosso povo. É algo urgente hoje reformar esta Europa refém das políticas neoliberais. Nem temos o direito de ter nosso próprio orçamento [agrícola] de 3% porque está tudo definido, eles nos disseram que devemos apresentar aos grandes chefes da Europa. Não.

Na minha visão, se formos bem-sucedido em nossa estratégia e vencermos, penso que a Europa será confrontada com um dos maiores contribuintes financeiros [do Bloco] porque, apesar de tudo, somos a quinta potência do mundo. Vamos bater um pouco na porta.

Reconta Aí - As diversas forças progressistas na Europa, de esquerda e centro-esquerda, não estiveram unidas nas eleições presidenciais. Esta nova unidade construída para as eleições legislativas são uma grande novidade. O que mudou em tão pouco tempo para que essa articulação se concretizasse?

Christian Rodriguez - Eu acho que o que fez avançar esta unidade rápida - fizemos em 11 dias - é que todos nós percebemos um programa como um futuro em comum. Não era apenas um projeto feito a partir de militantes. Foi um projeto real da maioria das pessoas. "Queremos mudar essa situação das políticas neoliberais, queremos outra política, outro mundo" e acho que demoramos [para alcançar a unidade], demoramos em 2017, tínhamos [basicamente] os mesmos programas. Nós fizemos programas melhorados, isso foi a chave. O programa que nós fizemos para essa eleição [presidencial], ele teve muito mais participação do nosso povo, então eles [povo] se apropriaram.

Você vê esse programa e isso talvez já seja a vitória. Você vê as estratégias com capacidade de vencer e nosso povo diz: "Bem, é assim que todos podemos mudar o mundo". É arrancar da classe política essa ideia de que eles pensam em nosso lugar. Você vê todos os novos candidatos que têm essa estratégia, não somos profissionais políticos. Viemos dos mundo [da luta social]. Nós viemos de muitos lugares. Você vê, há uma candidata que era uma faxineira. É um direito, ela está se movimentando. Ela quer ser candidata.

Isso é uma lição política e eles não conseguem conceber isso. A classe dominante não aceita que é o povo possa chegar ao coração da vida política, que ela pode ser transformada. Porque não vamos ser candidatos a deputado ir e fazer a mesma política da mesma forma [tradicional]. Queremos transformar a 6ª República.

Reconta Aí - Nas eleições presidenciais na França, o segundo turno ficou entre a centro-direita, ou direita liberal, e a extrema-direita. Isso colocou um desafio para a esquerda se posicionar: há a avaliação de que os efeitos do liberalismo geram um terreno fértil para o fascismo e, ao mesmo tempo, que a extrema-direita deve ser evitada a todo custo. No Brasil, não temos exatamente a mesma situação, até porque a extrema-direita já ganhou, mas a esquerda lidera. Mas, por aqui, aparece o debate das alianças necessárias. Como você vê o equacionamento desta questão?

Christian Rodriguez - É uma boa questão. O liberalismo... o liberalismo produz fascismo. O [novo] fascismo é o estágio superior da aplicação da política neoliberal. OK, essa é a primeira observação.

A segunda observação é que existe uma certa direita que, na França, nós deixamos de ter. Aquele que era uma direita social, uma direita gaullista que foi completamente importante por um momento. Jacques Chirac, ele vem justamente deste setor. Era possível dialogar, havia uma disputa sobre o caráter do estado social. Mas essa direita se fundiu com a direita dura, com a extrema-direita.

Veja como [neste processo] Marine Le Pen deixou de ser Le Pen [mesmo sobrenome do pai, figura histórica da extrema-direita francesa] para se tornar apenas Marine.

É caricatural, quanto mais você vê a extrema-direita, mais ridícula ela parece, mas ela é perigosa. Em nome do jornalismo, você pode dizer, tudo qualquer coisa através da TV. Você vê, é impressionante. Parte da imprensa limpa, transforma apenas em Marine.

Christian Rodriguez

Em torno dessa mulher chamada Marine Le Pen existe um projeto completamente oligárquico.Ela é uma mulher que é contra o salário mínimo, que quero trabalho até 65, 67 anos. Ao mesmo tempo que foi uma mulher que copiou os programas do Mélenchon, ele dizia algo e no outro dia ela dizia a mesma coisa.

Há os princípios e as alianças. Sou a favor de todas as alianças contra o fascismo. Mas, que isso fique claro, em torno de um programa.

Se o programa não está claro, as alianças não serão claras. Então veja, não posso fazer aliança por interesse. Porque neste ponto estão os perigos. Fomos claros até o fim neste ponto. Tivemos a liberdade no segundo turno de nos abster de votar em Macron, mas não de votar na extrema-direita.